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Super El Niño: uma explicação completa sobre o fenômeno 

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Entenda como o aquecimento anormal do Pacífico equatorial altera chuvas, secas, ondas de calor, oceanos, florestas, agricultura e riscos climáticos no Brasil e no mundo

por Rudá Capriles | Eco21 |

O El Niño é um dos fenômenos climáticos naturais mais influentes do planeta. Embora comece em uma faixa relativamente estreita do oceano Pacífico equatorial, seus efeitos se espalham pela atmosfera, alteram padrões de chuva e temperatura em vários continentes, interferem na circulação dos ventos, afetam safras agrícolas, florestas tropicais, reservatórios, pesca, saúde pública, energia e risco de desastres.

Nos últimos anos, a expressão “super El Niño” ganhou espaço no noticiário climático. O termo costuma ser usado para designar eventos de El Niño muito fortes, excepcionais ou extremos, como os episódios de 1982/83, 1997/98 e 2015/16. No entanto, é importante fazer uma distinção: “super El Niño” não é uma categoria oficial padronizada pela Organização Meteorológica Mundial. A classificação técnica trabalha com índices oceânicos e atmosféricos, como o Niño 3.4, o ONI, o RONI e o Índice de Oscilação Sul. Em termos práticos, eventos chamados de “super” geralmente correspondem a El Niños de intensidade muito forte, com anomalias de temperatura do mar próximas ou superiores a +2,0 °C na região monitorada do Pacífico central-leste.

A questão central é que o El Niño não deve ser entendido apenas como “água quente no Pacífico”. Ele é um fenômeno acoplado oceano-atmosfera. Para que um El Niño se configure de forma robusta, o oceano precisa aquecer, mas a atmosfera também precisa responder: os ventos alísios enfraquecem, a circulação de Walker se reorganiza, áreas de convecção tropical se deslocam, a termoclina muda de profundidade e o regime de chuvas é redistribuído.

Em um planeta aquecido pela crise climática, o El Niño atua sobre uma base térmica mais quente. Isso significa que seus efeitos podem ser amplificados por oceanos mais quentes, maior disponibilidade de vapor d’água na atmosfera, ondas de calor mais intensas e ecossistemas já pressionados por desmatamento, degradação, urbanização e desigualdade socioambiental.

O que é o El Niño?

El Niño é a fase quente do fenômeno conhecido como El Niño-Oscilação Sul, chamado em português de ENOS e em inglês de ENSO, sigla para El Niño-Southern Oscillation. Esse sistema tem três fases principais: El Niño, La Niña e neutralidade.

Durante a fase neutra, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo do Pacífico equatorial. Esses ventos empurram águas superficiais quentes em direção ao oeste do Pacífico, próximo à Indonésia e à Austrália. Enquanto isso, no leste do Pacífico, próximo à costa da América do Sul, ocorre a ressurgência de águas frias e profundas, ricas em nutrientes. Essa dinâmica ajuda a manter uma diferença de temperatura entre o oeste e o leste do Pacífico tropical.

No El Niño, esse equilíbrio é alterado. Os ventos alísios * enfraquecem e, em alguns momentos, podem até sofrer reversões temporárias. Com isso, as águas quentes que normalmente ficam acumuladas no oeste do Pacífico se deslocam para o centro e o leste do oceano. A ressurgência de águas frias diminui na costa oeste da América do Sul. A superfície do mar aquece de forma anormal em regiões-chave do Pacífico equatorial.

Esse aquecimento muda a distribuição de calor no oceano e na atmosfera. Como a convecção tropical depende fortemente da temperatura da superfície do mar, as áreas de formação de nuvens profundas e chuvas intensas também se deslocam. Esse deslocamento perturba a circulação atmosférica tropical e desencadeia efeitos em cadeia, conhecidos como teleconexões climáticas.

O que é a Oscilação Sul?

A palavra “El Niño” se refere originalmente ao aquecimento anormal das águas do Pacífico próximo à costa do Peru e do Equador, observado por pescadores sul-americanos. Já a “Oscilação Sul” descreve a componente atmosférica do fenômeno, ligada a variações de pressão entre o Pacífico oeste e o Pacífico leste.

Quando a pressão atmosférica fica relativamente mais alta sobre o oeste do Pacífico e mais baixa sobre o leste, a circulação atmosférica se reorganiza. Esse padrão altera ventos, chuvas e zonas de convecção. Por isso, a ciência moderna trata o fenômeno como um sistema integrado: El Niño-Oscilação Sul.

