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Solução para o entulho naval na Baía de Guanabara

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Roberto Anderson |

Um navio bateu na ponte Rio-Niterói e provocou uma interdição de três horas. As consequências poderiam ter sido bem mais graves

No último dia 14 de novembro, véspera de um feriado, quando aumenta muito o tráfego de veículos saindo da cidade, um navio abandonado na Baía de Guanabara bateu na ponte Rio-Niterói. O navio São Luiz foi arrastado por uma ventania um pouco acima do normal, após ter a corrente que o ligava à âncora rompida. Sem motores que lhe dessem autonomia, e sem que os dois vigias mal pagos conseguissem acionar a âncora de emergência, que estava travada, o navio seguiu à deriva até encontrar a mureta e os pilares da ponte. Um desastre, que provocou a sua interdição por três horas, já previsto em documentos sobre o estado de abandono do navio. As consequências poderiam ter sido bem mais graves. 

O absurdo é que sabemos, e vemos, que, além de todo o lixo e esgoto que recebe diariamente, a Baía de Guanabara vem sendo usada como depósito de navios abandonados, verdadeiras carcaças flutuantes. Alguns acabam naufragando, espalhando óleo e poluentes, e são graves obstáculos à navegação e à pesca. Nossa baía vem sendo tratada como lixeira naval. Procurados pelos meios de comunicação para dar explicações, órgãos, como o Ibama e o Inea tentaram empurrar suas responsabilidades para outros, enquanto a Marinha se negou a responder. 

Um mapeamento recente feito pela UFF, em parceria com a Prefeitura de Niterói e a Fundação Euclydes da Cunha, encontrou cerca de 60 embarcações no Canal de São Lourenço, no litoral daquele município. Mas há também um grande número de embarcações, de diversos tamanhos, abandonadas no meio da Baía de Guanabara, como o São Luís. Mais recentemente, para realizar uma matéria sobre esse problema, a reportagem do jornal O Globo encontrou 90 embarcações abandonadas na baía. Entre elas, dois navios cipriotas e um indiano abandonados no Caju. Mas esse número pode ser bem maior, já que estudo do ano passado do Cluster Tecnológico Naval do Rio de Janeiro encontrou o impressionante número de 250 embarcações fantasmas.   

Segundo o Movimento Baía Viva, nunca foi feito um inventário do número de embarcações que estão afundadas na Baía de Guanabara. E elas são muitas e podem trazer riscos à navegação. A impressão que se tem é que é um problema quase impossível de ser resolvido. 

Mas, nem sempre foi assim. O Deputado Estadual Carlos Minc, que em 2012 e 2013 esteve à frente da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, informou que, àquela época, foi possível encontrar uma forma bastante eficiente de lidar com o problema. Segundo o Deputado, a ação envolveu o Inea, a Capitania dos Portos, o Ministério da Pesca, e a Prefeitura de Niterói, em cujo litoral se concentram muitas dessas embarcações. Para mover as carcaças abandonadas, foram utilizados grandes guindastes fornecidos pelos estaleiros situados na Baía de Guanabara. 

Nessa ação foram levantados mais de 200 barcos encalhados ou afundados e foram retiradas mais de 60 embarcações da Baía de Guanabara. Um detalhe interessante foi a adesão da siderúrgica Gerdau, que passou a comprar os metais resultantes dessa coleta, propiciando o custeio parcial do projeto. 

Nossa baía é um bem natural compartilhado por diversos municípios, que faz parte das nossas mais belas paisagens. Apreciamos sua beleza a partir de suas margens não muito limpas, ou ao atravessá-la pela ponte ou pelas barcas. Alguns privilegiados nela velejam, e muitos pescadores ainda tentam dali tirar o seu sustento, apesar do lixo flutuante. Nela, a duras penas, ainda resiste um grupo de aproximadamente 30 golfinhos, além de tartarugas marinhas e peixes, cada vez menos numerosos. Ao tomarmos consciência de mais esse gigantesco problema que ameaça a Baía de Guanabara, precisamos exigir que, novamente, soluções sejam buscadas para se retirar da frente mais esse entulho que afeta nossas vidas. 

Sobre o autor

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

* originalmente publicada no diário do Rio

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