com informações: Sergio Leitão | INSTITUTO ESCOLHAS
Estudo do Instituto Escolhas mostra que a expansão agrícola avança de formas muito diferentes nas duas regiões metropolitanas.
Como isso é possível?
Santarém vive uma rápida expansão da soja e do milho.
Para compreender esse processo, é preciso reconhecer que produção, abastecimento e segurança alimentar nem sempre caminham juntos.
É possível percorrer o mesmo estado e encontrar dois sistemas alimentares seguindo trajetórias quase opostas.
Na Região Metropolitana de Belém, a paisagem agrícola continua fortemente associada a produtos que fazem parte da economia e da cultura alimentar amazônicas: açaí, mandioca, dendê e cacau. Cerca de 800 quilômetros a oeste, na Região Metropolitana de Santarém, a dinâmica é diferente. Ali, a soja já ocupa 61% de toda a área plantada.
O contraste aparece no estudo Belém e Santarém: os dois caminhos da alimentação no Pará, publicado pelo Instituto Escolhas em setembro de 2026. A publicação inaugura uma série dedicada aos sistemas alimentares das regiões metropolitanas dos nove estados da Amazônia Legal.
Mais do que mostrar o que se planta, os números revelam como o território está mudando.
Entre 2017 e 2024, a área plantada cresceu 45% na Região Metropolitana de Belém. Apesar da expansão, foi mantida a predominância das culturas regionais.
Em Santarém, o crescimento chegou a 61% no mesmo período, incorporando mais de 74 mil hectares à produção. A transformação, porém, ocorreu de forma muito mais concentrada: a área destinada à soja aumentou 118% e a de milho, 83%. No sentido contrário, a mandioca perdeu 72% de sua área plantada, enquanto o arroz recuou 42%.
Os dados colocam uma questão que vai muito além da agricultura: qual será a função da terra na Amazônia?
Produzir mais não significa necessariamente produzir mais alimentos para a população que vive naquele território. Commodities agrícolas, agricultura familiar, produção regional e abastecimento urbano cumprem funções econômicas diferentes e podem coexistir. O desafio está em construir um sistema capaz de equilibrá-las.
Santarém mostra essa tensão de maneira particularmente clara. A expansão da área agrícola ocorre simultaneamente ao avanço da soja e do milho e à retração de culturas diretamente associadas à alimentação regional.
Belém segue outro caminho. Também amplia sua área cultivada, mas preserva uma participação maior de cadeias historicamente ligadas ao território amazônico.
Toda boa pergunta merece uma boa fonte
Confesso: o trabalho do MapBiomas chega ao ponto de me deixar realmente emocionado por causa de um satélite chamado Landsat.
O Landsat 5 não foi apenas mais um satélite. Projetado para uma vida útil de apenas três anos, permaneceu em operação por quase três décadas. Seus sensores produziram imagens em diferentes faixas do espectro eletromagnético, permitindo observar e distinguir vegetação, solo, corpos d’água e diversas transformações ocorridas na superfície terrestre.
Na época de seu lançamento, talvez poucos imaginassem o tamanho do legado que aquele equipamento deixaria. Na prática, ele ajudou a produzir algo semelhante a um filme do planeta, registrado não apenas nas cores que enxergamos, mas também em frequências de radiação que a física nos permite interpretar.
Décadas depois, parte dessa história pode ser acompanhada gratuitamente pela internet em plataformas como o MapBiomas.
E é aí que a coisa fica fascinante.
Quanto maior e mais contínua é uma série de imagens, maior é a capacidade de pesquisadores, matemáticos e cientistas de dados de comparar o território ao longo do tempo, identificar padrões e medir, com muito mais precisão, o que mudou, onde mudou e qual foi a dimensão dessa transformação.
É justamente nessa escala que o MapBiomas, iniciativa liderada por Tasso Azevedo, se torna extraordinário.