Em outras palavras, El Niño não é apenas uma anomalia oceânica. Ele é a manifestação de uma reorganização do sistema climático tropical, envolvendo a interação entre oceano, atmosfera, ventos, nuvens, chuvas e energia.

A circulação de Walker: o motor atmosférico do fenômeno

A circulação de Walker é uma célula de circulação atmosférica leste-oeste nos trópicos. Em condições normais, o ar quente e úmido sobe sobre o oeste do Pacífico, onde as águas são mais quentes. Esse ar sobe, forma nuvens e chuvas intensas, desloca-se em altitude para leste e desce sobre áreas mais frias e secas do Pacífico oriental.

No El Niño, esse motor atmosférico se desloca. O aquecimento do Pacífico central e oriental favorece a formação de nuvens e chuvas mais para leste. A célula de Walker enfraquece ou muda de posição. Esse deslocamento tem consequências globais porque os trópicos funcionam como uma das principais regiões de transferência de energia do planeta.

Quando a convecção tropical muda de lugar, as ondas atmosféricas geradas por esse deslocamento se propagam para latitudes médias e alteram sistemas de pressão, correntes de jato, frentes frias, monções, secas e tempestades.

Como se mede o El Niño?

O principal indicador usado internacionalmente é a temperatura da superfície do mar em regiões do Pacífico equatorial. A mais conhecida é a região Niño 3.4, localizada entre 5°N e 5°S e entre 170°W e 120°W. Ela fica no Pacífico central-leste e é considerada uma área estratégica para monitorar a evolução do ENSO ( El Niño-Southern Oscillation).

Um dos índices mais usados historicamente é o ONI, Oceanic Niño Index, calculado como uma média móvel de três meses das anomalias de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4. Quando essa anomalia permanece acima de +0,5 °C por vários trimestres sobrepostos e há resposta atmosférica compatível, caracteriza-se um episódio de El Niño.

A classificação tradicional costuma seguir estes intervalos aproximados:

El Niño fraco: anomalia entre +0,5 °C e +0,9 °C
El Niño moderado: entre +1,0 °C e +1,4 °C
El Niño forte: entre +1,5 °C e +1,9 °C
El Niño muito forte: igual ou superior a +2,0 °C

Nos últimos anos, a NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration)  também passou a dar mais atenção ao RONI, Relative Oceanic Niño Index. Esse índice compara a anomalia da região Niño 3.4 com a anomalia média da faixa tropical global. A mudança é relevante porque, em um oceano globalmente mais quente, medir apenas o aquecimento absoluto do Pacífico pode superestimar ou distorcer a relação entre o aquecimento regional e a resposta atmosférica.

Essa atualização metodológica mostra uma preocupação científica importante: em tempos de aquecimento global, não basta perguntar se o Pacífico está mais quente do que a média histórica. É preciso perguntar se ele está mais quente em relação ao restante dos trópicos, pois é esse contraste que ajuda a organizar ventos, convecção e chuvas.

El Niño, La Niña e neutralidade

O ENSO oscila de forma irregular entre três estados. No El Niño, o Pacífico central e oriental fica mais quente que a média. Na La Niña, ocorre o oposto: a mesma região fica mais fria que a média, os ventos alísios tendem a se fortalecer e a ressurgência de águas frias aumenta no leste do Pacífico.

Na fase neutra, não há aquecimento ou resfriamento persistente suficiente para caracterizar El Niño ou La Niña. Mesmo assim, neutralidade não significa ausência de extremos climáticos. Ondas de calor, secas, chuvas intensas e eventos extremos podem ocorrer sem El Niño ou La Niña, especialmente em um planeta aquecido.

O ENSO é uma oscilação irregular, não um relógio climático. Os eventos costumam ocorrer a cada dois a sete anos, mas a duração, intensidade, localização do aquecimento e impactos variam muito. Alguns El Niños são mais concentrados no Pacífico oriental. Outros têm maior aquecimento no Pacífico central. Essa diferença espacial muda os efeitos sobre a chuva, a temperatura e os ecossistemas.

O que é um “super El Niño”?

“Super El Niño” é uma expressão informal usada para eventos de El Niño excepcionalmente intensos. Em geral, ela aparece associada a episódios que atingem a categoria “muito forte”, com anomalias de temperatura da superfície do mar iguais ou superiores a +2,0 °C na região Niño 3.4, ou a eventos capazes de reorganizar profundamente a convecção tropical no Pacífico.

