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Lei de Economia Circular da UE: oportunidade para o Brasil

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Beatriz Luz | Presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular

Há mais de uma década, a Europa assumiu um pioneirismo global na economia circular, com movimentos dos setores público e privado para construir planos de ação e políticas que, anos mais tarde, serviram de inspiração para avanços no Sul Global. Agora, no segundo semestre, a União Europeia vai dar um passo ainda mais definitivo e apresentar uma nova exigência regulatória para a economia circular dentro do bloco. A medida vai impactar não só os países-membros, mas também aqueles que quiserem manter relações comerciais fortalecidas com parceiros europeus — inclusive o Brasil. 

A Lei da União Europeia para a Economia Circular (EU Circular Economy Act) é uma iniciativa legislativa que visa duplicar a taxa de circularidade da União Europeia para 24% até 2030. O intuito é superar fragmentações ainda existentes: materiais que são considerados recursos em determinados países podem ser classificados como resíduos em outros, por exemplo.

Com regras mais padronizadas e critérios bem definidos sobre produtos e resíduos entre todos do grupo, a nova lei busca fortalecer mercados de matérias-primas secundárias, ampliar a reparabilidade e reduzir a dependência de recursos externos. A Lei da UE para a Economia Circular vai reformular e fortalecer a Responsabilidade Estendida do Produtor, que deve gerenciar o ciclo de vida dos produtos que coloca no mercado.

A economia circular deixa, então, de ser diretriz voluntária para se tornar exigência regulatória. Uma estratégia de desenvolvimento que implica na sobrevivência dos negócios. A mensagem é clara: mudar a forma como a competitividade industrial é construída e ampliar a resiliência diante das crises globais, mantendo países europeus como referências em circularidade.

Mas engana-se quem acha que isso diz respeito à União Europeia apenas. A economia circular se torna fator determinante de acesso ao mercado europeu e quem não se adaptar pode perder oportunidades valiosas. Pensando no recente acordo entre União Europeia e Mercosul, que estabelece uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, o debate se intensifica. Em vez de flexibilização nas negociações, podemos esperar padrões ambientais e requisitos de produto e rastreabilidade mais rígidos.

É aí que o Brasil se encaixa estrategicamente. Devemos medir o papel que vamos desempenhar na nova economia global e entender que não basta exportar mais; será necessário exportar diferente. Mercados estratégicos dentro da UE vão olhar não só para o que produzimos, mas para como produzimos, quais materiais utilizamos, o tempo que mantemos recursos em circulação, entre outros pontos.

Então, um país como o nosso — que é apenas 1,3% circular, segundo o Circularity Gap Report 2024 — precisa de empresas e atores comprometidos com a transição, para se adequar às demandas internacionais, evitar riscos e alavancar planos estabelecidos a nível nacional. É fundamental olhar para novas formas de gerar negócios e se posicionar como fornecedor de soluções, materiais e produtos circulares de alto valor agregado.

Em resumo, o acordo Mercosul-UE dá mais acesso a mercados, mas o “compliance circular” é um diferencial a ser assumido pelo Brasil. Questões relacionadas à transparência, durabilidade, reciclabilidade e conformidade ambiental vão ocupar espaços relevantes. E, se dois pontos-chave são a visão sistêmica e a cooperação multilateral, os países europeus vão criar sinergias com iniciativas globais e regionais. A receita para gerar escala combina diálogo, maturidade e políticas coordenadas.

Mais do que conduzir a transição por exigências externas, o Brasil precisa fazê-lo pelas próprias necessidades. Algumas recomendações: iniciar diagnósticos e letramento; estruturar programas de rastreabilidade; engajar atores da cadeia produtiva; fomentar ecossistemas de negócios circulares; promover integração multissetorial; revisar design de produtos; e estruturar regulamentações. Temos uma janela estratégica para transformar compromissos em ação na COP31 e deixar um legado de economia circular para o mundo.

O futuro é circular, é agora e é para todos. Que a Lei da União Europeia para a Economia Circular traga ainda mais esse senso de urgência e possamos fazer a nossa parte com esmero.

ADENDO DO EDITOR:

A ECO21 entende que a economia circular precisa ser incorporada a em larga escala no modelo de desenvolvimento brasileiro. No Brasil, não é possível separar circularidade de mudanças climáticas, conservação da biodiversidade, restauração florestal, bioeconomia, energia, agricultura, resíduos e desigualdade social. O desafio é enorme porque essas agendas são interdependentes e exigem coordenação entre empresas, governos, ciência, financiamento e sociedade civil.

Mas existe uma sinergia acontecendo. Iniciativas recentes mostram que diferentes setores começam a se organizar não apenas para formular compromissos, mas para identificar soluções que já funcionam, remover obstáculos e dar escala ao que pode gerar impacto real. A articulação entre CEBDS, C.A.S.E. e SB COP, por exemplo, parte justamente da conexão entre soluções, financiamento, ambiente regulatório e políticas públicas.

Não será fácil. O Brasil ainda precisa superar gargalos de financiamento, segurança regulatória, coordenação institucional e capacidade de execução. Mas talvez esteja justamente aí a oportunidade: fazer com que economia circular, transição climática e conservação deixem de avançar em trilhas paralelas e passem a fazer parte de uma mesma estratégia nacional.

A exigência europeia pode acelerar esse movimento, mas o Brasil não deve mudar apenas porque a Europa exige. Deve mudar porque o planeta precisa. Se conseguirmos conectar nossa riqueza natural, nossa capacidade científica, o setor produtivo e as soluções que já existem no território, poderemos transformar uma enorme complexidade ambiental em vantagem estratégica para o país.

E há outro sinal importante dessa mudança. A Lei do REDATA, sancionada em 15 de setembro de 2026, colocou no mesmo instrumento incentivos à infraestrutura digital e contrapartidas relacionadas à sustentabilidade, energia de baixa emissão, eficiência hídrica e pesquisa e desenvolvimento. Na minha leitura, isso coloca o Brasil diante de uma nova obrigação prática: aprender a agir enquanto aprende. Não temos todas as respostas prontas para uma economia digital, circular e de baixo carbono. Teremos de desenvolver conhecimento, medir impactos, corrigir caminhos e criar tecnologia ao mesmo tempo em que essa transformação acontece. O Brasil não pode apenas receber a nova economia. Precisa aprender a construí-la.

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