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A expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied: do Rio de Janeiro a Vitória (IV)

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Arthur Soffiati |

Voltando de São Fidélis para Campos, rumo a São João da Barra, o naturalista anotou que “O Paraíba (…) corre entre a serra dos Órgãos e a serra da Mantiqueira. O rio estava, então, na extrema vazante; mas na estação chuvosa, dezembro e janeiro, transborda e inunda grande extensão das margens.” Parece, então, que a bacia do Paraíba do Sul apresentava mais regularidade em suas cheias e estiagens, pois havia mais florestas e mais previsibilidade quanto às chuvas. Na volta pela margem esquerda do rio, antiga estrada Minas-Campos, a expedição encontra um fazendeiro com veleidades de naturalista, cujo sobrenome, Morais, foi anotado por Maximiliano. Esse homem dispensava bom tratamento aos índios. Como último registro digno de nota na viagem de retorno, ele escreve que “penetramos, em seguida, numa sombria e majestosa floresta, onde voejavam lindíssimas borboletas.”

            De fato, São Fidélis atendeu plenamente aos objetivos do naturalista, além de lhe proporcionar grande encantamento. Se voltasse lá nos dias de hoje, é de se crer que não reconheceria mais o lugar.

            A percepção de solo arenoso sob os pés dos integrantes da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied indica a presença da restinga. A caçada de animais até então não abatidos começa. Um deles é o jacaré-papo-amerelo. “… quando atingíamos a margem do rio, tivemos ocasião de experimentar um gênero de caça inteiramente novo para nós, a do jacaré, ou ‘alligator’ desses rincões (…) em todos os rios do Brasil, máxime nos de pouca correnteza, nos lugares pantanosos e nos remansos. Estes se reconhecem logo pela presença de plantas aquáticas de grandes folhas, tais como a “Nymphaea”, a “Pontederia” e outras, que emergem do fundo e estendem horizontalmente as folhas na superfície. Entre elas é que o jacaré deve ser procurado; aí o observador experimentado lhe descobre a cabeça, que, espreitando a presa, sai fora d’água. Também se encontram, por vezes, no meio dos rios, especialmente nos ribeirões quase estagnados, ou remansosos.”

Jacaré-de-papo-amarelo. “Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens”, de Maximiliano de Wied-Neuwied

            “Cobrem as margens do Paraíba bosques de umas árvores de dezoito a vinte pés de altura, de caule esguio e grandes folhas pubescentes e cordiformes (provavelmente um ‘Croton’), parenta muito próxima do ‘Tridesmys’ (‘Monoecia’).” O príncipe informa que os jacarés são caçados como alimento dos pobres e escravos. Embora seja temido e cercado de lendas, o jacaré não é tão perigoso na avaliação de Maximiliano, sempre marcada pela racionalidade europeia.

            No trajeto para São João da Barra, ele encontra exemplares de pitangueira e cajueiro. A praia se aproxima. Em São João da Barra, sua comitiva é hospedada na Casa de Câmara e Cadeia, único prédio com essas características que restou no norte/noroeste fluminense. “… a casa da Câmara, escreve ele, é um espaçoso edifício com ótimos quartos e um quintal plantado com laranjeiras e pés de goiaba, alguns dos quais em flor. São João da Barra é uma localidade que não se pode comparar a S. Salvador, pois que só temuma igreja, ruas sem calçamento, casas de um só andar, construídas de paus e barro. Mas, por outro lado o rio é navegável por navios de regular tamanho, brigues e sumacas, e tem comunicação imediata com o oceano. Todas as embarcações com destino a S. Salvador passam por esse lugar, embora o braço do rio próximo da vila seja raso, e o canal, propriamente, fique do outro lado de algumas ilhas. Os habitantes são, sobretudo, pescadores e marinheiros, cuja subsistência é garantida pelo comércio com S. Salvador, dos produtos da região.”

            O naturalista revela que, em 1815, o braço principal do delta do Paraíba do Sul, em Atafona, já era, por natureza, raso, sendo mais fácil chegar ao mar pelo braço de Gargaú. A expedição permaneceu dois dias em São João da Barra para preparar os animais caçados e partiu em direção ao norte. Para tanto, atravessou o rio Paraíba do Sul na foz. As ilhas, recobertas com linda vegetação, foram avistadas. “Uma malvácea, de doze a quinze pés de altura, flores grandes amarelo-pálidas e folhas cordiformes”, foi registrada. Trata-se da guaxuma.