A Organização Meteorológica Mundial não usa o termo como classificação operacional padronizada. Do ponto de vista científico, a expressão mais precisa é “El Niño muito forte” ou “El Niño extremo”. Ainda assim, “super El Niño” se tornou uma fórmula de comunicação pública para descrever eventos raros e de grande impacto.

Os episódios de 1982/83, 1997/98 e 2015/16 são frequentemente citados como exemplos de El Niños extremos. Eles produziram impactos globais expressivos, incluindo secas, enchentes, colapsos pesqueiros, incêndios, perdas agrícolas, alterações em ciclones tropicais e recordes de temperatura.

Mas há uma cautela essencial: nem todo El Niño muito quente produz os mesmos impactos. A localização do aquecimento, a duração do evento, a estação do ano, a interação com o oceano Atlântico, o Dipolo do Oceano Índico, a Oscilação Madden-Julian, a cobertura de gelo, a umidade do solo e outros fatores regionais modulam os efeitos.

Por que alguns El Niños são extremos?

Um El Niño extremo ocorre quando há forte acoplamento entre o oceano e a atmosfera. Isso significa que o aquecimento do Pacífico não fica restrito à superfície do mar: ele altera ventos, pressão, convecção, termoclina e circulação global.

Um dos mecanismos fundamentais é o deslocamento de águas quentes acumuladas no oeste do Pacífico para o centro e o leste. Ondas oceânicas conhecidas como ondas de Kelvin podem transportar calor para leste ao longo da faixa equatorial. Quando essas ondas chegam ao Pacífico oriental, aprofundam a termoclina e dificultam a ressurgência de águas frias. A superfície aquece ainda mais.

Esse aquecimento enfraquece os ventos alísios, e ventos alísios mais fracos permitem que mais água quente se desloque para leste. Forma-se um ciclo de retroalimentação: oceano aquece, ventos enfraquecem, ressurgência diminui, oceano aquece ainda mais. Esse mecanismo é conhecido como feedback de Bjerknes.

Nos eventos extremos, esse feedback se torna particularmente forte. A convecção tropical se desloca para áreas que normalmente seriam mais secas. Chuvas intensas passam a ocorrer no Pacífico central e oriental. Essa mudança reorganiza a atmosfera tropical e altera padrões climáticos a grandes distâncias.

O papel da termoclina

A termoclina é a camada de transição entre águas superficiais mais quentes e águas profundas mais frias. No Pacífico equatorial, sua profundidade varia de oeste para leste. Em condições normais, ela é mais profunda no oeste e mais rasa no leste. Por isso, no leste do Pacífico, águas frias profundas conseguem subir com mais facilidade para a superfície.

Durante o El Niño, a termoclina se aprofunda no leste do Pacífico. Com isso, a água fria fica mais distante da superfície, e a ressurgência deixa de resfriar a região com a mesma eficiência. O resultado é um aquecimento persistente da superfície do mar.

Essa mudança afeta ecossistemas marinhos. No Peru e no Equador, por exemplo, a redução da ressurgência diminui a disponibilidade de nutrientes na zona superficial do oceano, impactando a produtividade biológica e a pesca. Esse aspecto foi um dos primeiros sinais históricos do fenômeno.

El Niño e calor global

O El Niño tende a elevar temporariamente a temperatura média global. Isso ocorre porque o oceano Pacífico tropical libera parte do calor acumulado para a atmosfera. Em anos de El Niño forte, a temperatura global costuma subir, especialmente no ano de pico ou no ano seguinte.

Mas é incorreto dizer que o El Niño “cria” o aquecimento global. O El Niño redistribui calor dentro do sistema climático e pode amplificar temporariamente a temperatura do ar. O aquecimento global, por sua vez, é uma tendência de longo prazo causada principalmente pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera.

A interação entre os dois é crítica. O El Niño atua hoje sobre um planeta mais quente do que aquele observado durante os eventos extremos do século XX. Assim, a mesma oscilação natural pode produzir impactos mais severos porque encontra oceanos mais aquecidos, atmosferas mais úmidas e ecossistemas mais vulneráveis.

O ano de 2024 ilustrou essa combinação: o El Niño iniciado em 2023 contribuiu para elevar as temperaturas globais, enquanto o aquecimento antropogênico manteve o planeta em um patamar térmico recorde.

