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Petrobras tem potencial para ser líder em transição energética se abraçar esse objetivo, aponta relatório

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Por Peri Dias | Jornalista Ambiental

Empresa está em posição privilegiada em relação a seus pares em outros países, mas precisa fazer muito mais para concretizar oportunidade de liderança global

Em um grupo de 33 das principais empresas petrolíferas nacionais (NOCs na sigla em inglês) de todo o mundo, a Petrobras encontra-se entre as sete companhias em melhores condições para liderar a transição energética global. Para concretizar essa oportunidade de liderança, porém, precisa abraçar uma política substantiva de afastamento dos combustíveis fósseis e investimento em energias renováveis e eletrificação.

Essa é uma das principais conclusões do relatório “Roteiros para transições equitativas de empresas petrolíferas nacionais”, lançado no Brasil em 27 de maio. De autoria do pesquisador Adrián Correa-Florez, professor da Universidad Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, e ex-diretor da Unidade de Planejamento de Mineração e Energia da Colômbia (órgão semelhante à Aneel), o estudo contou com aportes de organizações da sociedade civil em diversos países. No Brasil, participaram Observatório do Clima e WWF Brasil.

O termo NOCs refere-se a empresas petrolíferas que têm os governos dos países onde estão sediadas como seu principal acionista – ou em alguns casos, como único acionista. Para o relatório, Correa-Florez analisou dados sobre a situação financeira e operacional dessas companhias e o papel que desempenham na economia de seus países-sede, fatores-chave para indicar a capacidade dessas empresas de se engajar efetivamente na transição energética.

A análise permitiu ao pesquisador realizar uma tipologia inédita das empresas petrolíferas nacionais, agrupando-as em cinco perfis:

a) Grandes produtoras com alta exposição a risco
b) Empresas financeiramente abatidas
c) Companhias de baixa dependência fiscal e alta exposição a riscos energéticos
d) As grandes produtoras de baixo custo
e) As potenciais líderes 

A Petrobras classificou-se para o grupo “e”, o das potenciais líderes, em conjunto com outras seis empresas: Ecopetrol (Colômbia), ENI (Itália), Equinor (Noruega), Petronas (Malásia), PTT (Tailândia) e YPF (Argentina). Companhias desse grupo caracterizam-se por estar melhor posicionadas do que a maioria dos seus pares para a transição, apresentar alguns compromissos climáticos e uma governança mais robusta do que a média, mas ainda ter sua operação perigosamente concentrada em combustíveis fósseis.

“Ser uma líder em potencial não significa necessariamente que a empresa já está fazendo muito mais do que as outras pela transição, mas sim que suas condições de operação e o cenário econômico e político em seus países são mais favoráveis para que a empresa embarque em um processo consistente de transição e colha os benefícios de sair na frente”, afirma Correa-Florez.

Caminhos para a Petrobras liderar

O objetivo de agrupar as companhias em cinco perfis, no relatório, é facilitar a apresentação de sugestões para que as empresas, de acordo com seu perfil, avancem no processo de deixar para trás os combustíveis fósseis. Assim como diversos governos nacionais estão começando a desenvolver seus mapas do caminho (roadmaps) para um processo de descarbonização das economias, o relatório convida as empresas petrolíferas nacionais a também construírem seus planos de transição e, com isso,  contribuírem para evitar que a crise climática global se agrave.

Entre os caminhos apresentados para as empresas do grupo “e”, o da Petrobras, estão deixar de investir em novos projetos de combustíveis fósseis, para redirecionar os recursos para as energias renováveis e a eletrificação, e reduzir a discrepância entre as promessas climáticas e a alocação do capital da companhia.

“A Petrobras tem uma oportunidade enorme este ano de se abrir ao debate com a sociedade e definir um plano de transição consistente, que beneficie os acionistas e o Brasil como um todo. Não faz sentido operar na lógica do fim da feira, tentando aproveitar os últimos suspiros de um modelo antigo, quando a empresa pode dar um salto estratégico e realmente liderar o novo modelo”, afirma Suely Araújo, especialista em políticas públicas do Observatório do Clima.

Momento favorável para o debate

O relatório vem a público em meio a um cenário de profunda transformação no setor energético. A instabilidade nos mercados de petróleo e gás por causa da guerra no Oriente Médio está levando diversos países, especialmente na Ásia e na Europa, a buscar fontes de energia menos sensíveis às instabilidades geopolíticas.

No Brasil, o governo anunciou recentemente um pacote de medidas para diminuir o impacto da alta no preço do petróleo, que pode custar 31 bilhões de reais aos cofres públicos, ao mesmo tempo em que a Petrobras registra lucros extraordinários, também na casa dos bilhões.

Simultaneamente, o debate sobre a transição energética global registrou em abril um avanço importante, com a realização da Primeira Conferência Internacional para a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, realizada em Santa Marta, na Colômbia. Governos de mais de 50 países participaram de discussões sobre caminhos para a eliminação gradual do petróleo e gás e sua substituição por energias renováveis.

A conferência emitiu um sinal político importante de que existe apetite por um processo coordenado de transição e ofereceu subsídios úteis para que medidas pelo fim dos combustíveis fósseis sejam adotadas no âmbito das discussões multilaterais sobre o clima na ONU.

“É importante que conversas de alto nível sobre a transição energética, como as que ocorreram em Santa Marta e as que farão parte da COP31, passem a incorporar o debate sobre o papel das empresas petrolíferas nacionais na descarbonização da economia e como os países ricos podem apoiar esse processo nos países mais vulneráveis”, afirma Ricardo Fujii, especialista em transição energética do WWF Brasil.

NOCs controlam mais da metade de produção global

As empresas petrolíferas nacionais podem ter um papel fundamental em uma transição energética ordenada e justa, já que elas controlam 55% da produção global de petróleo e gás e dois terços das reservas conhecidas. Porém, elas ainda não começaram a cumprir seu papel: um relatório publicado em 2023 por organizações da sociedade civil analisou 40 NOCs e concluiu que nenhuma delas tinha um plano de transição viável. ONGs do setor avaliam que o cenário permanece o mesmo em 2026.Para as próprias empresas, realizar essa mudança de rota é uma questão de sobrevivência. Juntas, elas estão investindo US$ 425 bilhões em projetos que só se pagarão se o mundo não implementar as políticas necessárias para conter a crise climática. Em cenários moderados de transição energética, as perdas do setor podem chegar a US$ 8 trilhões até 2040.

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