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Da França ao Brasil: quando o medo abre caminho para a extrema direita

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

As manifestações que sacodem a França revelam um fenômeno que o Brasil conhece muito bem: a transformação da insatisfação popular em medo, do medo em discurso de autoridade e da crise social em oportunidade política para a extrema direita.

23 de outubro de 2026 | Rudá Capriles

Há poucos dias, recebi uma mensagem de minha irmã francesa. Era um relato angustiado sobre a situação política e social da França, um país que durante séculos representou, ao menos simbolicamente, os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Sua mensagem terminava com uma frase que permaneceu comigo: “Estou realmente aterrorizada.”

O que poderia parecer apenas o desabafo de alguém preocupado com o próprio país revela uma questão muito mais profunda. A França atravessa uma crise na qual as reivindicações legítimas de uma geração estão sendo progressivamente substituídas, no debate público, pelas imagens da violência. E, quando isso acontece, a extrema direita encontra terreno fértil para apresentar o autoritarismo como solução.

Não é um fenômeno exclusivamente francês. O Brasil conhece esse roteiro.

Na França, o movimento de contestação ganhou força entre estudantes que denunciam a deterioração das condições de ensino, a falta de professores e a desigualdade de oportunidades. A insatisfação alcança também o sistema de acesso ao ensino superior, especialmente o Parcoursup, plataforma que organiza candidaturas às universidades e outras instituições.

Embora o sistema estabeleça critérios de seleção e procure organizar o ingresso no ensino superior, existe uma contradição fundamental: como falar em igualdade de oportunidades quando os estudantes não dispõem das mesmas condições para competir?

O filho de uma família privilegiada dispõe de escolas bem equipadas, orientação especializada, aulas particulares e estabilidade financeira. Já o estudante de origem popular frequentemente precisa conciliar trabalho e estudo, enfrenta deficiências estruturais na formação e dispõe de menos recursos para planejar o futuro.

O problema não está apenas no processo seletivo. Está nas desigualdades que o antecedem.

No Brasil, essa realidade é ainda mais evidente. O acesso à educação superior continua profundamente marcado pela renda, pelo território e pela cor da pele. Dados do IBGE mostram que, em 2025, apenas 18,9% dos jovens pretos ou pardos entre 18 e 24 anos frequentavam o ensino superior na etapa adequada, contra 33,4% dos jovens brancos.

São países com histórias e estruturas sociais diferentes, mas que enfrentam uma pergunta semelhante: quem realmente tem direito ao futuro?

Quando a reivindicação desaparece atrás da vitrine quebrada

Em 17 de outubro, centenas de milhares de pessoas foram às ruas francesas para protestar contra o aumento do custo de vida, a deterioração dos serviços públicos e a precariedade das condições de ensino.

Segundo o Ministério do Interior francês, aproximadamente 550 mil pessoas participaram das manifestações. Os organizadores estimaram 800 mil.

A mobilização, majoritariamente pacífica, acabou marcada por confrontos, incêndios, depredações e saques realizados por grupos que atuaram à margem dos protestos.

As imagens circularam pelo mundo. Vitrines destruídas, lojas saqueadas, automóveis incendiados e ruas tomadas pela fumaça.

É evidente que a destruição não pode ser romantizada. Pequenos comerciantes perderam mercadorias, trabalhadores ficaram expostos ao perigo e o patrimônio público sofreu danos. A liberdade de manifestação não autoriza ataques contra pessoas ou estabelecimentos.

Mas há outra violência que raramente ocupa o mesmo espaço no noticiário.

A violência de uma escola sem professores. De uma família que não consegue pagar suas contas. De um jovem que abandona os estudos porque precisa trabalhar. De uma pessoa que deixa de procurar atendimento médico por falta de recursos.

Uma vitrine quebrada pode ser substituída. Uma oportunidade educacional perdida pode comprometer uma vida inteira.

Isso não torna a primeira violência aceitável. Apenas nos obriga a reconhecer que a violência social também existe quando não produz imagens espetaculares.

O aspecto mais perturbador do relato de minha irmã, entretanto, diz respeito à repressão policial. Durante a recente onda de manifestações francesas, jovens sofreram ferimentos gravíssimos. Casos de perda de mãos e lesões oculares irreversíveis foram documentados, e investigações foram abertas para esclarecer a atuação das forças de segurança.