El Niño e mudança climática: o que a ciência sabe?

A relação entre ENSO e aquecimento global é uma das questões mais complexas da climatologia. Modelos climáticos indicam que o aquecimento global pode alterar a frequência, a intensidade e os impactos dos eventos extremos de El Niño e La Niña, mas ainda há incertezas sobre detalhes regionais.

Um estudo publicado na Nature Climate Change em 2014 projetou que eventos extremos de El Niño poderiam se tornar mais frequentes em cenários de aquecimento por gases de efeito estufa. O mecanismo proposto envolve aquecimento mais rápido do Pacífico equatorial oriental em relação a áreas vizinhas, facilitando episódios de convecção intensa em regiões onde isso era menos comum.

Outros estudos destacam que o ENSO não é uma oscilação simples. Ele apresenta variações temporais, espaciais e dinâmicas. Existem diferentes “sabores” de El Niño: eventos do Pacífico oriental, eventos do Pacífico central e eventos mistos. Isso significa que a pergunta “o El Niño vai ficar mais forte?” precisa ser substituída por perguntas mais específicas: que tipo de El Niño? Em qual região do Pacífico? Em qual estação do ano? Com que resposta atmosférica? Com quais impactos regionais?

O ponto mais robusto é que o aquecimento global aumenta a energia disponível no sistema climático e intensifica muitos extremos associados a calor e chuva. Mesmo que a dinâmica exata do ENSO continue sendo objeto de pesquisa, seus impactos ocorrem sobre uma base climática já alterada.

Os grandes eventos históricos

Entre os El Niños mais marcantes do registro moderno estão os eventos de 1982/83, 1997/98, 2015/16 e 2023/24. Cada um deles teve características próprias.

O El Niño de 1982/83 surpreendeu a comunidade científica e expôs limitações de monitoramento da época. Seus impactos globais ajudaram a impulsionar redes de observação oceânica e atmosférica mais sofisticadas.

O El Niño de 1997/98 é frequentemente citado como um dos mais fortes do século XX. Foi marcado por aquecimento intenso no Pacífico oriental, fortes teleconexões globais e grandes impactos econômicos e socioambientais.

O evento de 2015/16 também foi muito forte, mas apresentou diferenças em relação a 1997/98. Estudos indicam que ele teve características mais mistas, com contribuição importante do Pacífico central. Na Amazônia, esteve associado a aquecimento recorde e seca extrema em várias áreas, embora os impactos não tenham sido uniformes em toda a bacia.

O El Niño de 2023/24 ficou entre os mais fortes já observados, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Ele ocorreu em um contexto de temperaturas oceânicas globais excepcionalmente altas e contribuiu para o recorde de calor global observado em 2024.

Por que eventos fortes não produzem sempre os mesmos impactos?

A intensidade do El Niño aumenta a probabilidade de certos impactos, mas não os garante. Essa é uma diferença crucial entre previsão probabilística e previsão determinística.

Um El Niño forte costuma inclinar as probabilidades para determinados padrões: mais chuva em algumas regiões, seca em outras, maior temperatura em diversas áreas. Porém, a atmosfera é um sistema dinâmico, caótico e influenciado por múltiplas variáveis. O impacto final depende da interação entre ENSO e outros modos de variabilidade climática.

No Brasil, por exemplo, o Atlântico Tropical é decisivo para a Amazônia e o Nordeste. Temperaturas anormais no Atlântico Norte tropical podem intensificar secas em áreas do oeste e sudoeste da Amazônia. Já a organização da Zona de Convergência do Atlântico Sul influencia o regime de chuvas no Sudeste e no Centro-Oeste. Por isso, um El Niño não produz automaticamente o mesmo mapa de impactos em todos os anos.

Impactos globais típicos

Embora cada evento seja único, o El Niño costuma estar associado a alguns padrões globais recorrentes.

Na América do Sul, pode favorecer chuvas acima da média em partes do sul do continente e condições mais secas em áreas do norte da América do Sul e da Amazônia. Na costa oeste da América do Sul, especialmente Peru e Equador, pode gerar chuvas intensas, enchentes e deslizamentos.

Na Austrália e na Indonésia, o El Niño costuma aumentar o risco de seca, calor extremo e incêndios florestais. No sul da Ásia, pode interferir nas monções. Na África, seus efeitos variam regionalmente: algumas áreas podem enfrentar seca, enquanto outras registram chuvas acima do normal.