O projeto transforma décadas de imagens de satélite em informação inteligível: floresta que desapareceu, agricultura que avançou, vegetação que se regenerou, cidades que cresceram, rios que mudaram e áreas úmidas que se transformaram.
É como se pudéssemos voltar no tempo e assistir, ano após ano, à mudança da superfície do Brasil.
O paradoxo entre produção e fome
Visto do espaço, o paradoxo fica ainda mais evidente.
O contraste ganha outra dimensão quando os dados agrícolas são colocados ao lado dos indicadores sociais.
As duas regiões metropolitanas reúnem aproximadamente 2,9 milhões de habitantes. A Grande Belém concentra cerca de 2,5 milhões de pessoas, enquanto a Região Metropolitana de Santarém possui aproximadamente 401 mil habitantes.
Ao mesmo tempo, existem cerca de 103 mil famílias inscritas no CadÚnico em situação de risco de insegurança alimentar grave: aproximadamente 91 mil na Região Metropolitana de Belém e 12 mil na Região Metropolitana de Santarém.
É importante fazer uma distinção aqui: esses números se referem a famílias, enquanto os dados populacionais contabilizam pessoas. Portanto, não é correto dividir diretamente 91 mil por 2,5 milhões ou 12 mil por 401 mil para calcular a parcela da população em insegurança alimentar. Para isso, seria necessário conhecer quantas pessoas vivem nessas famílias.
Mas o contraste permanece, e é enorme.
Surge então uma das grandes contradições dos sistemas alimentares contemporâneos: um território pode ampliar sua produção agrícola e, simultaneamente, conviver com milhares de famílias vulneráveis à fome.
Isso acontece porque existe uma longa cadeia entre a lavoura e o prato.
Produzir é apenas uma parte dela. Depois vêm armazenamento, transporte, processamento, mercados, feiras, compras públicas, renda e políticas de abastecimento.
E é justamente nesse ponto que o estudo encontra algumas de suas lacunas mais preocupantes.
Na base analisada para 2024, o Governo do Estado do Pará registrou R$ 0,00 em despesas públicas com abastecimento. O mesmo ocorreu em cinco dos oito municípios da Região Metropolitana de Belém e em dois dos três municípios da Região Metropolitana de Santarém.
Mercados e feiras não são elementos secundários. São parte da infraestrutura necessária para transformar produção agrícola em comida efetivamente disponível para a população.
E há uma assimetria que merece atenção: enquanto pequenos produtores desempenham o serviço fundamental de colocar alimentos diversos e muitas vezes frescos na mesa da população, grandes cadeias de commodities podem contar com estruturas econômicas, logísticas e tributárias muito mais favoráveis.
A pergunta, portanto, não é apenas quanto o Pará produz, mas o que produz, para quem produz e de que maneira essa produção chega à mesa de quem vive no território.
Onde entra a ATER
Nesse cenário, a Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER) pode funcionar como uma ponte entre produção, tecnologia, crédito e mercado.
Dados reunidos em outro trabalho do Instituto Escolhas indicam que apenas 18% dos estabelecimentos da agricultura familiar no Brasil têm acesso à ATER, com cobertura ainda mais limitada na Região Norte e em territórios remotos.
Distâncias, custos logísticos, infraestrutura deficiente e a vulnerabilidade econômica dos pequenos produtores dificultam não apenas a produção, mas também o beneficiamento, o transporte e a distribuição das mercadorias.
A conexão com Belém e Santarém é direta.
Não basta desejar que permaneçam no território cadeias como mandioca, açaí, frutas, hortaliças ou sistemas agroflorestais. Para competir economicamente pelo uso da terra, esses produtores precisam ter acesso a conhecimento, tecnologia, financiamento, armazenamento, beneficiamento e canais de comercialização.
Sem essas condições, a disputa pelo território se torna desigual.
E talvez seja justamente esse o ponto central revelado pelos dois caminhos da alimentação no Pará:
a terra pode produzir cada vez mais e, ainda assim, o sistema alimentar pode produzir cada vez menos segurança para quem vive nela.