O Estado tem a obrigação de proteger manifestantes, comerciantes e policiais. Mas a legitimidade da segurança pública depende do respeito à proporcionalidade e aos direitos fundamentais.

Quando a resposta à insatisfação juvenil se transforma predominantemente em repressão, o risco é produzir ainda mais revolta e abrir espaço para aqueles que prometem restaurar a ordem a qualquer preço.

Foto: FreCha / Wikimedia Commons

A extrema direita e a política do medo

Na França, o Rassemblement National, partido de Marine Le Pen e Jordan Bardella, rapidamente incorporou as imagens dos distúrbios à sua narrativa política.

A violência das ruas passou a ser apresentada como evidência do fracasso das instituições e da incapacidade dos adversários de garantir segurança à população.

O movimento La France Insoumise (LFI), liderado por Jean-Luc Mélenchon, tornou-se alvo de acusações políticas sobre os acontecimentos. Seus dirigentes, por sua vez, rejeitaram os saques e criticaram a condução das operações policiais.

É preciso distinguir a responsabilidade individual de quem promove depredações da responsabilidade política de organizações que participam de manifestações democráticas. Atribuir a um partido o comando de atos criminosos exige provas, não apenas associação retórica.

A extrema direita, entretanto, pode se beneficiar dessa confusão.

Sua estratégia recorrente consiste em transformar problemas sociais complexos em uma narrativa simples: existe o caos, existem os culpados e existe uma autoridade capaz de restaurar a ordem.

Nesse discurso, o medo tende a ocupar o espaço que deveria pertencer à reflexão.

O desemprego, a desigualdade, a precarização dos serviços públicos e a insegurança passam a ser interpretados por meio de inimigos facilmente identificáveis: imigrantes, movimentos sociais, adversários políticos ou minorias.

A promessa de ordem pode ser legítima. O perigo começa quando ela é utilizada para justificar a erosão dos direitos daqueles que discordam.

O Brasil já assistiu a esse filme

Em junho de 2013, milhões de brasileiros ocuparam as ruas. O movimento começou com reivindicações relacionadas ao transporte público e rapidamente incorporou demandas por saúde, educação, combate à corrupção e melhores serviços públicos.

Era uma mobilização heterogênea, marcada por diferentes visões políticas e por uma insatisfação generalizada com a representação institucional.

Ao longo dos anos seguintes, parte daquele sentimento foi apropriada por forças políticas que passaram a explorar o antipartidarismo, a rejeição ao sistema político e a indignação com a corrupção.

A crise econômica, os escândalos políticos e a crescente polarização ajudaram a construir o ambiente no qual Jair Bolsonaro seria eleito presidente em 2018.

Não seria correto afirmar que as manifestações de 2013 produziram, inevitavelmente, o bolsonarismo. As causas de sua ascensão são múltiplas. Mas seria igualmente equivocado ignorar como a revolta social pode ser redirecionada para projetos políticos muito diferentes daqueles que originalmente mobilizaram as ruas.

O Brasil testemunhou o fortalecimento de uma retórica que associava adversários políticos a ameaças à nação, colocava em dúvida a legitimidade de instituições democráticas e apresentava soluções autoritárias como respostas a problemas complexos.

O desfecho mais grave dessa radicalização ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília.

É importante não estabelecer uma falsa equivalência entre os acontecimentos. As manifestações sociais francesas e os ataques às instituições brasileiras tiveram naturezas e objetivos diferentes. No Brasil, as investigações e decisões judiciais identificaram uma tentativa de ruptura da ordem democrática, culminando, em 2025, na condenação de Jair Bolsonaro e outros envolvidos na trama golpista.

A comparação pertinente está em outro lugar: na capacidade de movimentos autoritários de explorar crises, ressentimentos e sentimentos de insegurança para enfraquecer a confiança da sociedade na democracia.

A violência que escolhemos enxergar

Existe ainda uma contradição particularmente brasileira.

Somos frequentemente convidados a tratar a violência como um problema que se resolve exclusivamente com mais repressão, enquanto as condições sociais que alimentam a insegurança permanecem em segundo plano.

Em 2025, o Brasil registrou 6.602 mortes decorrentes de intervenções policiais, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2026. Pessoas negras representaram aproximadamente 82% das vítimas.

Esses números revelam que a discussão sobre ordem pública não pode ser separada da desigualdade racial e social.

