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Soluções ecológicas para o Rio Grande do Sul

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Nossa missão é semear informação ambiental de qualidade.

* Por Virgilio Viana

A catástrofe climática do Rio Grande do Sul coloca na ordem do dia o debate sobre como deve ser feita a recuperação de áreas atingidas por eventos climáticos extremos. Deve ser feita a reconstrução nos moldes do que existia antes? Quais mudanças são necessárias e como isso deve ser feito?

Responder essas questões é essencial para todos: governos federal, estadual e municipais, empresas, produtores rurais, famílias e cada pessoa, individualmente; pessoas jovens e adultas. Se não houver clareza nessas respostas e se elas não estiverem baseadas em ciência, haverá grande risco de desperdiçar boa parte dos bilhões de reais que devem ser mobilizados para essa gigantesca tarefa de reconstrução.

O ponto de partida para formular essas respostas é científico. Os eventos climáticos
extremos estão aumentando de escala e frequência em todo o mundo. Não há mais
nenhum milímetro de dúvida. É essencial que os apóstolos do negacionismo climático
sejam devidamente encaminhados ao ostracismo.

Hoje, vemos a situação das enchentes no Rio Grande do Sul, mas há pouco menos de um ano estávamos passando pelos efeitos das mudanças climáticas na Amazônia, com a pior seca já registrada na história. Infelizmente, as projeções cientificas apontam que, neste ano, a estiagem dos rios no Amazonas deve acontecer de forma semelhante em proporção ao que ocorreu em 2023. Quanto mais longa e intensa é a estação seca, mais frequentes e grandes tornam-se as queimadas. Isso contribui para o aquecimento global e regional, criando um efeito dominó que tende a tornar esse problema cada vez mais grave.

Há muitos anos os pesquisadores do clima publicam trabalhos científicos mostrando que o sul do Brasil está cada vez mais sujeito a fenômenos climáticos extremos como inundações, tornados, secas etc. Portanto, a primeira resposta é que não podemos pensar em uma reconstrução nos moldes do que existia antes.

São necessárias mudanças em todos os segmentos, algumas mais radicais e outras menos. No que diz respeito às inundações, o caminho é claro: é necessário retardar a sua chegada aos arroios, rios e lagoas. É necessária uma gestão que considere a geografia das bacias hidrográficas. Pouco adianta um município fazer a sua parte se o município rio acima não cuidar bem das suas águas.

Cuidar bem das águas significa, em primeiro lugar, aumentar a infiltração da água no
solo. Isso deve ser feito tanto em áreas urbanas quanto rurais. Nas áreas urbanas deve ser diminuída a impermeabilização do solo, o que implica em revisar os planos diretores de todas as cidades. Devem ser incentivadas a captação e o armazenamento de água de chuva em todas as construções: residenciais, comerciais e industriais.

As áreas verdes devem ser ampliadas ao máximo: elas possuem o papel de armazenar e liberar água lentamente. Essas áreas devem incluir aquelas que não devem mais ser ocupadas por residências e negócios, que devem ser realocados para locais menos vulneráveis aos eventos climáticos extremos. No interior dessas áreas verdes pode haver lagoas com capacidade de armazenar excedentes de água e, ao mesmo tempo, funcionar como espaços de lazer, com implicações para a melhoria do bem-estar e da saúde pública da população. Está cientificamente comprovado que áreas verdes promovem o bem-estar humano e, portanto, representam também uma economia para o sistema público de saúde.

Nas áreas rurais, é necessária uma profunda mudança nos sistemas de uso do solo. As áreas de preservação permanente – que fazem parte do Código Florestal – devem ser rapidamente recuperadas. Com isso as margens dos arroios, rios e lagoas vão ganhar uma cobertura florestal e essas florestas passarão a desempenhar o papel de esponjas. Esse conceito de esponja vem sendo largamente utilizado na China e em outros países do Oriente. O resultado dessa prática é a redução da velocidade com que a água chega aos rios. Além disso, as florestas recarregam os aquíferos subterrâneos, que abastecem os poços artesianos em períodos secos. Por outro lado, os sistemas de produção agropecuária devem passar por uma modernização guiada por princípios ecológicos cientificamente comprovados. Quanto mais matéria orgânica no solo e árvores dentro dos sistemas agropecuários, maior é a retenção de água. Além disso, as plantas e animais ficam mais saudáveis e demandam menor uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos. Isso significa maior rentabilidade para produtores rurais e menos poluição para o restante da sociedade.

Essas soluções baseadas na natureza vêm sendo descritas pela ciência como as que oferecem melhor relação custo-benefício. Soluções de engenharia civil são necessárias, mas sozinhas não conseguirão resolver o problema. O foco principal dos investimentos deve ser nas soluções baseadas na natureza. Em evento que aconteceu neste mês de maio organizado pelas Academias de Ciências e Ciências Sociais do Vaticano, houve um consenso científico sobre este tema. O Papa Francisco, em sua mensagem aos participantes do evento, destacou a importância das soluções baseadas na natureza e a necessidade de uma atenção especial para os pobres, que estão entre as populações mais vulneráveis.

O que nos leva ao tema da injustiça climática. As enchentes no Rio Grande do Sul e a estiagem severa na Amazônia, em 2023, são dois exemplos recentes desse fenômeno dos nossos tempos, ligado aos extremos da crise climática. As pessoas que menos contribuíram para essas mudanças, são as que mais estão sofrendo no momento, então eles que não são parte do problema, hoje são desproporcionalmente impactadas por esse mesmo problema, devido à situação de vulnerabilidade social em que já se encontram. Pessoas com poucos recursos financeiros, que não podem garantir residências seguras e sustentáveis e vivem em áreas de risco, estão entre as primeiras atingidas por secas e cheias, entre outras intempéries, perpetuando esse ciclo de desigualdades.

Infelizmente, os eventos climáticos estão aumentando de magnitude e frequência em todo o Brasil e em todo o mundo. É urgente repensar e guiar os orçamentos públicos e os investimentos privados com base na ciência. Os custos das tragédias climáticas são muito maiores do que os da adaptação. Temos todos que aprender com as tristes lições do Rio Grande do Sul e impulsionar um urgente processo de transformação ecológica da sociedade. A boa notícia é que isso pode gerar empregos, criar novas oportunidades de negócios e melhorar a saúde da população. Cuidar da natureza é o caminho mais inteligente que temos.

* Engenheiro Florestal, Ph.D. pela Universidade de Harvard, Membro da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, Professor da Fundação Dom Cabral e Superintendente Geral da Fundação Amazônia Sustentável.

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