Por Robinson König *
A Operação Reciclagem, deflagrada em junho pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul, trouxe à tona fraudes em contratos de coleta e destinação de resíduos em 15 prefeituras gaúchas, com documentos de transporte fantasmas, notas fiscais frias, cobranças duplicadas e pesagens repetidas. Em julho, uma denúncia da Abividro ao Ministério Público Federal apontou indícios de fraudes na geração de créditos de reciclagem de vidro, com parte dos materiais declarados sendo incompatível com o volume que chegou às indústrias de reciclagem. No papel, uma coisa, e na realidade, outra. Casos que refletem sintomas de um país que ainda opera no escuro quando se trata de rastrear apropriadamente os seus resíduos.
O Brasil gera cerca de 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Abrema, com dados referentes a 2024. Desse total, apenas 8,7% seguem para a reciclagem mecânica de secos. Em paralelo, 40,3% dos resíduos seguem para uma disposição final inadequada, indo parar em lixões, aterros controlados, terrenos baldios ou na natureza.
Para nós, que trabalhamos no setor há muitos anos, é evidente que estes são números ainda subdimensionados. A própria Abrema aponta a dificuldade de estimar os volumes reais, pois grande parte do que é reciclado no país não passa por um registro oficial. O Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a meta de saltar os índices de reciclagem para 48% até 2040, mas, sem rastreabilidade garantida em toda a cadeia, esse objetivo é inatingível.
Rastrear o resíduo é amarrar cada carga a uma origem e a um destino, com controle de peso em todas as etapas, fotos comprobatórias e registros de quem “assinou” por esta carga em cada ponta. A maioria das empresas de reciclagem ainda opera com planilhas de Excel, grupos de mensagens e a pura confiança quando se trata de gestão e fiscalização. Mas, na etapa do transporte dos resíduos, há lacunas que precisa ser superadas.
Rastrear caminhões é fácil, qualquer GPS resolve. Difícil mesmo é rastrear os resíduos em sua totalidade. Com base nos anos de atuação na reciclagem e em trocas constantes com parceiros da área, é comum encontrar divergências relevantes de peso entre a origem e o destino dos materiais, em uma parcela expressiva das cargas de recicláveis. Isso pode acontecer por erros de balança, efeitos da umidade ou desvios de carga. O prejuízo é silencioso e deixa uma atividade essencial sujeita a inconsistências e incertezas.
Muitos geradores de resíduos acreditam que, terceirizando coleta e transporte, a responsabilidade também é terceirizada. Mas a Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece a responsabilidade compartilhada há mais de 15 anos: se gerou, também responde por possíveis problemas.
Além disso, o Decreto 11.413, de 2023, elevou a régua ao condicionar os certificados de créditos de reciclagem à comprovação documental do material devolvido ao ciclo produtivo, verificada por auditoria independente. É aí que o caso recente de inconsistências na reciclagem do vidro incomoda — quando a comprovação se apoia, sobretudo, em notas fiscais, o papel pode fechar sem que a tonelada de material exista. Documento é um registro, mas não a prova do volume.
Modelos de sucesso existem. Na Alemanha, o fabricante registra o volume de material que colocou no mercado e comprova o quanto foi reciclado para continuar vendendo. Na França, uma plataforma pública rastreia resíduos perigosos em tempo real, com assinatura eletrônica de gerador e receptor. Mas, no Brasil, a fiscalização ainda trabalha com papel e telefone, com equipes pequenas para cobrir áreas muito grandes, sem sistema integrado ou cruzamento de dados.
A solução passa obrigatoriamente pela digitalização do Manifesto de Transporte de Resíduos, com geolocalização na coleta e na entrega. É fundamental incluir métricas como o registro de peso em tempo real nos dois pontos, fotos da carga e assinaturas eletrônicas integradas de quem a gerou e de quem a recebeu. Nada disso é promessa de futuro; afinal, uma tecnologia que faz esse registro já opera, hoje, em milhares de caminhões no Brasil.
Operar sem rastreabilidade tem custo real: multas pesadas, danos reputacionais e perda de mercado. É inteligente investir em transparência antes da fiscalização chegar e documentações digitais auditáveis precisam ser critérios para licenças de operação. O ciclo da economia circular só se fecha quando o governo exige, o mercado cobra e a tecnologia viabiliza.
O Brasil tem leis excelentes, mas precisa de execução à altura. É hora de transformar evidência em regra, garantindo que o resíduo que sai pelo portão seja, de fato, o insumo que retorna ao ciclo produtivo.