Nos Estados Unidos, El Niño tende a deslocar a corrente de jato subtropical, aumentando a probabilidade de chuvas no sul do país durante o invernol. Também costuma reduzir a atividade de furacões no Atlântico, pois aumenta o cisalhamento vertical do vento, mas pode favorecer ciclones no Pacífico.

Esses padrões não devem ser lidos como certezas. Eles são tendências probabilísticas.

El Niño e Amazônia

A Amazônia é uma das regiões mais sensíveis às mudanças na circulação tropical. Eventos de El Niño podem reduzir chuvas no norte e no leste da bacia, elevar temperaturas, prolongar a estação seca e aumentar o risco de incêndios florestais.

O evento de 2015/16 foi particularmente relevante. Estudos científicos mostraram que ele esteve associado a aquecimento recorde e seca extrema na Amazônia, com impactos agravados pela tendência regional de aquecimento. O padrão não foi homogêneo: algumas áreas da Amazônia ocidental tiveram comportamento diferente, mostrando que a localização do aquecimento no Pacífico e a interação com o Atlântico modulam os impactos.

A vulnerabilidade amazônica não depende apenas do clima. Desmatamento, degradação florestal, fogo, garimpo, fragmentação de habitats, perda de umidade reciclada pela floresta e pressão sobre rios e comunidades tornam a região mais exposta. Um El Niño forte pode atuar como gatilho climático sobre um território já fragilizado.

Com menos chuva e mais calor, aumenta a inflamabilidade da floresta. A queda no nível dos rios afeta transporte, pesca, abastecimento, geração de energia, segurança alimentar e acesso a serviços básicos de populações ribeirinhas e indígenas.

El Niño no Brasil: padrões regionais

No Brasil, os impactos do El Niño variam por região, estação do ano e intensidade do evento.

Na Região Norte, especialmente na Amazônia Legal, há tendência de redução de chuvas em áreas do norte e do leste da Amazônia, aumento de temperatura, risco de seca, incêndios e queda no nível dos rios.

No Nordeste, o El Niño pode favorecer redução de chuvas no norte da região, especialmente quando interage com padrões desfavoráveis no Atlântico Tropical. Isso pode agravar estresse hídrico, reduzir disponibilidade de água e aumentar risco de perdas agrícolas.

No Centro-Oeste, a relação é mais variável. O El Niño pode contribuir para temperaturas mais elevadas, veranicos, baixa umidade e risco de queimadas, mas os efeitos sobre chuva dependem de outros sistemas atmosféricos.

No Sudeste, os impactos sobre precipitação são menos lineares. O El Niño pode alterar o transporte de umidade da Amazônia para os subtrópicos e interferir na posição da Zona de Convergência do Atlântico Sul. Em alguns cenários, pode favorecer chuva em áreas mais ao sul do Sudeste e reduzir a organização da chuva em áreas mais ao norte. O aumento de temperaturas e a ocorrência de ondas de calor são preocupações relevantes.

Na Região Sul, o El Niño está frequentemente associado a chuvas acima da média, tempestades, cheias e inundações, especialmente durante a primavera e parte do verão. O fortalecimento do jato subtropical e o transporte de umidade podem favorecer sistemas convectivos intensos e frentes estacionárias.

El Niño e Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul é uma das áreas brasileiras mais sensíveis ao El Niño. Em anos de evento forte, a atmosfera tende a favorecer maior transporte de umidade e maior persistência de sistemas de chuva sobre o estado. Isso pode elevar o risco de tempestades severas, cheias e inundações.

As chuvas extremas registradas no Sul do Brasil em 2023 e 2024 ocorreram em um contexto climático influenciado pelo El Niño, mas eventos dessa magnitude não podem ser explicados por um único fator. Aquecimento global, umidade atmosférica elevada, bloqueios atmosféricos, ocupação de áreas vulneráveis, drenagem urbana, gestão de bacias e exposição social também entram na equação do desastre.

A lição para políticas públicas é clara: o El Niño aumenta riscos conhecidos. Quando esses riscos encontram infraestrutura precária, ocupação irregular, desigualdade, ausência de alerta e falhas de planejamento territorial, o fenômeno climático se transforma em desastre social.

El Niño e oceanos

O El Niño altera não apenas o clima terrestre, mas também ecossistemas marinhos. A redução da ressurgência no Pacífico oriental diminui o transporte de nutrientes das águas profundas para a superfície. Isso pode reduzir a produtividade primária, afetar plâncton, peixes e cadeias alimentares.