            Anota em seu diário: “… atravessamos o segundo braço do rio, remando, então, por um pequeno canal, entre duas ilhas, cujas águas, ensombradas de todos os lados pelas florestas altaneiras, são quase estagnadas, motivo pelo qual cheias de jacarés.” Ele faz referência a raízes descobertas e arqueadas do “Conocarpus” e da “Avicennia”. O naturalista não tinha muita intimidade com o ecossistema manguezal, sempre avistando nele o “Conocarpus” e o confundindo com o mangue vermelho (“Rhizophora”).

            Sempre na companhia de seus colegas Freyreiss e Sellow, Maximiliano chega à fazenda Mandinga. “Na língua de terra saliente, onde o litoral suporta o mais violento embate da ressaca, encontram-se pedras perfuradas do modo mais extraordinário pela água.” Parece que a comitiva se encontra na altura de Manguinhos, onde o mar erodiu consideravelmente os tabuleiros.

            “Depois de termos caminhado algumas léguas por essa praia, uma picada levou-nos a algumas lagoas, rodeadas de eminências silvestres. Toda a nossa tropa estava com uma sede ardente; apeamos, por isso, para nos saciar, mas, com grande aborrecimento nosso, verificamos que as marés tornavam salobra a água dessas lagoas”. Provavelmente, ele se refere aos muitos córregos do atual município de São Francisco de Itabapoana, cuja água é salobra, levando seus moradores a abrir cacimbas. Daí a denominação de Sertão das Cacimbas para esta região.

            Mas a trilha para a Fazenda Muribeca, às margens do rio Itabapoana, afastava-se do litoral e conduzia para o interior de uma floresta cerrada: “Uma trilha, vindo da costa, cedo nos conduziu, através de espessos bosques, a uma grande floresta. Cavalgava adiante da tropa, observando as belas plantas, e pensando nos tapuias, que algumas vezes infestam essas paragens, quando, para meu pequeno espanto, vi de súbito, em frente de mim, dois homens escuros e nus. Tomei-os por selvagens no primeiro momento, e preparava a espingarda de dois canos para me defender de qualquer ataque, quando percebi que eram caçadores de lagartos. Os colonos, que vivem esparsos nessas solidões, gostam muito da carne da grande espécie de lagarto denominado ‘teiú’ na língua geral dos índios da costa. Por isso, partem muitas vezes, entre matagais e florestas, em busca desses animais, levando um par de cães treinados para esse fim. Quando os cães se aproximam do lagarto, este se lança com a rapidez de uma flecha para a toca subterrânea, que lhe serve de morada, donde é arrancado e morto pelos caçadores. Sendo grande o calor, esses homens, cuja pele do corpo inteira fica tão tisnada pelo sol que podem passar por tapuias, desnudam-se completamente. Carregavam machados e dois lagartos de mais ou menos quatro pés de comprimento, inclusive a longa cauda. Esses caçadores, que conheciam bem a região, asseguraram-nos que estaríamos, em menos de uma hora, na fazenda de Muribeca, onde pretendíamos passar a noite. Com efeito, em breve passávamos a cerca que lhe servia de limite.”

Caçadores brasileiros. O príncipe encontrou dois no sertão de São João da Barra caçando teiú. Desenho original de Maximiliano

            Antes de alcançar a fazenda, Maximiliano redige uma de suas belas, românticas e saudosas páginas: “Na escura e imponente mata virgem achamos bonitas plantas, e o soberbo ‘Convolvulus’ de flores azul-celeste enlaçava-se nos arbustos, até grande altura.  O pio forte e grave do ‘juó’, em três ou quatro notas, é ouvido, nessas matas imensas, em todas horas do dia e mesmo à meia noite.” Olivério Pinto, que comenta o livro, informa, em nota de rodapé, que Maximiliano foi o primeiro a descrever essa ave.

Lagarto teiú, muito apreciado como iguaria no Brasil. “Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens”, de Maximiliano de Wied-Neuwied

            “Depois de atravessada a floresta, encontramo-nos em extensas plantações recentes; de uma elevação, onde se viam troncos por terra.” Era a famosa Fazenda da Muribeca. Aí, “em todas as direções, divisamos um quadro encantador da majestosa solidão, às margens do Itabapoana, que, como fita de prata, vai coleando entre as selvas umbrosas, e corta uma planície verdejante, em cujo meio se localiza a grande fazenda de Muribeca, cercada de vastas plantações. Em todo o redor, florestas imensas limitam o horizonte.”

