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A natureza em pedaços: o avanço silencioso da fragmentação no Brasil

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

por Rudá Capriles com dados do MapBiomas

Em 38 anos, o Brasil passou a ter 45% mais fragmentos de vegetação nativa, enquanto seu tamanho médio diminuiu 43%. Dados do MapBiomas revelam como a divisão e o isolamento dos ecossistemas ameaçam a biodiversidade, comprometem a conectividade ecológica e ampliam os riscos de degradação ambiental.

A fragmentação da vegetação nativa é o processo pelo qual áreas originalmente contínuas de florestas, savanas e outras formações naturais são divididas em porções menores e progressivamente isoladas. Esse fenômeno ocorre principalmente em consequência do desmatamento para a expansão de pastagens, lavouras, estradas e áreas urbanas. À medida que a vegetação é removida, os remanescentes passam a ficar separados por superfícies modificadas pela ação humana, perdendo parte de sua conectividade ecológica.

A fragmentação não representa apenas uma redução da extensão territorial da vegetação nativa. Ela também altera a estrutura e o funcionamento dos ecossistemas, dificulta o deslocamento de animais, a dispersão de sementes e o intercâmbio genético entre populações, além de aumentar a exposição das áreas remanescentes ao fogo, às mudanças microclimáticas e a outros fatores de degradação.

Um novo levantamento do MapBiomas revela a dimensão desse processo no território brasileiro. Minas Gerais, Bahia, Goiás, São Paulo e Paraná concentram 49% dos 3,41 milhões de fragmentos de vegetação nativa identificados no Brasil em 2024. A concentração não significa que esses estados possuam as maiores extensões de vegetação preservada. Pelo contrário, evidencia paisagens nas quais a cobertura nativa se encontra intensamente subdividida.

Os dados integram o módulo de Degradação do MapBiomas, atualizado com a Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra, e abrangem o período de 1986 a 2024.

Em 38 anos, o número de fragmentos aumentou 45%

Em 1986, o Brasil possuía 2,35 milhões de fragmentos de vegetação nativa, com área média de 287 hectares. Em 2024, o número chegou a 3,41 milhões, enquanto a área média diminuiu para 163 hectares.

Isso significa que, ao longo de 38 anos, o número de fragmentos aumentou 45%, ao mesmo tempo que sua área média sofreu uma redução de 43%. Além de perder cobertura vegetal, o país passou a apresentar uma distribuição espacial mais fragmentada dos remanescentes naturais.

A redução da área média é particularmente importante porque fragmentos menores tendem a apresentar maior proporção de bordas em relação ao seu interior, tornando-se mais vulneráveis às pressões externas. O isolamento também dificulta a manutenção de populações viáveis de determinadas espécies, especialmente aquelas que dependem de grandes extensões de habitat ou de deslocamentos entre diferentes áreas naturais.

“Essa redução da conectividade afeta diretamente a capacidade de dispersão e reprodução das espécies nativas que vivem nesses fragmentos, reduzindo o fluxo gênico e aumentando o risco de extinções locais. Quanto mais fragmentada fica a paisagem, menor é a área média de seus fragmentos, e isso é muito ruim em termos ambientais porque aumenta drasticamente a exposição aos efeitos de borda e ao fogo, especialmente em anos de eventos climáticos extremos”, explica Dhemerson Conciani, pesquisador do IPAM e coordenador técnico do grupo de Degradação do MapBiomas.

O aumento do número de fragmentos, entretanto, não deve ser interpretado isoladamente como resultado do desmatamento. Áreas de vegetação secundária em regeneração também podem surgir como novos fragmentos. Por isso, a avaliação da degradação exige considerar conjuntamente o tamanho, o isolamento, a morfologia e a situação ecológica dos remanescentes.

Sul e Sudeste concentram os menores fragmentos

As diferenças regionais mostram como a história da ocupação territorial brasileira está associada à fragmentação.

Segundo o levantamento, 46% dos municípios brasileiros apresentam área média de fragmentos inferior a 25 hectares, concentrados principalmente nas regiões Sul e Sudeste.

Entre os 20 municípios com menores áreas médias, 12 estão no Sudeste, cinco no Nordeste e três no Sul. São João de Meriti, na Baixada Fluminense, apresenta a menor média do país, com apenas 1,9 hectare por fragmento.

No extremo oposto, a região Norte ainda abriga as maiores extensões contínuas de vegetação nativa. Dos 20 municípios com maiores áreas médias de fragmentos, 19 estão nessa região.

Itamarati, no Amazonas, lidera o levantamento, com média de 65,6 mil hectares por fragmento. A única exceção entre os 20 primeiros é Barra D’Alcântara, no Piauí, com aproximadamente 26 mil hectares. Considerando os estados, o Amazonas apresenta a maior área média, de cerca de quatro mil hectares por fragmento.

