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Soberania digital para quem? O risco de o Redata subsidiar Data Centers no Brasil

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Regime especial promete atrair data centers e fortalecer a infraestrutura digital do país, mas pode transformar renúncia fiscal, energia renovável e território brasileiro em vantagem competitiva para grandes plataformas estrangeiras

por Tara Ayuk | ECO21 

A promessa de uma infraestrutura digital brasileira

O Redata nasceu embalado por uma promessa difícil de contestar: ampliar a infraestrutura digital brasileira, reduzir a dependência externa no processamento de dados e posicionar o país na corrida global da inteligência artificial.

Em tese, trata-se de uma política industrial voltada a um setor estratégico. Na prática, porém, seu desenho levanta uma pergunta incômoda: soberania digital para quem?

Ao suspender tributos sobre equipamentos de tecnologia da informação e comunicação usados em data centers, o programa reduz o custo de instalação de empreendimentos altamente intensivos em capital. O argumento oficial é que o Brasil precisa atrair investimentos, processar mais dados em território nacional e aproveitar sua matriz elétrica renovável para disputar espaço em uma economia cada vez mais dependente de nuvem, inteligência artificial e infraestrutura computacional.

Mas o risco está justamente na assimetria entre o que o país oferece e o que exige em troca.

Incentivos públicos, ganhos privados

O Redata prevê incentivos fiscais sobre servidores, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede, refrigeração e outros bens usados na implantação, ampliação e modernização de data centers. No caso de equipamentos sem similar nacional, há também previsão de suspensão do imposto de importação.

Em contrapartida, as empresas beneficiadas devem investir parte do valor em pesquisa, desenvolvimento e inovação, reservar uma fração da capacidade ao mercado interno e cumprir critérios de sustentabilidade.

À primeira vista, o modelo parece equilibrado. Mas os percentuais revelam outra história.

As empresas precisam aplicar 2% do valor dos produtos adquiridos em projetos de pesquisa e desenvolvimento. Também devem reservar ao menos 10% da capacidade de processamento, armazenamento e tratamento de dados para o mercado nacional. Para empreendimentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, essas obrigações podem ser reduzidas em 20%.

Ou seja: o Brasil pode abrir mão de arrecadação, oferecer energia limpa, território, infraestrutura e estabilidade institucional, enquanto a maior parte da capacidade instalada permanece livre para atender interesses privados, inclusive de clientes estrangeiros.

A conta pública entra pela porta da frente. A soberania, porém, pode sair pela porta dos fundos.

Quem captura o valor da economia digital?

O governo reservou R$ 5,2 bilhões no Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2026 para o Redata e fala em potencial de atração de R$ 2 trilhões em investimentos em dez anos. O número impressiona. Mas, em políticas de incentivo, a pergunta decisiva não é apenas quanto entra. É quem captura o valor gerado.

No caso dos data centers, essa pergunta é ainda mais sensível porque a cadeia global da inteligência artificial é concentrada. Os principais modelos, plataformas, sistemas de nuvem, semicondutores avançados e mercados de dados estão nas mãos de poucas corporações transnacionais.

O Brasil pode se tornar destino de cabos, servidores e galpões tecnológicos sem necessariamente dominar os algoritmos, os modelos de IA, os dados estratégicos ou os lucros principais da economia digital.

É nesse ponto que o Redata deixa de ser apenas uma política tributária e passa a tocar um tema de soberania. O país quer ser protagonista da economia digital ou apenas hospedar fisicamente parte de sua infraestrutura?

O risco dos enclaves digitais

A questão não é rejeitar data centers, nem negar sua importância. Hospedar dados no Brasil pode reduzir dependências externas, melhorar latência, fortalecer serviços públicos digitais, criar empregos especializados e ampliar a capacidade nacional de processamento.

Mas esses benefícios não são automáticos. Dependem de contrapartidas duras, mensuráveis e transparentes.

Sem elas, o país corre o risco de financiar uma cadeia produtiva em que sua função será fornecer energia, solo, água, conectividade, licenças e incentivos fiscais, enquanto a propriedade dos dados, dos modelos de inteligência artificial, das plataformas e da renda tecnológica continuará concentrada fora do território nacional.

Nesse cenário, o Redata se aproxima menos de uma política de soberania digital e mais de uma política de atração de enclaves digitais.

O caso do Ceará e a escala do problema

O caso do Ceará ajuda a dimensionar a escala do problema. Reportagens da Reuters apontaram que um projeto no complexo do Pecém, associado à Omnia, Casa dos Ventos e ao TikTok como cliente, pode envolver R$ 50 bilhões em investimentos e exigir centenas de megawatts de energia.

A maior parte do investimento estaria ligada a equipamentos de tecnologia, justamente o tipo de item que o Redata busca desonerar.