            A fazenda pertenceu aos jesuítas até sua expulsão do Império Colonial Português, por determinação do Marquês de Pombal, 1759. Quando da passagem de Maximiliano, em 1815, ela pertencia a quatro associados e contava com 300 escravos. O príncipe anota: “O trabalho é bastante árduo para os escravos; consiste principalmente em derrubar as matas. Plantam-se mandioca, milho, algodão e um pouco de café.”

            A grande ameaça a rondar a área, segundo seus habitantes, ainda eram os índios puris. Maximiliano observa que “As grandes florestas das cercanias de Muribeca são habitadas por Puris nômades, que, nessas paragens e na extensão de um dia de jornada para o norte, se mantêm hostis.” Em agosto daquele ano, eles “… atacaram os rebanhos da fazenda, à margem do Itabapoana e mataram, de maldade, trinta bois e um cavalo. Um rapazote negro, que tomava conta do gado, foi isolado dos companheiros armados, feito prisioneiro, morto, e, segundo afirmam, assado e devorado. Acham que eles separaram os braços, as pernas e a carne do tronco, levando-os consigo; porque, pouco depois, encontraram no local a cabeça e o tronco descarnado do negrinho; porém os selvagens tinham-se internado precipitadamente pela mata. Reconheceram-se, também, as mãos e os pés, assados e roídos, e dizem que até se viam as marcas dos dentes.”

            Antes de atravessarem o Itabapoana para continuar a viagem, Maximiliano relata que, “Num passeio rio acima, os Srs. Freyreiss e Sellow se divertiram com o espetáculo de um grande bando de lontras, caçando na água, adiante deles, sem o menor sinal de alarma. A lontra brasileira difere da dos nossos rios europeus, principalmente por ter o rabo um pouco achatado; caráter este inexistente nos espécimes empalhados e, por isso, esquecido nas obras de história natural. O pelo é muito macio e bonito. Nos rios principais do interior do Brasil, no S. Francisco, por exemplo, atinge tamanho prodigioso: é aí denominada de ‘ariranha’…” Em nota de rodapé, Olivério Pinto conclui que, pela descrição, trata-se, de fato, de ariranha, espécie extinta no norte/noroeste fluminense e no sul capixaba.

            Sem dúvida, na região visitada pelo príncipe naturalista, o ambiente foi muito modificado para pior e a biodiversidade se empobreceu. Das luxuriantes matas do antigo Sertão de São João da Barra, restaram apenas a Mata do Carvão, hoje protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, e alguns tufos remanescentes de floresta.

            Da Fazenda Muribeca à Vila de Itapemirim, na margem direita do rio de mesmo nome, a viagem era penosa em 1815. A floresta estacional semidecidual, que ainda não tinha esse nome, confinava com o mar, onde grandes paredões de falésia recebiam o impacto das ondas e marés. Além do mais, havia o grande temor de ataques puris. Para coibi-los, o governo instalou um quartel sobre uma colina.

            Sobre o trajeto, escreve Maximiliano: “A viagem de Itabapoana para o norte exige alguma precaução, porque o viajante tem que atravessar um trecho de seis a oito léguas, até o rio Itapemirim, em que os Puris sempre têm se mostrado hostis. Como já tivessem cometido vários assassinatos terríveis nesse distrito, achou-se conveniente estabelecer um posto militar, chamado Quartel ou Destacamento das Barreiras.”

Expedição de Maximiliano entre os rios Itabapoana e Itapemirim. Desenho original do príncipe

            Daí decorre o nome de uma pequena lagoa na região: a lagoa dos Quarteis, hoje, em notório declínio. O posto militar também era conhecido como Destacamento das Barreiras, pois estava localizado no alto de uma colina da Formação Barreiras.

            O príncipe, então, refere-se às luxuriantes florestas desse trecho, hoje não mais existentes: “Seguimos através de grandes matas virgens, alternadas com extensões arenosas e descampadas onde descobrimos muitos rastos de antas e veados.”

Maximiliano apenas viu rastros de anta entre os rios Itabapoana e Itapemirim, espécie extinta no Estado do Rio de Janeiro e reintroduzida. Caçada da anta por índios e por ele em outra parte do Brasil. Desenho original.

            Prossegue ele: “Numa eminência, sobranceiras ao mar, construíram duas casas de barro e plantaram um pouco de mandioca e de milho para a subsistência dos soldados. A costa sobe, nesse ponto, em ribanceiras de argila, altas e perpendiculares barreiras, em cujo topo fica o quartel; deste se descortina, por isso, amplo panorama do oceano, para o norte e para o sul do litoral, onde as tropas dos viajantes são vistas a grande distância” A bela visão obtida deste ponto batizou uma das lagoas com o nome de Boa Vista.

