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A Cronologia da Degradação: MapBiomas divulga dados obtidos ao longo de 38 anos de maneira ininterrupta

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

MapBiomas

Dados obtidos ajudam a compreender a morfologia dos fragmentos da vegetação nativa e sua responsabilidade na degradação

Landsat 5 não foi apenas um satélite comum, foi vigoroso. Projetado para durar 3 anos, ele operou por 28 anos. Desde 1986 ele começou a enviar imagens de alta resolução espacial (30m) uma gama de bandas espectrais que permitiam distinguir tipos de solo, vegetação e corpos d’água. 

A plataforma MapBiomas divulgou dados inéditos sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil. Pela primeira vez, pesquisadores calcularam a quantidade de fragmentos de vegetação nativa existentes no país, que passaram de 2,7 milhões em 1986 para 7,1 milhões em 2023 — um crescimento de 163% em 38 anos. O levantamento integra o módulo de Degradação do MapBiomas, recentemente atualizado e disponibilizado gratuitamente.

Dados inéditos do módulo de Degradação do MapBiomas mostram aumento do número de fragmentos de vegetação nativa, redução do tamanho médio das áreas remanescentes e maior exposição dos biomas à degradação

O novo módulo apresenta fragmentos de vegetação nativa em todo o território nacional a partir de meio hectare. Cada fragmento pode reunir um ou mais tipos de vegetação nativa mapeados na Coleção 10.1 do MapBiomas, incluindo formação florestal, formação savânica, formação campestre, campo alagado e área pantanosa.

A fragmentação ocorre quando áreas contínuas de vegetação nativa são divididas em remanescentes menores e mais isolados devido ao desmatamento voltado à expansão agropecuária, urbanização, abertura de estradas e outras atividades. Segundo os pesquisadores, quanto mais fragmentadas ficam essas áreas, maiores são os impactos ambientais.

“Quanto menor for o tamanho dos fragmentos de vegetação nativa, maior será a suscetibilidade à degradação”, afirma Dhemerson Conciani. “O tamanho dos fragmentos de vegetação nativa tem relação direta com a quantidade e variedade da fauna e da flora presente. Cada vez que diminui o tamanho de um fragmento de vegetação nativa, mais problemas aparecem: aumenta o risco de extinções locais dessas espécies, diminui a chance de recolonização por indivíduos vindos de outros fragmentos vizinhos e maior é a proporção do efeito de borda. Em suma, esses fragmentos vão perdendo a diversidade de espécies”, detalha.

De acordo com o levantamento, o tamanho médio dos fragmentos caiu de 241 hectares, em 1986, para 77 hectares em 2023, redução de 68% no período. Até 5% da vegetação nativa do Brasil, equivalente a 26,7 milhões de hectares, encontra-se em pequenos fragmentos com menos de 250 hectares. Na Mata Atlântica, essa condição alcança até 28% da vegetação nativa remanescente, o equivalente a 10 milhões de hectares.

“Considerando a resolução espacial de 30 metros dos satélites Landsat, o menor objeto que conseguimos mapear com confiança nas imagens precisa ter pelo menos 0.5 hectares, então, mapeamos todos os fragmentos de vegetação nativa a partir desse limiar”.

Todos os biomas registraram aumento no número de fragmentos entre 1986 e 2023. O Pantanal apresentou a maior alta, de 350%, seguido pela Amazônia, com 332%. Em seguida aparecem Pampa (285%), Cerrado (172%), Caatinga (90%) e Mata Atlântica (68%).

Mata Atlântica e Cerrado concentram o maior número absoluto de fragmentos de vegetação nativa, com cerca de 2,7 milhões cada. Segundo Natalia Crusco, no Cerrado o avanço da fragmentação está ligado ao desmatamento e à divisão de grandes remanescentes em áreas menores. Já na Mata Atlântica, parte desse crescimento também está relacionada ao surgimento de áreas de regeneração da vegetação secundária.

Na Amazônia, o tamanho médio dos fragmentos caiu de 2.727 hectares em 1986 para 492 hectares em 2023, redução de 82%. No Pantanal, a queda foi de 80%, passando de 1.394 hectares para 278 hectares no mesmo intervalo.

