Ampliação do Mundial para 48 seleções, jogos distribuídos por três países e milhões de deslocamentos aéreos colocam a Copa do Mundo de 2026 no centro de um debate global sobre clima e sustentabilidade
por Rudá Capriles | ECO21 |
A Copa do Mundo FIFA de 2026 promete ser a maior já realizada. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções, reunirá 104 partidas e será sediado simultaneamente por três países: Estados Unidos, Canadá e México. A expansão representa um marco esportivo para a entidade máxima do futebol. Mas, do ponto de vista ambiental, levanta uma questão cada vez mais presente entre pesquisadores e especialistas em sustentabilidade: a edição de 2026 poderá se tornar a Copa do Mundo mais poluente da história?
Os números disponíveis indicam que essa possibilidade não pode ser descartada. Estimativas divulgadas pela plataforma global de contabilização de carbono Greenly apontam que a competição poderá gerar aproximadamente 7,8 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono (CO₂), mais que o dobro das emissões atribuídas à Copa do Catar, realizada em 2022.
Caso a projeção se confirme, o torneio não apenas superará todas as edições anteriores da Copa do Mundo em volume de emissões, como também passará a figurar entre os eventos esportivos com maior impacto climático já registrados.
A questão ganha relevância em um momento em que governos, empresas e instituições internacionais enfrentam crescente pressão para reduzir emissões de gases de efeito estufa e cumprir metas climáticas alinhadas ao Acordo de Paris. Nesse contexto, a perspectiva de um megaevento esportivo gerar milhões de toneladas de carbono suscita um debate inevitável sobre os limites ambientais do modelo atual de expansão das competições globais.
O tamanho da Copa e o tamanho da pegada de carbono
A FIFA costuma destacar que a edição de 2026 foi planejada para aproveitar estruturas já existentes. Diferentemente do Catar, onde foram construídos sete novos estádios, a maior parte das arenas utilizadas na América do Norte já está em operação.
À primeira vista, essa decisão poderia representar um avanço ambiental relevante, uma vez que a construção civil responde por uma parcela significativa das emissões associadas a grandes eventos esportivos.
No entanto, especialistas observam que a redução das emissões relacionadas à infraestrutura foi compensada por outro fator: o crescimento exponencial da necessidade de deslocamentos.
Com partidas distribuídas por 16 cidades-sede espalhadas por um território continental, a logística da competição exigirá uma intensa circulação aérea de atletas, delegações, dirigentes, patrocinadores, jornalistas e milhões de torcedores.
Segundo as estimativas da Greenly, aproximadamente 87% de toda a pegada de carbono prevista para o torneio estará relacionada justamente ao transporte, especialmente aos voos de longa distância.
A geografia da competição ajuda a explicar esse cenário. As cidades-sede estão separadas por milhares de quilômetros. Um torcedor que acompanhe sua seleção ao longo do torneio poderá realizar sucessivos deslocamentos entre diferentes regiões da América do Norte, acumulando uma pegada de carbono significativamente superior à observada em edições mais concentradas territorialmente.
O paradoxo climático do futebol global
A possível transformação da Copa de 2026 na mais poluente da história evidencia um paradoxo que vem se tornando cada vez mais evidente no esporte internacional.
Nos últimos anos, federações esportivas, ligas e organizadores de grandes eventos passaram a incorporar o discurso da sustentabilidade em suas estratégias institucionais. A FIFA, por exemplo, aderiu em 2021 ao Quadro de Ação Esportiva para o Clima das Nações Unidas e assumiu o compromisso de reduzir pela metade suas emissões até 2030, além de alcançar a neutralidade climática até 2040.
Ao mesmo tempo, porém, as principais competições esportivas continuam ampliando seu alcance, aumentando o número de participantes e expandindo sua dimensão geográfica.
A Copa de 2026 é um exemplo emblemático dessa tendência. O torneio crescerá de 32 para 48 seleções e passará de 64 para 104 partidas. Mais equipes significam mais delegações, mais torcedores, mais deslocamentos e, consequentemente, mais emissões.
Para pesquisadores que acompanham a relação entre esporte e clima, o desafio não está apenas em tornar os eventos mais eficientes do ponto de vista ambiental, mas em questionar até que ponto a expansão contínua desses megaeventos é compatível com os compromissos globais de descarbonização.
Emissões que vão além dos estádios
Outro aspecto destacado por especialistas é que a pegada ambiental de uma Copa do Mundo não se restringe ao transporte e à infraestrutura.
A transmissão global do torneio movimenta uma gigantesca rede de centros de dados, serviços de streaming, redes de telecomunicações e sistemas de armazenamento digital. Bilhões de pessoas acompanham os jogos simultaneamente em diferentes plataformas, gerando um consumo energético que frequentemente recebe menos atenção do que as emissões mais visíveis associadas aos voos ou aos estádios.
Embora esses impactos sejam mais difíceis de mensurar, pesquisadores alertam que eles também precisam ser considerados em avaliações abrangentes sobre o custo climático dos megaeventos esportivos.
Um torneio afetado pela própria crise climática
Há ainda uma dimensão adicional que torna o debate particularmente simbólico.
A Copa de 2026 não apenas contribuirá para as emissões globais; ela própria poderá sofrer os efeitos das mudanças climáticas.
Estudos recentes indicam que aproximadamente um quarto das 104 partidas previstas poderá ocorrer sob condições de calor consideradas potencialmente perigosas para atletas e torcedores. Diversas cidades-sede estão localizadas em regiões que enfrentam temperaturas elevadas durante o verão do hemisfério norte, período em que a competição será realizada.
O cenário revela uma ironia cada vez mais presente no esporte contemporâneo: eventos que contribuem para a emissão de gases de efeito estufa tornam-se simultaneamente mais vulneráveis aos impactos provocados pelo aquecimento global.
A conta climática do espetáculo
A Copa do Mundo de 2026 foi concebida para ser maior, mais abrangente e mais lucrativa. A ampliação do número de seleções e de partidas atende ao objetivo de expandir o alcance comercial e esportivo do torneio, aumentando audiências, receitas e participação internacional.
Entretanto, os mesmos fatores que impulsionam esse crescimento também ampliam seus impactos ambientais.
Diante da projeção de 7,8 milhões de toneladas de CO₂, a pergunta expressa no título desta reportagem deixa de ser apenas uma provocação. Ela se transforma em uma questão concreta para pesquisadores, gestores públicos, entidades esportivas e para a sociedade.
Se as estimativas atuais se confirmarem, a Copa do Mundo de 2026 poderá entrar para a história não apenas como a maior já realizada, mas também como a mais poluente. E isso coloca em evidência um debate que tende a ganhar força nos próximos anos: até que ponto o modelo atual dos megaeventos esportivos é compatível com um mundo que busca reduzir emissões e enfrentar a emergência climática?

