Por Rudá Capriles, com dados do MapBiomas
Antes de tudo é necessário uma salva de palmas para o Landsat 5!
Ele não foi apenas um satélite comum, foi vigoroso. Projetado para durar 3 anos, ele operou por 28 anos.
A observação da Terra por satélites permite compreender um dos processos mais preocupantes da transformação ambiental brasileira: a fragmentação da vegetação nativa. Ao longo das últimas quatro décadas, grandes extensões de cobertura vegetal foram progressivamente divididas em áreas menores, separadas por pastagens, lavouras, estradas e cidades.
O território urbanizado brasileiro mais que dobrou nesse intervalo, passando de 1,9 milhão para 4,4 milhões de hectares. Entretanto, o crescimento das cidades foi acompanhado por um movimento inverso: a redução da vegetação urbana, a intensificação das ilhas de calor e a expansão da ocupação de áreas suscetíveis a inundações e deslizamentos.
Esse retrato emerge da Coleção 11 do MapBiomas Urbano. O levantamento reúne informações sobre quatro décadas de urbanização brasileira e incorpora novos indicadores de temperatura da superfície e iluminação artificial noturna.
Mais do que documentar o crescimento das cidades, os dados ajudam a compreender como o país alterou o equilíbrio entre suas construções e os ambientes naturais.
Quatro décadas de transformação territorial
Entre 1985 e 2025, o Brasil incorporou aproximadamente 2,5 milhões de hectares à sua área urbanizada, um crescimento de 132%. Em 83,3% dos municípios brasileiros, a extensão urbanizada pelo menos dobrou nesse período.
A expansão ocorreu em todas as regiões, mas com intensidades e características distintas. A Mata Atlântica concentra 46,9% de toda a área urbanizada do país, enquanto a Caatinga apresentou a maior proporção de urbanização recente: 63,9% de sua área urbanizada atual surgiu depois de 1985.
A transformação foi alimentada principalmente pela conversão de antigas pastagens, responsáveis por cerca de 38% das novas áreas urbanizadas. Outros espaços agrícolas e áreas de vegetação natural também passaram a integrar a paisagem construída.
O resultado aparece claramente nas imagens de satélite: manchas urbanas que antes ocupavam pequenas parcelas do território se expandiram continuamente, modificando o desenho de municípios e regiões metropolitanas.
A inversão histórica: quando o concreto supera o verde
Talvez o dado mais revelador do levantamento esteja na relação entre a expansão das cidades e a disponibilidade de vegetação.
Em 1985, o Brasil possuía aproximadamente 6,5 milhões de hectares de vegetação urbana, considerando tanto a cobertura vegetal dentro das manchas urbanizadas quanto aquela localizada nos limites dos perímetros urbanos. Quarenta anos depois, restavam cerca de 4,1 milhões de hectares, uma redução de 35,9%.
A maior parte dessa perda ocorreu nas áreas periurbanas, onde a vegetação diminuiu de 6,39 milhões para 3,95 milhões de hectares.
Esses espaços representam importantes zonas de transição entre a cidade construída e a paisagem natural. Sua transformação altera a relação das cidades com os recursos hídricos, a biodiversidade e os processos de regulação ambiental.
A vegetação intraurbana, por sua vez, cresceu em termos absolutos, passando de 78 mil para 196 mil hectares. Mas esse aumento não foi suficiente para compensar a redução do verde nas bordas urbanas.
Em 2025, ocorreu uma inversão inédita na série histórica: a área urbanizada sem vegetação atingiu 4,24 milhões de hectares e superou os 4,14 milhões de hectares de vegetação urbana total.
Em 1985, existiam aproximadamente 3,54 hectares de vegetação para cada hectare urbanizado sem vegetação. Em 2025, essa relação havia caído para apenas 0,98 hectare.
Em outras palavras, o Brasil passou de uma paisagem urbana cercada por uma extensão muito maior de vegetação para outra na qual as superfícies urbanizadas sem cobertura vegetal já predominam nessa comparação.
Favelas cresceram mais de 150% em quarenta anos
A transformação do território brasileiro também se manifesta na expansão das favelas e comunidades urbanas.
Entre 1985 e 2025, a área urbanizada nesses territórios passou de 60,2 mil para 151,7 mil hectares, um aumento superior a 150%.
Isso significa que aproximadamente seis em cada dez hectares atualmente urbanizados em favelas surgiram nas últimas quatro décadas.
O levantamento identificou cerca de 12,3 mil favelas e comunidades urbanas distribuídas por centenas de municípios brasileiros. Entre aquelas que já apresentavam área urbanizada em 1985, 42,4% pelo menos dobraram de tamanho até 2025.
A expansão revela um processo complexo de transformação territorial. Ao mesmo tempo que as cidades ampliaram seus limites, uma parcela significativa da população passou a ocupar novos espaços em comunidades urbanas, muitas vezes sob condições ambientais distintas daquelas observadas em outras regiões das cidades.
O desaparecimento proporcional do verde nas comunidades
O crescimento das favelas foi acompanhado por uma mudança expressiva na relação entre áreas construídas e vegetação.
