Projeto do Movimento Baía Viva e o Núcleo Interdisciplinar de Desenvolvimento Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NIDES/UFRJ), com a parceria da Petrobras, instala laboratório vivo de saneamento ecológico na Ilha do Fundão, atraindo pesquisadores
por Francisco Pontes de Miranda Ferreira e Thereza Cristina Martins Dantas
Em um canto do Hangar Náutico da UFRJ, na Ilha do Fundão, a ciência e a natureza estão construindo juntas uma resposta para um dos problemas mais antigos da humanidade: o que fazer com o esgoto. Ali, onde a Baía de Guanabara encontra o campus universitário, um Biossistema Integrado (BSI) começa a tomar forma — não como uma obra de engenharia convencional, mas como um ecossistema desenhado para imitar os processos naturais de depuração da água.
Segundo Sérgio Ricardo de Lima, coordenador geral do Centro de Formação em Economia do Mar (Baía de Guanabara), o biossistema do Hangar Náutico “imóvel que foi construído na década de 1930, antes dos aterros da Baía de Guanabara, será um dos primeiros imóveis gerido pela Universidade Federal do Rio de Janeiro que captará 100% do esgoto produzido neste CFEcoMar BG. Essa é uma contribuição para a melhoria da qualidade e da saúde ambiental da Baía de Guanabara, que ainda hoje, infelizmente, recebe 18.000 litros de esgoto por segundo”.
O projeto, conduzido pelo Movimento Baía Viva em parceria com Petrobras e o apoio fundamental do Núcleo Interdisciplinar de Desenvolvimento Social (NIDES/UFRJ), transforma o hangar em um laboratório vivo a céu aberto. “Os biossistemas integrados reproduzem os comportamentos complexos e simples da própria natureza”, explica o Valmir Fachini, responsável pela instalação. “Resolvem o problema do esgoto no próprio local, sem redes extensas, sem produtos químicos e sem consumo de energia externa.”
Tecnologia que aprende com a natureza
A lógica do BSI é surpreendentemente simples e, ao mesmo tempo, sofisticada. Inspirada nas Soluções baseadas na Natureza (SbN) — abordagem que ganhou destaque mundial a partir de 2018 pelo Programa Mundial da UNESCO para Avaliação dos Recursos Hídricos —, a tecnologia socioambiental utiliza biodigestores, filtros e zonas de raízes para tratar o esgoto doméstico no próprio local onde é gerado.
O processo começa no biodigestor, uma câmara fechada onde a biomassa fermenta na ausência de oxigênio, produzindo biogás — que pode ser usado para cozinhar — e uma camada líquida que segue para as etapas seguintes. Em seguida, a água passa por filtros e chega à zona de raízes, onde plantas atuam como verdadeiras “biofábricas”, absorvendo nutrientes e eliminando patógenos. No fim do processo, a água é devolvida ao ambiente em condições de balneabilidade — mais limpa do que a produzida por muitas estações convencionais que consomem toneladas de produtos químicos e energia.
“O mais interessante dos biossistemas é a descoberta de que a natureza tem o poder biológico de transformar os resíduos”, afirma Valmir Fachini, integrante do O Instituto Ambiental (OIA), que já implantou a tecnologia no Haiti e na Nicarágua. “Para a natureza, o resíduo é insumo que entra novamente no ciclo natural”.
A construção do sistema no Hangar da UFRJ tem seguido esse princípio. Ao longo do mês de agosto, uma equipe técnica realizou a impermeabilização dos anéis de concreto, a escavação manual, a instalação de filtros e a conexão das tubulações com desnível de 1% para aproveitar a força da gravidade. Tudo projetado para que o sistema funcione de forma autônoma e sustentável.
Um laboratório para formar centenas de cientistas
Mas o BSI do Hangar não é apenas uma estação de tratamento. É, antes de tudo, um instrumento de pesquisa e formação. Diferentemente de modelos computacionais ou visitas técnicas pontuais a estações convencionais, o BSI permitirá monitoramento contínuo, coleta de dados em tempo real, experimentos controlados e validação de parâmetros — condições essenciais para a pesquisa científica de qualidade.
O potencial acadêmico é imenso. Múltiplos grupos de pesquisa já manifestaram interesse formal em utilizar o sistema como objeto de estudo. A Fiocruz, que já produziu teses, dissertações e artigos sobre BSI, quer estender suas pesquisas ao ambiente do Hangar, com possibilidade de análise de patógenos e eficiência de remoção.
Visitas técnicas mobilizam instituições
O interesse já se traduziu em visitas concretas. No dia 6 de agosto, o Laboratório de Educação Profissional em Vigilância em Saúde (LAVSA) da Fiocruz esteve no Hangar para conhecer a instalação. Dias depois, no dia 12 de agosto, uma comitiva formada pelo Escritório Técnico Diálogos Sociotécnicos em Saúde Urbana (ET DSSU) da Fiocruz Mata Atlântica e pelo MUDA — Mutirão de Agroecologia e Permacultura do NIDES/UFRJ — percorreu o espaço, acompanhando de perto as etapas de construção, depois de uma exposição teórica e metodológica sobre a tecnologia social.