Esse tipo de empreendimento coloca o Brasil diante de um dilema. Se a energia renovável brasileira é uma vantagem competitiva, ela deve servir prioritariamente à reindustrialização, à inclusão digital, à pesquisa pública e ao desenvolvimento tecnológico nacional ou então pode ser capturada por grandes plataformas globais para baratear sua própria expansão computacional?

Energia limpa não elimina impactos

O debate ambiental também não pode ser tratado como detalhe técnico. Data centers consomem grandes volumes de eletricidade e, dependendo da tecnologia de resfriamento, também demandam água.

A Brasscom argumenta que o consumo hídrico do setor no Brasil é proporcionalmente baixo e que novas tecnologias reduzem o impacto. Ainda assim, seus próprios dados apontam crescimento relevante da participação dos data centers no consumo elétrico nacional, de 1,7% em 2024 para uma projeção de 3,6% em 2029.

Em um país marcado por desigualdades regionais, pressão sobre sistemas elétricos locais e conflitos socioambientais, não basta exigir “energia limpa” em termos genéricos.

É preciso saber de onde virá essa energia, quem pagará pela infraestrutura de transmissão, quais comunidades serão afetadas, quais bacias hidrográficas serão pressionadas e se os dados de consumo serão públicos, auditáveis e comparáveis.

A zona cinzenta da transparência

Organizações como Idec, LAPIN, IP.rec e Data Privacy Brasil chamaram atenção para esse ponto: o Redata delega parte relevante dos critérios ambientais a regulamentações futuras e não garante, de forma suficientemente robusta, mecanismos permanentes de transparência pública.

Isso cria uma zona cinzenta perigosa.

Uma política que concede benefício fiscal bilionário não pode depender apenas de fiscalização interna do Estado ou de relatórios empresariais sem pleno escrutínio social.

Se o setor quer ser tratado como estratégico, precisa aceitar obrigações compatíveis com sua escala econômica, seu impacto territorial e seu papel na nova geopolítica da inteligência artificial.

A tramitação parada pode ser oportunidade

O problema é agravado pela tramitação instável. A Medida Provisória que criou o Redata perdeu validade em fevereiro de 2026, e a continuidade da proposta passou a depender do PL 278/2026.

O projeto foi aprovado pela Câmara, mas seguiu pendente no Senado. A indefinição é frequentemente apresentada como ameaça aos investimentos. Mas há outra leitura possível: a demora também abre espaço para uma revisão mais profunda das contrapartidas.

Se o país vai conceder incentivos a um setor estratégico, precisa exigir mais do que promessas de modernização.

Um Redata compatível com o interesse público deveria prever maior destinação de capacidade ao mercado interno e ao setor público, transparência anual obrigatória sobre consumo de energia e água, consulta a comunidades afetadas, metas de conteúdo tecnológico nacional, estímulo real à pesquisa pública, parcerias com universidades, cláusulas de devolução de benefícios em caso de descumprimento e critérios rígidos para evitar concentração de ganhos em empresas estrangeiras.

Data centers não podem ser um fim em si mesmos

Também seria necessário vincular os incentivos a uma estratégia industrial mais ampla. Data centers não podem ser tratados como fim em si mesmos.

Eles devem estar conectados à formação de mão de obra, ao desenvolvimento de semicondutores, à segurança cibernética, à proteção de dados, à inteligência artificial pública, à ciência nacional e à redução das desigualdades digitais.

Sem essa articulação, o Brasil corre o risco de hospedar a infraestrutura física da economia digital sem participar de sua cadeia mais valiosa.

Uma escolha política, ambiental e neocolonialista

A pergunta que o Redata coloca ao Brasil não é apenas econômica. É política, ambiental e civilizatória.

A infraestrutura digital será um instrumento de desenvolvimento nacional ou mais uma camada de dependência tecnológica? A energia renovável brasileira servirá para ampliar autonomia ou para subsidiar a expansão de plataformas globais? O território nacional será base de inovação ou apenas espaço físico para processamento de dados alheios?

O Brasil tem razões para disputar a economia digital. Mas não pode fazê-lo de joelhos.

Se a inteligência artificial será uma das infraestruturas decisivas do século XXI, a política pública que a sustenta precisa ser construída com transparência, soberania e retorno social verificável.

Sem isso, o Redata corre o risco de transformar uma promessa de independência digital em uma nova forma de dependência: mais limpa no discurso, mais sofisticada na tecnologia, mas ainda marcada pela velha lógica de exportar recursos estratégicos e importar valor agregado. 

A pergunta decisiva não é se o Brasil terá data centers, mas se terá controle sobre a riqueza, os dados e o futuro que eles ajudam a construir.

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