Em 1985, a disponibilidade de vegetação intraurbana nas favelas era 43% superior à registrada nas demais áreas urbanas brasileiras.
Quarenta anos depois, essa relação havia se invertido.
Enquanto a disponibilidade de vegetação intraurbana aumentou aproximadamente 10% fora das favelas, dentro delas caiu cerca de 34%. Em 2025, as comunidades apresentavam 15% menos vegetação intraurbana por hectare urbanizado sem vegetação do que as demais áreas urbanas.
A diferença pode ser compreendida por uma comparação simples: para cada 100 hectares urbanizados sem cobertura vegetal, as favelas possuíam seis hectares de vegetação intraurbana em 1985. Em 2025, passaram a ter apenas quatro. Fora das favelas, a disponibilidade aumentou de 4,2 para 4,6 hectares.
Considerando a vegetação urbana dentro e ao redor das comunidades, o levantamento aponta que 77,6% das favelas perderam pelo menos 10% de sua vegetação no período analisado.
Esses números revelam uma dimensão ambiental importante da desigualdade urbana. A presença de árvores e áreas verdes não acompanhou proporcionalmente o crescimento das comunidades, agravando desafios associados ao conforto térmico e à adaptação climática.
Brasília e Manaus: diferentes retratos da urbanização brasileira
A expansão das favelas apresenta características regionais bastante distintas.
O Norte reúne 27,9% de toda a área urbanizada em favelas do país, embora concentre apenas 9,4% da área urbanizada brasileira.
Manaus lidera o ranking nacional de extensão urbanizada em favelas, com aproximadamente 10,5 mil hectares distribuídos em 235 comunidades. São Paulo, apesar de reunir 1.359 favelas, possui uma extensão urbanizada menor nesses territórios, de aproximadamente 6 mil hectares.
O Amazonas também apresenta a maior proporção estadual de área urbanizada em favelas: 22,4% do total urbanizado.
Em Brasília, outro fenômeno chama a atenção. Segundo o levantamento, as três maiores favelas brasileiras em extensão urbanizada estão no Distrito Federal: 26 de Setembro, Sol Nascente e Morro da Cruz I e II.
Juntas, somam 2.313 hectares, correspondentes a cerca de 60% da área urbanizada em favelas do Distrito Federal.
A transformação da comunidade 26 de Setembro é especialmente expressiva. Em 1985, 83,4% do território hoje ocupado pela comunidade era coberto por floresta. Em 2025, 94,9% da área estava classificada como não vegetada.
A comparação demonstra como uma paisagem predominantemente natural pode ser transformada em território urbanizado ao longo de poucas décadas.
Entretanto, é importante considerar o contexto mais amplo: embora 54% da expansão urbana nas favelas tenha ocorrido sobre áreas naturais, a conversão absoluta desses ambientes em áreas urbanizadas foi 17,5 vezes maior fora das favelas.
Portanto, a perda de vegetação associada ao crescimento das cidades brasileiras não pode ser atribuída principalmente às comunidades urbanas.
A expansão urbana encontra as áreas suscetíveis a desastres
A relação entre ocupação territorial e segurança ambiental constitui outra dimensão importante do levantamento.
O MapBiomas identificou um aumento de 117% na área urbanizada em favelas localizada em zonas de suscetibilidade muito alta a inundações entre 1985 e 2025.
A média anual passou de 3.741 hectares no período de 1985 a 1989 para 8.111 hectares entre 2020 e 2025.
O crescimento também ocorreu em áreas suscetíveis a deslizamentos. Nesses locais, a extensão urbanizada em favelas aumentou 12%, chegando a uma média anual de 4.456 hectares no período mais recente.
Em 2025, aproximadamente 2.207 favelas apresentavam parte de seu território em áreas de suscetibilidade muito alta a inundações.
O Pará concentrava a maior extensão de áreas urbanizadas em favelas nessa condição, com 2.059 hectares. No Amapá, a proporção chegava a 92% da área urbanizada em favelas.
Para os deslizamentos, o estado do Rio de Janeiro apresentava a maior extensão urbanizada em favelas com suscetibilidade muito alta, totalizando 781 hectares.
Na Região Serrana fluminense, Petrópolis, Nova Friburgo e Teresópolis aparecem entre os seis municípios brasileiros com maior área urbanizada suscetível a deslizamentos quando consideradas conjuntamente as classes de suscetibilidade.
Os indicadores não representam a ocorrência efetiva de desastres, mas permitem identificar territórios cujas características físicas favorecem determinados processos naturais.
Seu valor está justamente na possibilidade de antecipar problemas e orientar políticas públicas de prevenção, planejamento urbano e adaptação climática.
Ilhas de calor: a cidade que aquece seus próprios habitantes
A redução da vegetação também pode ser observada em outro indicador apresentado pelo MapBiomas: a intensidade das ilhas de calor urbanas.
Utilizando informações térmicas dos satélites Landsat, o levantamento comparou a temperatura da superfície das áreas urbanizadas com aquela registrada em seus entornos não urbanizados.
