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REWILDING NA ARGENTINA: UMA HISTÓRIA INSPIRADORA SOBRE RESTAURAÇÃO DE ECOSSISTEMAS

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O livro Rewilding na Argentina relata os desafios e êxitos do projeto que reinseriu animais como tamanduás-bandeira, ariranhas e onças-pintadas na província de Corrientes, onde foi criado o Parque Nacional Iberá, até santuários como Impenetrable, Estepe Patagônica e Patagônia Azul

Em tempos com recordes de desmatamento por queimadas (até o momento, estima-se que o Pantanal brasileiro tenha perdido cerca de 1 milhão de hectares), iniciativas ainda pouco conhecidas no Brasil, trazem de volta ao Bioma Pantaneiro, espécies em extinção, capazes de restaurar ecossistemas inteiros.

Tobuna foi a primeira onça-pintada inserida no projeto de reintrodução de sua espécie em Iberá em março de 2015. Apesar de nunca ter se reproduzido, essa fêmea se converteu em um grande símbolo do projeto. FOTO: KARINA SPØRRING

Desde 2010, a Fundação Rewilding Argentina mantém o foco de suas ações no rewilding, uma estratégia de restauração ecológica que tem revolucionado a reintrodução da vida selvagem em ecossistemas onde espécies animais foram submetidas à extinção local. Repleta de desafios e êxitos, com resultados e ensinamentos inspiradores, a trajetória transformadora da instituição pode agora ser conhecida por especialistas e pelo público em geral com a publicação, no Brasil, de Rewilding na Argentina.

Escrito a seis mãos por três lideranças da instituição – Sofía Heinonen, diretora executiva; Sebastían Di Martino, diretor de Conservação; e Emiliano Donadío, diretor Científico –, o livro acaba de ser editado aqui por iniciativa do Documenta Pantanal, projeto que reúne profissionais diversos com a missão de divulgar um dos mais ricos biomas nacionais, o Pantanal.     

Com um projeto gráfico repleto de imagens exuberantes – fotos que permeiam capítulos de elucidativo didatismo sem renunciar à profundidade temática que o tema demanda –, Rewilding na Argentina foi traduzido pelo ecólogo Fernando Fernandez, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

“Este é um livro que entrega muito mais do que promete (…) Para quem se interessa por conservação da biodiversidade, e se preocupa com o estado do nosso planeta, é uma história maravilhosa, gostosa de ler e inspiradora. Sim, nós podemos. Podemos trazer a natureza de volta, podemos fazer um mundo melhor. Isso muda tudo e nos dá uma nova direção, uma esperança, um futuro pelo qual vale a pena sonhar – e agir”, defende Fernandez. 

Essa constatação, de que o livro tem o potencial de influenciar práticas que podem ser replicadas pela comunidade científica de outros países e do Brasil, também é compartilhada por Teresa Bracher, coordenadora do Documenta Pantanal. 

“O lançamento de Rewilding na Argentina é um importante marco para as conexões que possam ultrapassar tanto o âmbito dos nossos ideais quanto a manutenção do patrimônio natural do Brasil, para podermos ir além e podermos adentrar, de forma potente e eficaz, nas instâncias governamentais que representam setores diretamente ligados e afetados pela manutenção e preservação do meio ambiente”, defende. 

Para todos os públicos e com download gratuito em PDF, o livro é, sobretudo, um testemunho do compromisso socioambiental inegociável e incansável do casal de empresários e filantropos norte-americanos Kris e Douglas Tompkins (1943 – 2015), mantenedores da Tompkins Conservation, instituição que criou ou expandiu 17 parques nacionais na Argentina e no Chile, totalizando 14,8 milhões de acres de terra e 30 milhões de acres de áreas marinhas.  

Criada em 2010, a Fundação Rewilding Argentina é herdeira do legado do The Conservation Land Trust Argentina, instituição fundada em 1997 por Doug e Kris Tompkins. Por meio das atividades desenvolvidas na Fundação Rewilding Argentina, o casal consolidou um de seus feitos mais notáveis, a criação do Parque Nacional Iberá, na província de Corrientes. A compra de terras para a realização do projeto se deu em 1998, e as iniciativas de reintrodução da fauna extinta tiveram início em 2007, com a ambiciosa meta de reintegrar ao ecossistema seu predador de topo, a onça-pintada. 

