Exposição “Mata Viva” é prorrogada no Rio e transforma o CRAB em uma imersão inédita pelos biomas brasileiros
Mostra reúne 259 obras de 64 artistas de todo o país e propõe uma experiência sensorial que conecta arte popular, território e crise ambiental
“A biodiversidade é a inteligência da floresta. Cada
planta, cada bicho, cada rio tem um papel. Destruir isso
é destruir uma sabedoria que leva milênios”
Ailton Krenak
“Estamos apreensivos, para além de nossa própria vida,
com a da terra inteira, que corre risco de entrar em caos.
Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela
queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo
disso quanto nós”
Davi Kopenawa

Em um momento em que o Brasil enfrenta o avanço das queimadas e eventos climáticos extremos, a exposição Mata Viva ganha novo fôlego e ainda mais relevância: a mostra foi prorrogada até 13 de junho no CRAB – Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro e se consolida como uma das experiências expositivas mais impactantes em cartaz no país.
Mais do que uma exposição, Mata Viva propõe uma travessia sensorial pelos biomas brasileiros — da Amazônia à Mata Atlântica, passando pelo Cerrado, Caatinga e Pantanal — reunindo 259 obras de 64 artistas de 24 estados. É um panorama amplo e potente da arte popular brasileira, apresentado aqui como linguagem contemporânea, viva e profundamente conectada ao território.
Com curadoria de Jair de Souza e Jorge Mendes, a mostra articula estética, memória e urgência ambiental, transformando o fazer artesanal em narrativa crítica sobre o presente e o futuro.

Uma exposição que começa pelo fim — e recomeça pela vida
O percurso expositivo se inicia de forma contundente: o visitante é imerso no som e nas imagens de um incêndio florestal, em uma experiência que traduz, de maneira sensorial, a devastação dos biomas brasileiros. Nesse cenário, a presença silenciosa de uma onça observa o colapso — metáfora direta de um ecossistema ameaçado.
Em seguida, a exposição propõe uma virada simbólica. A vida ressurge na figura de uma criança indígena celebrando o Kuarup, ritual ancestral do Alto Xingu que marca o fim do luto e afirma a continuidade. A partir desse ponto, Mata Viva se desdobra como um percurso entre destruição e regeneração, memória e permanência.

Arte popular como linguagem contemporânea e política
Ao longo das galerias, a mostra reposiciona a arte popular brasileira no centro do debate artístico contemporâneo. Longe de uma leitura folclórica, as obras revelam artistas que operam com sofisticação estética e densidade simbólica, transformando matéria em linguagem e experiência em narrativa.
Feitas de madeira, argila, fibras, sementes e tecidos, as peças não apenas representam a natureza — elas nascem dela. Cada obra carrega modos de vida, saberes ancestrais e histórias transmitidas entre gerações, afirmando a arte como território de memória, identidade e invenção.
Cenografia inédita: uma exposição feita à mão
Um dos aspectos mais impactantes de Mata Viva é sua cenografia integralmente construída de forma artesanal. O espaço expositivo foi transformado em um ambiente orgânico e imersivo, com dezenas de árvores erguidas manualmente e cerca de 2.000 m² de paredes e pisos pintados à mão, criando uma atmosfera que envolve o visitante por completo.
A esse cenário se somam intervenções realizadas por artistas e artesãos ligados às escolas de samba do Rio de Janeiro, aproximando diferentes tradições do fazer manual e ampliando a dimensão coletiva da mostra. O resultado é uma experiência rara: não há separação entre obra e espaço — a exposição deixa de ser apenas um lugar onde a arte é exibida para se tornar, ela própria, uma grande obra viva.
O Projeto cenográfico criado por Jair de Souza foi executado de forma única pela equipe de artistas dirigidos por Leandro Assis. Equipe responsável pelas alegorias de cinco grandes Escolas de Samba do Rio esse ano, entre elas a Viradouro campeã.
Esse projeto dos cinco biomas foi executado num grande barracão em Bangu durante três meses de intenso trabalho na criação de esculturas e pinturas com muitas experimentações visuais

Um alerta ambiental que atravessa a experiência
Ao longo do percurso, pensamentos de lideranças indígenas como Ailton Krenak e Davi Kopenawa reforçam o eixo central da mostra: a crise ambiental não é uma ameaça distante, mas uma realidade em curso.
Mata Viva se configura, assim, como uma “exposição-resistência”, que articula arte, natureza e consciência coletiva, propondo ao público não apenas contemplação, mas reflexão e posicionamento.
Uma pauta urgente, visual e necessária
A prorrogação de Mata Viva reposiciona a exposição no radar em um momento estratégico, oferecendo um novo gancho de atualidade para um tema que permanece central no debate público. Em meio às discussões sobre crise climática e preservação ambiental, a mostra apresenta uma abordagem sensível e acessível, capaz de ampliar o alcance desse debate por meio da arte.
Ao reunir artistas de 24 estados, a exposição constrói um retrato diverso e pouco visto do Brasil, ao mesmo tempo em que reposiciona a arte popular como produção contemporânea de alta potência estética e conceitual. Sua força imagética — marcada por uma cenografia imersiva e por uma narrativa que atravessa destruição, renascimento e resistência —altamente atrativo aos olhos do espectador
Mais do que uma exposição, Mata Viva se apresenta como uma narrativa sobre o Brasil de hoje, conectando território, cultura e futuro em uma experiência que impacta tanto pela beleza quanto pela urgência.