Os resultados mostram que, durante o verão, a superfície das cidades brasileiras apresenta temperatura média 2,73 °C superior à das áreas não urbanizadas próximas.
Em aproximadamente 26% dos setores censitários urbanos, essa diferença ultrapassa 7 °C.
Mas é a relação entre temperatura e cobertura vegetal que revela um dos contrastes mais significativos.
Nos setores censitários urbanos com até 10% de cobertura vegetal, a intensidade média das ilhas de calor chega a 5 °C no verão. Em setores com mais de 80% de vegetação, a diferença média cai para aproximadamente 1,1 °C.
Além disso, cerca de 81,5% dos setores censitários urbanos brasileiros apresentam menos de 10% de cobertura vegetal.
O levantamento também mostra que 95% da área urbanizada de São Paulo apresenta intensidade de ilha de calor superior a 2,5 °C no verão. No Rio de Janeiro, a proporção é de 84,5%.
Esses dados não devem ser confundidos com a temperatura do ar registrada por estações meteorológicas. O indicador representa a temperatura da superfície terrestre e sua diferença em relação ao entorno.
Ainda assim, a relação identificada é significativa: quanto menor a cobertura vegetal, maior tende a ser a intensidade do aquecimento superficial.
A presença de vegetação urbana, portanto, não representa apenas um benefício paisagístico. É um componente fundamental para o planejamento de cidades capazes de enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas.
A transformação das cidades também aparece durante a noite
Quando o Sol desaparece, outra dimensão da transformação territorial brasileira se torna visível.
A Coleção 11 apresenta um novo mapeamento da luz artificial noturna detectável por satélite, permitindo acompanhar sua expansão entre 2013 e 2025.
Nesse período, a área com emissão luminosa detectável aumentou 37%, incorporando aproximadamente 1,7 milhão de hectares.
Em 2025, essa área alcançou cerca de 6,3 milhões de hectares, embora 99,3% do território brasileiro permanecesse sem luz artificial noturna detectável pelos critérios utilizados.
O crescimento foi especialmente expressivo quando comparado à expansão urbana: a área com luz artificial noturna aumentou, em hectares, 2,5 vezes mais que a própria área urbanizada entre 2013 e 2025.
O Sudeste concentra 40% da área iluminada mapeada, apesar de ocupar apenas 11% do território brasileiro. A região Norte reúne 8% da área iluminada, embora corresponda a aproximadamente 45% da extensão territorial do país.
Minas Gerais e São Paulo responderam, juntos, por 29% da expansão nacional da área com luz artificial noturna. Mato Grosso apresentou o maior crescimento proporcional entre os estados, com 97%.
A iluminação observada do espaço, contudo, não corresponde necessariamente à extensão urbana, à renda ou à qualidade da iluminação pública.
Ela permite identificar padrões de atividade humana e transformações territoriais, além de fornecer informações relevantes para investigar possíveis impactos sobre a biodiversidade, os habitats naturais e os ecossistemas.
Se as imagens diurnas mostram o avanço das construções, os registros noturnos revelam outra expressão da presença humana no território.
O desafio de construir cidades sem eliminar a natureza
As quatro décadas de informações reunidas pelo MapBiomas revelam uma transformação que vai além do aumento da extensão urbana brasileira.
As cidades cresceram, incorporaram novos territórios, ampliaram suas estruturas e alteraram profundamente as paisagens. Mas esse avanço também foi acompanhado pela redução de áreas verdes, pela ocupação de territórios suscetíveis a desastres e pela intensificação do aquecimento superficial.
Os dados evidenciam que os efeitos dessas mudanças não se distribuem uniformemente. A disponibilidade de vegetação, a exposição a determinadas condições ambientais e as características da expansão urbana variam entre regiões, municípios e comunidades.
Ao integrar informações de uso da terra, vegetação, temperatura, suscetibilidade climática e iluminação artificial, o MapBiomas oferece instrumentos para compreender essas diferenças e subsidiar decisões sobre o futuro das cidades.
O desafio não consiste apenas em ampliar a infraestrutura urbana, mas também em reconhecer que a natureza desempenha funções essenciais dentro e ao redor dos espaços construídos.
Preservar a vegetação, recuperar áreas degradadas, ampliar a arborização e planejar a ocupação territorial são medidas diretamente relacionadas à qualidade ambiental e à capacidade de adaptação das cidades brasileiras.
Quarenta anos de imagens de satélite mostram quanto o Brasil conseguiu construir. Os mesmos registros revelam quanto de verde perdeu nesse caminho.
A questão que se coloca para as próximas décadas é se o país será capaz de continuar se desenvolvendo sem comprometer os elementos naturais que tornam suas cidades mais habitáveis.
Fonte: MapBiomas — Cidades em Transformação, Coleção 11, Módulo Urbano, 4 de novembro de 2026. Dados de urbanização e vegetação urbana de 1985 a 2025, além dos módulos de risco climático, ilhas de calor e luz artificial noturna.