Eventos fortes também podem contribuir para ondas de calor marinhas. Oceanos mais quentes afetam recifes de coral, pesca, distribuição de espécies, oxigenação da água e biodiversidade. Em um contexto de aquecimento global, os efeitos do El Niño sobre os oceanos podem se somar a acidificação, desoxigenação e perda de habitats.

A temperatura da superfície do mar em escala global bateu recordes recentes. Isso torna o monitoramento oceânico ainda mais importante, porque o ENSO interage com um oceano globalmente aquecido.

El Niño, agricultura e segurança alimentar

O El Niño afeta a agricultura porque altera chuva, temperatura, umidade do solo, risco de geada, risco de enchente, disponibilidade hídrica e incidência de pragas. Seus impactos variam conforme cultura, região, calendário agrícola e capacidade de adaptação.

No Brasil, os efeitos podem incluir estiagem em áreas do Norte e Nordeste, excesso de chuva no Sul, atraso ou irregularidade da estação chuvosa no Centro-Oeste e Sudeste, ondas de calor e pressão sobre reservatórios. Culturas sensíveis a extremos térmicos e hídricos podem sofrer perdas.

Em escala global, El Niños fortes podem afetar produção de arroz, trigo, milho, café, cacau, açúcar, soja, pesca e pecuária. Países dependentes de agricultura de sequeiro, com baixa infraestrutura de irrigação e menor capacidade de proteção social, são mais vulneráveis.

Por isso, previsões sazonais não são apenas informação meteorológica. São instrumentos de planejamento econômico, humanitário e alimentar.

El Niño, saúde pública e cidades

O El Niño pode afetar a saúde humana de várias formas. Ondas de calor elevam risco de desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e respiratórias, mortalidade em idosos, crianças e trabalhadores expostos ao sol. Secas podem comprometer abastecimento de água e qualidade do ar, especialmente quando associadas a incêndios florestais.

Chuvas extremas e inundações aumentam risco de leptospirose, doenças diarreicas, contaminação de água, deslocamento populacional e perdas materiais. Mudanças em temperatura e precipitação também podem alterar a distribuição de vetores como mosquitos, embora essa relação dependa de fatores locais.

Nas cidades, os riscos são ampliados por ilhas de calor, impermeabilização do solo, ocupação de encostas e margens de rios, ausência de drenagem adequada e desigualdade no acesso a saneamento e moradia segura.

Por que monitorar o Pacífico ajuda o Brasil?

Embora o El Niño se origine no Pacífico equatorial, seu monitoramento é essencial para o Brasil porque o país é fortemente dependente de chuva sazonal. Agricultura, energia hidrelétrica, abastecimento urbano, transporte fluvial amazônico, defesa civil e saúde pública dependem da previsibilidade climática.

O monitoramento é feito por satélites, boias oceânicas, navios, reanálises climáticas, modelos de previsão e estações meteorológicas. Esses sistemas observam temperatura da superfície do mar, calor subsuperficial, ventos, pressão atmosférica, convecção, radiação, chuva e anomalias de circulação.

A previsão de ENSO avançou muito nas últimas décadas, mas ainda enfrenta limitações. Uma delas é a chamada barreira de previsibilidade da primavera boreal, período em que os modelos costumam ter menor confiabilidade para prever a evolução do fenômeno. Além disso, eventos extremos podem ter dinâmicas próprias e transições rápidas.

Nota técnica conjunta INPE / INMET / Funceme / Censipam sobre El Niño 2026

O que os gráficos mostram?

Os gráficos de ENSO geralmente mostram três tipos de informação.

O primeiro tipo é o histórico de anomalias de temperatura no Pacífico. Esses gráficos permitem identificar anos de El Niño, La Niña e neutralidade, além de comparar eventos fortes como 1982/83, 1997/98, 2015/16 e 2023/24.

O segundo tipo é a previsão probabilística. Esses painéis mostram a chance de El Niño, La Niña ou neutralidade nos próximos trimestres. Alguns também indicam a probabilidade de categorias de intensidade: fraco, moderado, forte ou muito forte.

O terceiro tipo é o estado físico do oceano e da atmosfera: mapas de anomalia de temperatura da superfície do mar, calor subsuperficial, ventos, convecção e pressão. Esses gráficos ajudam a verificar se o aquecimento oceânico está sendo acompanhado por resposta atmosférica.