Veado. “Abbildungen zur Naturgeschichte Brasiliens”

            Mas ele nota roçados que começavam a ser praticados no trecho pouco habitado: “Na terra, as construções do destacamento são compactamente cercadas por sombria floresta secular, em que já se havia começado a fazer roçados.” Nele, o naturalista encontra uma espécie de ave até então desconhecida dos cientistas.

            Os membros da expedição avistam também tartarugas marinhas nadando perto da praia: “Nadando próximo à costa, cujas praias procuram na primavera, viam-se as grandes tartarugas marinhas soerguendo lentamente, acima d’água, as cabeçorras redondas.”

            Atravessando um perigoso território habitado por puris, ele comenta: “Tendo ainda que viajar quatro léguas pelo distrito assolado pelos puris, entre os rios Itabapoana e Itapemirim, tomamos a precaução de caminhar em grupo compacto, e avançamos lentamente, sob escolta, através de uma planície arenosa, firme e perfeitamente horizontal, acompanhando as íngremes encostas do litoral, formadas de argila branca, amarela ou castanho-avermelhada, e camadas de arenito ferruginoso (…) As barrancas e a parte alta da costa são em toda região coberta de florestas, em que ninguém se aventura a penetrar, por causa dos selvagens.” Falésias, florestas e indígenas ainda indômitos.

            Sobre a violência dos índios, Maximiliano reflete sobre sua condição de humanos, que nunca negou, como espanhóis e portugueses, pois reconhece que eles têm religião, como qualquer humano em todos os lugares da Terra. Já com espírito de etnólogo, ele procura compreender tal agressividade.

            “É sem dúvida desagradável tê-los tão perto; mas deve ser lembrado que os colonos, pelo mau tratamento que dispensaram aos habitantes aborígenes, logo no começo, foram os causadores principais dessa hostilidade. Nos primeiros tempos, a avidez de lucros e a sede de ouro aboliram todos os sentimentos humanos dos colonizadores europeus; consideravam-se animais esses homens pardos e nus, criados apenas para trabalhar, como o demonstra a controvérsia, no seio do próprio clero da América espanhola, sobre se os selvagens deviam ou não ser considerados homens como os europeus…” Ele reconhece também a condição humana dos negros escravos, embora não condene a escravidão. Inclusive, comprou um negro e um índio, ambos levados para a Europa. Maximiliano parece ter uma posição de centro em relação aos povos explorados do Brasil.

            A única localidade que dá nome a uma lagoa é a de Siri. Ele escreve que “Em poucas horas chegamos, num trecho baixo da costa, à povoação de Siri, agora inteiramente abandonada.” A lagoa era, então pouco habitada e sofrera recente ataque dos puris. Só pouco mais adiante, são encontradas casas habitadas. O quadro, hoje, é bem diferente. Toda a vegetação nativa que cercava a lagoa foi removida. A agricultura e o turismo invadiram a lagoa.

            A expedição se aproxima de Itapemirim. “Para lá da lagoa do Siri, nas casas acima referidas, os quatro soldados despediram-se de nós. Afastamo-nos do mar e entramos numa bela mata, topando aqui e ali plantações.” A agricultura já estava avançando sobre a floresta naquele longínquo ano de 1815.

            Mas a floresta era ainda majestosa, pois, nas cercanias de Itapemirim,  “(…) À proporção que avançávamos, a floresta se tornava cada vez mais bela, fechada e altaneira; os troncos compridos e esguios formavam uma sombria trama, de modo que o caminho, coberto  de todos os lados, parecia um túnel estreito e escuro. Cedo atingimos terrenos escampos, onde os charcos e as lagoas estavam cheios de marrecos, gaivotas e garças (…) Ao meio-dia, mais ou menos, chegamos ao rio Itapemirim, em cuja margem sul fica a vila do mesmo nome.”

            Em seu diário, Maximiliano esclarece que Itapemirim havia sido recentemente edificado, contando com boas construções, embora fosse uma pequena vila. Seus “habitantes são agricultores pobres, cujas plantações ficam nas vizinhanças, ou pescadores, além de poucos artífices.”

            Em 1855, a população dessa vila enviaria um abaixo-assinado à Câmara Municipal de Campos, manifestando o desejo de se integrar à nova Província que se pretendia criar com a parte norte da Província do Rio de Janeiro e a parte sul da Província do Espírito Santo. A Capitania de São Tomé, primeira tentativa de colonização portuguesa da região, estendia-se entre os rios Macaé e Itapemirim. No passado, o reconhecimento de que essa vasta extensão territorial apresentava unidade, levava sua população a esse tipo de pleito.

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