Essas diferenças evidenciam a importância de considerar não somente a quantidade de vegetação existente em cada território, mas também sua continuidade espacial e o grau de isolamento entre os remanescentes.

Mata Atlântica e Cerrado lideram em número de fragmentos

A Mata Atlântica e o Cerrado apresentam os maiores números de fragmentos entre os seis biomas brasileiros.

A Mata Atlântica contabiliza aproximadamente 1,38 milhão de fragmentos, com área média de 25 hectares. O Cerrado reúne cerca de 957 mil fragmentos, com média de 105 hectares. O Pampa também apresenta fragmentos relativamente pequenos, com área média de 81 hectares.

Na Amazônia, embora permaneçam grandes extensões contínuas de vegetação, a fragmentação avançou de maneira significativa. O número de fragmentos aumentou 260% entre 1986 e 2024, passando de 144 mil para 519 mil. No mesmo período, sua área média caiu 76%, de aproximadamente 2,7 mil para 662 hectares.

Esses resultados precisam ser considerados juntamente com as transformações na cobertura e no uso da terra.

A Coleção 11 do MapBiomas mostra que, em 2025, 65% do território brasileiro permanecia coberto por vegetação nativa, enquanto aproximadamente 32% era ocupado pela agropecuária. Em 1985, a vegetação nativa representava cerca de 79% do território nacional.

No Cerrado, a perda acumulada de vegetação nativa entre 1985 e 2025 foi de 51,7 milhões de hectares, equivalente a 34% da cobertura original identificada no início da série. Em 2025, as áreas naturais representavam 49,6% do bioma, enquanto as áreas antrópicas ocupavam 49,5%.

Na Amazônia, o factsheet específico da Coleção 11 aponta uma redução de 54,7 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2025, equivalente a 13,8%. Apesar disso, o bioma ainda mantinha 81,3% de seu território coberto por vegetação nativa em 2025.

É importante distinguir esses indicadores: os dados de cobertura da terra quantificam a extensão das áreas naturais e suas transformações; os indicadores de fragmentação descrevem como os remanescentes se distribuem e se conectam na paisagem. São dimensões complementares da conservação ambiental.

De 10% a 24% da vegetação nativa está exposta a vetores de degradação

A degradação da vegetação nativa não ocorre exclusivamente quando há desmatamento. Mesmo áreas que permanecem cobertas por vegetação podem sofrer alterações em sua estrutura, composição biológica e funcionamento ecológico.

Para identificar essas condições, o módulo de Degradação do MapBiomas permite combinar diferentes indicadores, incluindo número, tamanho, isolamento e morfologia dos fragmentos, área e idade das bordas, frequência e tempo desde a ocorrência de fogo, idade da vegetação secundária, distúrbios de dossel e corte seletivo de madeira.

Os resultados variam conforme os critérios e os indicadores considerados.

Em 2024, a área de vegetação nativa exposta a pelo menos um vetor de degradação variou de 53,3 milhões de hectares, equivalentes a 10% do total, em um cenário restritivo, até 134,8 milhões de hectares, ou 24%, em um cenário abrangente.

Em 1986, os valores correspondentes eram de 41 milhões de hectares, ou 6%, e 95,5 milhões de hectares, ou 14%.

Essas estimativas identificam áreas potencialmente expostas à degradação segundo os indicadores utilizados, e não significam que toda a vegetação incluída apresente necessariamente o mesmo grau de dano ecológico.

A Mata Atlântica é o bioma proporcionalmente mais exposto em 2024, com estimativas que variam de 33% a 70% de sua vegetação nativa. Em extensão absoluta, o Cerrado apresenta os maiores valores, entre 17,7 milhões e 42,1 milhões de hectares.

O avanço recente do desmatamento também ajuda a identificar regiões sob pressão. Segundo o Relatório Anual do Desmatamento de 2025, do MapBiomas Alerta, cerca de 40% da perda de vegetação nativa registrada no Brasil naquele ano ocorreu no MATOPIBA, região formada por partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, somando 392.929 hectares. A região concentrou 70% do desmatamento registrado no Cerrado em 2025.

Embora desmatamento e degradação sejam fenômenos distintos, a conversão de áreas naturais pode criar novos fragmentos, ampliar bordas e aumentar o isolamento dos remanescentes.

O efeito de borda amplia a vulnerabilidade dos ecossistemas

Um dos principais efeitos da fragmentação está relacionado à formação de bordas, faixas de transição entre a vegetação nativa e as áreas modificadas pela atividade humana.

Nesses ambientes, a vegetação pode ficar mais exposta à incidência solar, aos ventos, à redução da umidade, à deriva de agrotóxicos e à propagação de incêndios. Essas alterações podem modificar a composição de espécies e comprometer processos ecológicos mesmo quando a vegetação não é completamente removida.