“Mas antes de planejar e propor o retorno de uma espécie tão complexa, foi preciso preparar o caminho com outras espécies igualmente extintas na região. Começou-se, então, com o tamanduá-bandeira, a que logo se seguiram o veado-campeiro, o cateto, a anta, a arara-vermelha, o mutum e a ariranha”, explicam os autores no capítulo de introdução de Rewilding na Argentina

Em janeiro de 2021, sete décadas depois de serem consideradas extintas em decorrência da caça ostensiva, as onças-pintadas voltaram às planícies de Iberá. Um ano depois, um integrante brasileiro entrou para o grupo, graças a uma ação coordenada em parceria com a Associação Onçafari. No livro, esse episódio é contado por Mario Haberfeld, fundador da instituição, que assina o prefácio da obra com o texto A história de Isa e Fera: de volta à natureza, no qual é detalhado o processo de reabilitação e encaminhamento de uma onça macho que apareceu doente e muito debilitado na Escola Jatobazinho, mantida pelo Instituto Acaia Pantanal na Serra do Amolar, no MS, e, mais tarde, foi reintroduzido à natureza na Argentina. Nesta jornada, o animal, que ganhou o nome Jatobazinho, foi tratado e reaprendeu a caçar na Fazenda Caiman. De lá, em 1º de janeiro de 2022, foi solto no Iberá, onde segue gerando descendentes. 

Atualmente, o Parque Nacional Iberá é reconhecido como o projeto multiespécies mais ambicioso da América, com reflexos igualmente positivos para a recuperação da vida silvestre e para o desenvolvimento de uma nova economia local. A restauração de ecossistemas promovida pela Fundação Rewilding Argentina também contribui para o enfrentamento de graves problemas ambientais como a perda da biodiversidade, a emergência climática e o surgimento de pandemias. O livro deixa evidente que trazer de volta espécies-chave para a restauração desses ecossistemas é também uma forma de preservação da própria humanidade. 

Em dias tão alarmantes, quando o impacto da emergência climática é escancarado com o registro de um dos invernos mais quentes da história no SUL Global, a leitura de Rewilding na Argentina serve também como um alento e um chamado à luta, como destaca a epígrafe do livro, um depoimento de Doug Tompkins: “Estão prontos para fazer a sua parte? Todo mundo é capaz de assumir seu papel e utilizar sua energia, influência política, talento e recursos financeiros ou de outro tipo para fazer parte de um movimento global pela saúde ecológica e cultural. Tudo será útil. Há um trabalho importante e significativo por fazer. Para mudar tudo, são necessários todos. Todos são bem-vindos”, convoca. 

No epílogo da publicação, Kris Tompkins reverbera o pensamento de Doug ao exaltar o aspecto colaborativo que é a força motriz da Fundação Rewilding Argentina, e também celebra os resultados de três décadas de vida dedicadas à conservação ambiental. 

“Para Doug e para mim, é motivo de orgulho ter formado equipes locais tão comprometidas com a restauração da natureza, que continuam e ampliam nosso trabalho e nossos valores. Elas são nosso grande legado. Não há sentimento maior do que ser parte dessas equipes, cujo esforço diário se traduz no regresso de onças-pintadas e araras-vermelhas a Iberá, e no retorno de uma miríade de espécies aos vários ecossistemas nos quais trabalhamos na Argentina.” 

Sobre a Fundação Rewilding Argentina 

A Fundação Rewilding Argentina trabalha para reverter a crise de extinção de espécies e promover economias locais restaurativas integradas em ecossistemas naturais completos e funcionais. Criada em 2010, em parceria com conservacionistas locais, a Rewilding Argentina é herdeira do legado da Tompkins Conservation, e dá continuidade à implementação de um trabalho conjunto com os governos estaduais e provinciais nacionais, organizações sociais e conservacionistas e filantropos argentinos e estrangeiros. A instituição reúne ativistas comprometidos com a recuperação dos ecossistemas naturais, respeitando o valor intrínseco de todas as espécies e o sonho de estabelecer modelos de desenvolvimento para as comunidades rurais em convivência com a natureza. 

Sobre o Documenta Pantanal 

O Documenta Pantanal é uma iniciativa que conecta profissionais de áreas diversas para defender o bioma e sensibilizar o público sobre suas urgências. Articulando cineastas, fotógrafos, artistas, ambientalistas, produtores, cientistas, juristas, representantes do governo e do terceiro setor, produz e apoia documentários, livros, campanhas e reportagens. Seus projetos denunciam os efeitos da mudança climática e da ação humana sobre o bioma, apontam soluções e geram recursos de proteção. 

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