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O valor terapêutico do canto das aves

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Arthur Soffiati |

Um estudo publicado na revista Scientific Reports demonstrou que o canto das aves faz bem para a saúde mental humana. Enquanto os ruídos da cidade excitam, irritam e causam insônia, o canto das aves acalma e reduz estados paranóicos. A mim, tal conclusão é como chover no molhado. Quando vim morar em Campos, em 1970, havia mais aves cantando na cidade do que hoje. Lembro com saudade o canto dos irerês voando em bando à noite. Agora, eles sumiram. Aliás, parece que os bem-te-vis expulsaram todas as aves da cidade, até mesmo os urubus. 

Minha vivência com aves é antiga. Há uma significativa diferença entre ave e pássaro. Todo animal com o corpo coberto de penas e que bota ovo é ave, mas nem toda ave é pássaro. A ema, a galinha e tantas outras são aves. O canário também. Mas há um grupo entre as aves denominado passeriforme. Ele inclui os pássaros, aves que costumam apresentar penas coloridas e canto atraente, embora isso não seja regra. Mas a maioria das pessoas usa ave e pássaro indistintamente.

O final da minha infância e minha adolescência foram vividos no subúrbio carioca de Padre Miguel e arredores. Morei lá entre 1957 e 1967. Nesses dez anos, convivi muito com aves. Era muito comum aprisioná-las em gaiola para apreciar sua beleza física e seu canto. Era o preço pago pelo animal por ter nascido com uma cobertura corporal e uma voz consideradas belas. Meu avô paterno criava canários roller, mas essa espécie não existia na natureza. Era um produto de gaiola. A qualidade de seu canto era aferido em concursos. Meu avô era um dos campeões.

Nos subúrbios cariocas, o pássaro mais popular para a gaiola era o coleiro. Havia ainda, na década em que lá vivi, muitos terrenos baldios frequentados por pássaros canoros. Os coleiros eram implacavelmente perseguidos e escravizados para que cantassem. Havia tiziu e sanhaço, também aprisionados mas não tão apreciados. Depois do coleiro, o pássaro mais cobiçado era o canário-da-terra. Rolinha não era ave de gaiola, mas sofria a perseguição das atiradeiras.

Onde eu mais me deleitava com as aves era no sítio de meu tio Milton, na zona rural de Campo Grande, também subúrbio do Rio de Janeiro. Não direi que, lá, os pássaros não eram perseguidos. Contudo, eles contavam com a vantagem de áreas livres para fugir. Eu me sentia envolvido por uma atmosfera mágica quando um coleiro, a meu lado, cantava sobre uma simples haste de capim; quando um tiziu cantava e dava cambalhota. E havia um mundo de aves. Eu era cercado por pardais, cambaxirras, tico-ticos, rolinhas, sanhaços, bico-de-lacre, avinhado, azulão, tiê-sangue e tiê-preto, anu banco e preto, araponga, xexéu, sabiás, periquitos, papagaios e aves grandes. Meu canto predileto, das grandes aves, era e continua sendo o do irerê. Um canto noturno, triste e, ao mesmo tempo, alegre. Tenho saudade desse Brasil povoado de aves silvestres cantando livres.

Ouça o álbum Ecomúsica | Aves de Fábio Caramuru

Não posso me orgulhar de ser brasileiro pela diversidade de suas aves. Elas vivem em todo o mundo. Há algum tempo, adquiri um CD intitulado “EcoMúsica – Aves”, de Fábio Caramuru. Ele se vale do canto de aves japonesas para criar sons de piano como acompanhamento. São sons etéreos, impressionistas, muito semelhantes entre si. O canto das aves é maravilhoso. Elas não precisam de acompanhamento. Cada canto é como um timbre. O arranjo de notas funciona como carteira de identidade de cada espécie. Bastaria gravar os cantos de diversas espécies dispersas pelo mundo para nosso deleite. Estamos chegando a um ponto da história da humanidade em que as aves estarão em gaiolas, em zoológicos ou extintas. Teremos perdido um grande presente da natureza.

Na região norte-noroeste fluminense, havia grande diversidade de aves. Manoel Martins do Couto Reis chegou a criar uma tipologia para classificá-las, no final do século XVIII. E condenou a perseguição que a população de Campos lhes movia. José Alexandre Teixeira de Mello escreveu página memorável no final do século XIX: “Uma vez, descia eu de madrugada, em canoa, pelo Muriaé, com minha família. Ao passarmos pela fazenda da viscondessa de Muriaé, eu, que adormecera à toada monótona dos remos na canoa, desperto de repente e assisto a um espetáculo original e único de que fora testemunha em minha vida: na baixada cortada pelo rio, em uma e outra margem, creio que todas as aves canoras da região se haviam congregado para comemorarem talvez alguma data gloriosa ou triste entre elas, por um concerto vocal matutino, a que a tecnologia estrangeira denomina matinée musicale, era admirável a harmonia daquele conjunto de mil vozes, regidas por batuta invisível, tão maravilhosamente se combinavam os cantos em uma opera fantástica que nenhum Mayerbeer, nenhum Carlos Gomes, nenhum Wagner comporá jamais. Como que todas as aves canoras da região estavam ali representadas no que tinham de mais melodioso. Foi um espetáculo sublime que na ocasião nos pareceu sobrenatural, desvanecendo-se rápido como um sonho, mas deixou-me a mais grata e duradoura impressão”.

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