De acordo com o MapBiomas, entre 37 milhões e 102 milhões de hectares de vegetação nativa encontram-se em áreas de borda, considerando faixas de 30 a 150 metros. Isso representa de 7% a 18% da vegetação nativa brasileira.

O Cerrado possui a maior extensão absoluta de áreas de borda, com estimativas de 11 milhões a 32 milhões de hectares. A Mata Atlântica apresenta a maior proporção relativa, variando de 29% a 66% da vegetação remanescente.

A permanência prolongada dessas condições representa outro fator de preocupação. Considerando bordas de até 150 metros, aproximadamente 69 milhões de hectares, equivalentes a 12% da vegetação nativa do país, encontram-se em bordas antigas, existentes desde 1986. Entre as áreas atualmente sob efeito de borda, 67% já apresentavam essa condição no início da série histórica.

Isso revela que parte expressiva da vegetação brasileira permanece submetida há décadas às pressões associadas à fragmentação.

A forma dos fragmentos também influencia a degradação

Além de medir o tamanho e o isolamento das áreas naturais, o MapBiomas analisa sua morfologia, isto é, a organização espacial dos fragmentos e a relação entre suas bordas e áreas interiores.

Utilizando uma faixa de borda padronizada de 30 metros, o levantamento identificou que 91% da vegetação nativa está localizada nas porções interiores dos fragmentos, relativamente menos expostas aos efeitos diretos das bordas.

Outros 6,7%, equivalentes a 36,9 milhões de hectares, apresentam configurações espaciais associadas à maior exposição à degradação, como bordas e perfurações. As perfurações ocorrem quando uma área antropizada está inteiramente cercada pela vegetação nativa, criando bordas internas.

Por outro lado, formas como corredores e ramificações podem contribuir para a conectividade da paisagem, facilitando o deslocamento de organismos entre remanescentes. Essas configurações somavam 9,4 milhões de hectares, correspondentes a 1,7% da vegetação nativa brasileira.

A análise demonstra por que conservar apenas a superfície total de vegetação não é suficiente. A disposição espacial dos remanescentes, suas dimensões e as possibilidades de conexão também são determinantes para a manutenção da biodiversidade.

A perda de conectividade e o futuro da biodiversidade

A fragmentação representa um desafio para a conservação porque seus efeitos se acumulam ao longo do tempo. À medida que os fragmentos diminuem ou se tornam mais isolados, algumas espécies encontram dificuldades crescentes para acessar recursos, deslocar-se entre habitats e manter populações geneticamente diversificadas.

A perda de conectividade pode comprometer processos como a polinização, a dispersão de sementes e a regeneração natural, reduzindo a capacidade de recuperação dos ecossistemas diante de secas, incêndios e outros eventos climáticos extremos.

O problema também está relacionado à degradação que ocorre sem a remoção completa da vegetação. Na Amazônia Legal, por exemplo, o monitoramento de distúrbios de dossel do MapBiomas identificou aproximadamente 24,9 milhões de hectares de cobertura florestal com sinais de perturbação em algum momento entre 1988 e 2024, associados a processos como incêndios, secas, ventos e exploração seletiva de madeira.

Portanto, uma paisagem pode apresentar cobertura vegetal e, ainda assim, ter sua integridade ecológica comprometida.

A recuperação da conectividade exige estratégias de conservação e restauração que considerem a distribuição dos remanescentes, a proteção de áreas interiores, a redução das pressões nas bordas e a recuperação de conexões entre fragmentos. Corredores ecológicos, restauração de matas ciliares e regeneração de áreas estratégicas podem contribuir para esse objetivo.

A importância dessas medidas ganha dimensão internacional durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, realizada entre 19 e 30 de outubro de 2026, em Yerevan, capital da Armênia. A conferência avalia o avanço da implementação do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, que estabelece compromissos internacionais para deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030.

“A redução da biodiversidade é um dos grandes problemas ambientais da atualidade, e a perda da vegetação nativa, juntamente com a sua fragmentação, está entre as principais causas”, destaca o debate apresentado pelo MapBiomas.

“As informações inéditas disponibilizadas e atualizadas sobre a fragmentação da vegetação nativa no Brasil são estratégicas para entender a dimensão do problema, evitar seu agravamento e inclusive orientar ações de restauração na busca de maior conectividade ecológica, por sinal um dos temas que estão sendo tratados desde o dia 19 de outubro na reunião da COP 17, da Convenção sobre Diversidade Biológica, em Yereván, capital da Armênia”, comenta Eduardo Vélez, pesquisador da GeoKarten e membro do grupo de Degradação do MapBiomas.

O desafio brasileiro, portanto, não se resume a conter a perda de vegetação nativa. É igualmente necessário proteger a integridade dos remanescentes e recuperar as conexões ecológicas que permitem aos ecossistemas manter sua diversidade e funcionalidade. Mais do que preservar hectares isolados, trata-se de conservar paisagens capazes de sustentar a vida.

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