As visitas técnicas são parte essencial do projeto e permitem que alunos e pesquisadores vejam na prática o que aprendem em sala de aula, estabelecendo uma ponte entre o conhecimento acadêmico e os problemas reais da Baía de Guanabara.

Ciência, extensão e futuro
O projeto carrega ainda um significado mais amplo. A instalação do BSI no Hangar representa uma oportunidade única de desenvolver pesquisa aplicada em saneamento ecológico em um ambiente controlado e de alta relevância ambiental. A previsão é que o sistema entre em operação em breve, gerando não apenas água limpa, mas conhecimento, formação e uma nova forma de pensar o saneamento.
Centro de Formação em Economia do Mar (Baía de Guanabara)
O Centro de Formação em Economia do Mar (Baía de Guanabara) é um projeto coordenado pelo Movimento Baía Viva, que conta com a parceria da Petrobras e com o apoio institucional do NIDES/UFRJ e mais 49 instituições entre órgãos públicos, universidades e organizações comunitárias e de comunidades tradicionais.
O projeto realiza a obras no Hangar Náutico e no período entre 2026-2028 oferecerá gratuitamente um conjunto de cursos e oficinas de Extensão e de formação nas áreas de inovação social e tecnológica com o uso de metodologias de aprendizagem adequadas à realidade social dos moradores das cidades de Itaboraí, Magé, Guapimirim, São Gonçalo, Duque de Caxias, Cachoeiras de Macacu e Maricá.
Para a coordenação do CFEcoMar BG é muito importante a aplicação de tecnologias socioambientais. Para Sérgio Ricardp, a construção do biossistema é uma tecnologia de “alta eficiência no tratamento dos esgotos e também de baixo custo financeiro, sendo, portanto, uma alternativa adequada para a realidade brasileira”. Ela pode se constituir numa grande alternativa para o atendimento de comunidades de pescadores, povos indígenas, quilombos e também utilizada nas favelas”. O BSI é uma das ações do CFEcoMar BG que além de colaborar para a melhoria da qualidade ambiental da Baía de Guanabara, garante um espaço de trocas e aprendizagens que pode ser replicado a baixo custo, em outros territórios.

A construção de uma Universidade do Mar
Isso cria uma grande responsabilidade sobre como realizar prioritariamente nos territórios das comunidades tradicionais (pescadores, povos indígenas e quilombolas) formações destinadas às capacitações destas pessoas nas áreas da Economia Solidária e Economia do Mar prevendo a sustentabilidade destes grupos.
Desde 2018, o Movimento Baía Viva em articulação com instituições acadêmicas, comunidades pesqueiras e órgão públicos protagonizam um processo de mobilização social pela implementação da Universidade do Mar na região da Baía de Guanabara. A proposta visa instalar um campus avançado voltado a atividades de extensão universitária, programas de monitoramento ambiental e da biodiversidade marinha e realização de curso de capacitação voltados às comunidades pesqueiras.
Em 2023, uma parceria entre o Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social – NIDES/UFRJ, Movimento Baía Viva e a Associação de Pescadores de Tubiacanga (Apelt),com recursos do TAC Frade, um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), conduzida pelo Ministério Público Federal (MPF) e com gestão operacional do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FUNBIO) possibilitou a implantação do Estaleiro Escola no Hangar Náutico da Ilha do Fundão. Hoje, o Centro de Formação em Economia do Mar (Baía de Guanabara) amplia sua atuação com a ocupação no Hangar Náutico e a oferta de diversos cursos e oficinas para os moradores dos municípios de Itaboraí, Magé, Guapimirim, São Gonçalo, Duque de Caxias, Cachoeiras de Macacu e Maricá.
O cofundador do Movimento Baía Viva, Sérgio Ricardo de Lima, finaliza a defesa da construção do biossistema no escopo das ações do CFEcoMar BG: “todos sabem que a construção de grandes estruturas de saneamento básico, como grandes estações de tratamento de esgoto, a construção de redes coletoras de esgoto, tem um custo muito elevado. Portanto, o biossistema saneamento integrado é uma alternativa tecnológica adequada para a realidade ambiental, social e também financeira de grupos sociais vulneráveis no estado do Rio de Janeiro. Foi exatamente por isso que, através do Programa Socioambiental da Petrobras, o Movimento Baía Viva, em parceria com o NIDES da UFRJ, está implantando esse biossistema na Ilha do Fundão.”
*Sobre os Autores
Francisco Pontes de Miranda Ferreira é Doutor e Pós-Doutor em Ciências do Meio Ambiente, Jornalista e Coordenador do Projeto BSI/MBV. Thereza Dantas é comunicadora do Centro de Formação em Economia do Mar (Baía de Guanabara e diretora do Movimento Baía Viva.