A segurança é um direito coletivo. O enfrentamento da criminalidade é indispensável. Mas nenhuma democracia deveria aceitar que a proteção da sociedade dependa da relativização sistemática do direito à vida.

Na França, as denúncias de violência policial contra estudantes provocam indignação. No Brasil, a letalidade policial atinge principalmente jovens negros e moradores de territórios vulneráveis, frequentemente sem provocar a mesma comoção nacional.

Essa seletividade também precisa ser examinada.

Por que determinadas formas de violência recebem atenção imediata enquanto outras são naturalizadas?

Por que o patrimônio destruído produz tamanho impacto, enquanto vidas interrompidas ou futuros comprometidos tantas vezes se tornam apenas estatísticas?

Uma democracia não pode medir o valor da dignidade humana pela classe social, pela origem ou pelo endereço de suas vítimas.

Duas eleições, uma advertência

A França se aproxima das eleições presidenciais de 2027. O Brasil chega ao segundo turno presidencial de 25 de outubro de 2026.

O momento político dos dois países torna ainda mais importante compreender como o medo interfere nas escolhas coletivas.

Marine Le Pen procura apresentar seu partido como alternativa à instabilidade francesa. No Brasil, o bolsonarismo permanece como uma força política expressiva, apesar da condenação judicial de seu principal líder.

Os contextos institucionais são distintos, assim como as trajetórias e propostas dos atores políticos. Mas há um ponto de convergência: a exploração da insegurança e da desconfiança nas instituições como instrumentos de mobilização eleitoral.

Governos democráticos precisam responder às demandas por segurança e ordem. Seria irresponsável ignorá-las. Mas também precisam compreender que uma sociedade não se torna estável apenas porque suas ruas estão policiadas.

Não existe segurança duradoura quando a população perde a esperança de melhorar de vida.

Não existe igualdade de oportunidades quando o acesso à educação depende das condições econômicas da família.

E não existe democracia sólida quando o adversário político deixa de ser considerado um cidadão com direitos e passa a ser apresentado como um inimigo que precisa ser eliminado da vida pública.

A experiência brasileira demonstra que o enfraquecimento democrático não começa necessariamente com tanques nas ruas. Pode começar com a banalização da violência, a desinformação, a desumanização dos adversários e a aceitação gradual de medidas de exceção.

A França, que ajudou a difundir os ideais modernos de cidadania, enfrenta agora o desafio de demonstrar que esses princípios continuam capazes de orientar sua vida política.

O futuro não pode ser construído pelo medo

Ao terminar de ler a mensagem de minha irmã, fiquei pensando no significado de sua última frase.

“Estou realmente aterrorizada.”

O terror que ela descreve não é apenas o medo de uma manifestação violenta, de uma repressão policial ou de uma eventual vitória da extrema direita.

É também o medo de assistir à deterioração gradual de conquistas democráticas que pareciam consolidadas.

O Brasil conhece esse sentimento. Conhece o risco de ver o ódio transformado em linguagem política, a violência normalizada e a defesa dos direitos fundamentais tratada como sinal de fraqueza.

Mas conhece também a capacidade de resistência de suas instituições, de seus movimentos sociais e de sua sociedade civil.

A lição que podemos extrair da França não é que toda reivindicação popular deva ser apoiada sem questionamentos, nem que toda resposta policial seja ilegítima. É que conflitos sociais exigem soluções políticas, instituições responsáveis e respeito aos direitos fundamentais.

As depredações precisam ser investigadas e seus responsáveis, responsabilizados. Eventuais abusos policiais também. E as reivindicações de milhões de cidadãos não podem desaparecer simplesmente porque um grupo decidiu recorrer à violência.

Quando os governos deixam de ouvir a sociedade, a indignação cresce. Quando essa indignação se transforma em caos, forças autoritárias encontram uma oportunidade. E, quando o medo substitui o debate público, a própria democracia passa a correr perigo.

A grande tragédia não está apenas nas vitrines quebradas. Está na possibilidade de uma sociedade, aterrorizada diante delas, entregar suas liberdades em troca da promessa de ordem.

Da França ao Brasil, a advertência é a mesma: uma democracia que abandona sua juventude compromete o próprio futuro. E uma sociedade que aceita sacrificar a liberdade em nome do medo corre o risco de perder ambas.

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