A leitura correta exige cautela. Um mapa muito vermelho no Pacífico não significa automaticamente “super El Niño”. É preciso observar persistência, região afetada, profundidade do calor oceânico, resposta dos ventos, convecção e previsões de conjunto.

Situação atual: por que 2026 exige atenção

Em junho de 2026, boletins internacionais indicavam alta probabilidade de desenvolvimento e fortalecimento de El Niño ao longo do segundo semestre, com chance relevante de atingir intensidade muito forte no fim do ano e início de 2027. A NOAA apontou El Niño presente e tendência de fortalecimento para o inverno do Hemisfério Norte 2026/27. A Organização Meteorológica Mundial também alertou para alta probabilidade de El Niño e para a necessidade de preparação.

Isso não significa que todos os impactos ocorrerão em todos os lugares. Significa que governos, agricultores, operadores de energia, defesa civil, gestores de água, saúde pública, comunidades vulneráveis e imprensa precisam acompanhar os boletins oficiais e preparar planos de resposta.

No Brasil, os riscos potenciais incluem seca e fogo na Amazônia, impactos hídricos no Nordeste, temperaturas elevadas no Centro-Oeste e Sudeste, além de chuvas intensas no Sul. A intensidade e distribuição desses efeitos dependerão da evolução do Pacífico, do Atlântico Tropical e de outros sistemas climáticos.

O perigo de comunicar mal o “super El Niño”

A expressão “super El Niño” tem força comunicativa, mas pode gerar confusão. Ela pode ajudar a chamar atenção para riscos reais, mas também pode produzir alarmismo se usada sem critério. O ideal é explicar que “super” não é uma categoria oficial, mas uma forma popular de se referir a eventos muito fortes ou extremos.

A comunicação climática deve evitar dois erros opostos. O primeiro é minimizar o risco, tratando o El Niño como um fenômeno natural sem relação com vulnerabilidades humanas. O segundo é transformar o fenômeno em explicação única para qualquer desastre climático.

O El Niño altera probabilidades. Ele pode aumentar a chance de seca, chuva extrema e calor em determinadas regiões. Mas o desastre depende também de exposição, vulnerabilidade, planejamento, desigualdade, infraestrutura e políticas públicas.

O El Niño em tempos de emergência climática

O El Niño sempre existiu. O problema é que agora ele atua em um planeta mais quente, mais urbanizado, mais desmatado e mais desigual. Essa é a diferença histórica fundamental.

Um El Niño forte no século XXI não é igual a um El Niño forte em um clima pré-industrial. Hoje há mais calor acumulado nos oceanos, maior concentração de gases de efeito estufa, eventos extremos mais frequentes, ecossistemas pressionados e sociedades mais expostas a riscos sistêmicos.

Por isso, a preparação para El Niño não pode ser apenas meteorológica. Ela deve ser climática, social, econômica e territorial. Precisa envolver defesa civil, agricultura, gestão de bacias hidrográficas, saúde pública, proteção de florestas, prevenção de queimadas, planejamento urbano, sistemas de alerta, comunicação de risco e redução de desigualdades.

Como se preparar

A preparação começa com monitoramento contínuo e leitura qualificada dos boletins oficiais. Para governos, isso significa atualizar planos de contingência, mapear áreas de risco, reforçar alertas, prever impactos em safras, reservatórios e sistemas de saúde.

Na Amazônia, é essencial intensificar prevenção e combate ao fogo, proteger territórios indígenas e comunidades tradicionais, monitorar rios, garantir logística de abastecimento e reduzir desmatamento e degradação.

No Sul do Brasil, é necessário fortalecer sistemas de alerta para chuvas extremas, revisar planos de evacuação, proteger áreas de inundação, reforçar drenagem urbana e integrar previsões climáticas à gestão de bacias.

No Nordeste, planejamento hídrico, segurança alimentar e apoio à agricultura familiar são medidas prioritárias. No Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor, baixa umidade, reservatórios e queimadas precisam entrar no centro da agenda.

A ciência já permite antecipar muitos riscos. A questão política é transformar previsão em prevenção.

Conclusão: o El Niño como alerta planetário

O El Niño é um fenômeno natural, mas seus impactos são moldados por escolhas humanas. Quando o Pacífico aquece, o planeta inteiro sente. Mas quem mais sofre são os territórios mais vulneráveis, os ecossistemas degradados, as populações com menos infraestrutura e os países com menor capacidade de adaptação.