Vegetação nativa sob maior pressão

Os dados do módulo de Degradação indicam que até 24% da vegetação nativa remanescente do Brasil está exposta a pelo menos um vetor de degradação. Isso representa até 134 milhões de hectares sujeitos a fatores como fragmentação, áreas de borda, fogo, vegetação secundária e corte seletivo.

Na Mata Atlântica, até 72% da vegetação nativa, correspondente a 23,4 milhões de hectares, está exposta à degradação. O Pampa aparece em seguida, com até 47% da vegetação remanescente afetada, o equivalente a 4,2 milhões de hectares. Já o Cerrado reúne a maior área absoluta impactada: até 42,6 milhões de hectares, ou 42% da vegetação remanescente do bioma.

O dossel é a camada superior da floresta, formada pelas copas das árvores mais altas, responsável por manter a continuidade da cobertura florestal. Quando essa estrutura sofre impactos provocados por secas, incêndios, ventos, corte seletivo de madeira, efeito de borda ou outras perturbações, surgem clareiras que interrompem essa cobertura contínua tal fenômeno é conhecido como Distúrbio de Dossel.

Uma das novidades do módulo de Degradação do MapBiomas foi justamente o mapeamento desses distúrbios na Amazônia Legal entre 1988 e 2024. Segundo os dados, pelo menos 7% da cobertura florestal da região, o equivalente a 24,9 milhões de hectares, apresentou sinais de distúrbio de dossel por pelo menos um mês ao longo do período analisado. Em 2016, foi registrada a maior área afetada, com 4 milhões de hectares. Entre 2019 e 2024, a área impactada somou 2,1 milhões de hectares.

Nas florestas alagáveis, localizadas em margens de rios sujeitas a inundações periódicas, os maiores registros coincidiram com anos de seca intensa, como 2016, 2023 e 2024.

“A previsão de ocorrência de El Niño para este ano indica condições favoráveis para novas secas na região, o que tende a facilitar a ocorrência desses distúrbios nesse tipo de floresta”, alerta Bruno Ferreira.

O levantamento também identificou 9,7 milhões de hectares com indícios de corte seletivo de madeira entre 1988 e 2024. Desse total, 83,5% concentram-se em Mato Grosso e Pará. Em 2024, seis dos dez municípios com maior exploração estavam em Mato Grosso.

Dados para conservação e restauração

O módulo de Degradação do MapBiomas foi desenvolvido para apoiar estratégias de conservação e restauração da biodiversidade no país. Os dados produzidos pela plataforma dialogam diretamente com a meta brasileira de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030, estabelecida no âmbito do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). O compromisso também está alinhado a acordos e iniciativas internacionais voltados ao enfrentamento da crise climática, à redução das emissões de gases de efeito estufa e à recuperação de ecossistemas degradados, como o Acordo de Paris, que prevê ações de mitigação e adaptação climática; o Desafio de Bonn, voltado à recuperação de áreas degradadas e desmatadas em escala global; e a Iniciativa 20X20, criada para impulsionar a restauração de ecossistemas na América Latina e no Caribe.

“O monitoramento da degradação complementa o monitoramento do desmatamento. A importância desse monitoramento se justifica pelo fato de que a degradação de um remanescente de vegetação nativa muitas vezes pode ser minimizada ou revertida. Porém, se as causas da degradação não forem interrompidas, a capacidade de recuperação biológica natural das áreas afetadas pode ficar muito comprometida”, destaca Eduardo Vélez.

A plataforma permite análises por país, estados, municípios, bacias hidrográficas e áreas protegidas, oferecendo suporte a gestores públicos, pesquisadores, organizações de conservação e setor privado.

“O módulo de Degradação do MapBiomas é uma ferramenta estratégica de apoio à recuperação de áreas degradadas e à conservação da vegetação nativa no país”, afirma Tasso Azevedo.

Qual é a diferença entre degradação e desmatamento?

O MapBiomas diferencia degradação de desmatamento. No desmatamento, a vegetação é removida completamente e a área passa a ser destinada a usos antrópicos, como agricultura. Já na degradação, a vegetação nativa permanece, mas sofre impactos que reduzem sua saúde, resiliência e diversidade de espécies.

Os vetores de degradação atualmente disponibilizados na segunda versão do módulo incluem tamanho e isolamento de fragmentos, área e idade das bordas, frequência do fogo, tempo desde a última queimada, corte seletivo, distúrbio de dossel e idade da vegetação secundária.

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