O chamado “super El Niño” não deve ser tratado como espetáculo climático. Ele deve ser entendido como um sinal de alerta. Eventos muito fortes de El Niño expõem a interdependência entre oceano, atmosfera, florestas, cidades, agricultura, energia, saúde e justiça social.

Em tempos de emergência climática, compreender o El Niño é mais do que explicar um fenômeno meteorológico. É entender como a crise do clima intensifica riscos já existentes e como a prevenção pode salvar vidas, proteger ecossistemas e reduzir perdas econômicas.

O Pacífico equatorial pode estar longe do Brasil no mapa, mas suas águas fazem parte do mesmo sistema climático que regula a Amazônia, a chuva no Sul, a seca no Nordeste, o calor nas cidades e o futuro da segurança hídrica e alimentar do país.

* Ventos alísios 

São ventos constantes que sopram nas regiões tropicais da Terra, principalmente entre os trópicos e a Linha do Equador.

Eles se formam porque o ar quente próximo ao Equador sobe, criando uma área de baixa pressão. Para ocupar esse espaço, massas de ar vindas das regiões subtropicais se deslocam em direção ao Equador. Como a Terra gira, esses ventos são desviados pelo chamado efeito Coriolis.

Por isso:

  • No Hemisfério Norte, os ventos alísios sopram de nordeste para sudoeste.
  • No Hemisfério Sul, sopram de sudeste para noroeste.

Eles são muito importantes para o clima porque ajudam a transportar umidade, influenciam as chuvas tropicais, afetam a temperatura dos oceanos e têm papel central em fenômenos como El Niño e La Niña.

No caso do El Niño, por exemplo, os ventos alísios sobre o Pacífico equatorial ficam mais fracos. Isso permite que águas mais quentes se espalhem pelo Pacífico central e oriental, alterando padrões de chuva e temperatura em várias partes do mundo.

ENSO: Recent Evolution, Current Status and Predictions – 29/06/2026

Referências

  1. Histórico do Oceanic Niño Index — NOAA/CPC
    https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/ensostuff/ONI_v5.php
  2. Probabilidades oficiais de intensidade do ENSO — NOAA/CPC
    https://cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/enso/roni/strengths/
  3. Boletim “ENSO: evolução recente, status atual e previsões” — NOAA/CPC
    https://www.cpc.ncep.noaa.gov/products/analysis_monitoring/lanina/enso_evolution-status-fcsts-web.pdf
  4. Página geral sobre ENSO — NOAA/Climate.gov
    https://www.climate.gov/enso
  5. Atualização El Niño/La Niña — Organização Meteorológica Mundial
    https://wmo.int/resources/publication-series/el-ninola-nina-updates
  6. Comunicado da WMO sobre preparação para El Niño
    https://wmo.int/news/media-centre/wmo-prepare-el-nino
  7. Previsão ENSO — International Research Institute for Climate and Society
    https://iri.columbia.edu/our-expertise/climate/forecasts/enso/current/
  8. Visualização NASA sobre mudanças oceano-atmosfera durante El Niño
    https://svs.gsfc.nasa.gov/5213/
  9. INPE — O que precisamos saber sobre El Niño e seus impactos para o Brasil
    https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/o-que-precisamos-saber-sobre-o-el-nino-e-seus-impactos-para-o-brasil
  10. Nota técnica conjunta INPE/INMET/Funceme/Censipam sobre El Niño 2026
    https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/NotaTecnicaConjuntaElNino2026_INPEINMETFuncemeCENSIPAM.pdf
  11. Copernicus — 2024 como primeiro ano acima de 1,5 °C
    https://climate.copernicus.eu/copernicus-2024-first-year-exceed-15degc-above-pre-industrial-level
  12. Artigo científico sobre aumento de eventos extremos de El Niño — Nature Climate Change
    https://www.nature.com/articles/nclimate2100
  13. Revisão científica sobre complexidade do ENSO — Nature
    https://www.nature.com/articles/s41586-018-0252-6
  14. Estudo sobre El Niño 2015/16 e seca extrema na Amazônia — Scientific Reports
    https://www.nature.com/articles/srep33130
  15. Revisão sobre extremos de ENSO e El Niño 2015/16 — Reviews of Geophysics
    https://agupubs.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/2017RG000560

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