19.2 C
Rio de Janeiro
spot_imgspot_imgspot_img
spot_img

MUDANÇAS CLIMÁTICAS NATURAIS E ANTRÓPICAS

Mais lidas

eco21
eco21https://eco21.eco.br
Nossa missão é semear informação ambiental de qualidade.

Arthur Soffiati

Buscando amenizar o clima semiárido da Caatinga, o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito propunha, basicamente, a manutenção e a ampliação de florestas, assim como o represamento de água. Quanto ao clima, ele escrevia no início do século XX: “a constituição dos climas, embora muito complexa por abranger várias ordens de fenômenos, encontra suas bases na ordem astronômica, onde a nossa intervenção modificadora é nula.”

O engenheiro sanitarista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito

Os cientistas mais conceituados, antes de 1970, entendiam ser possível atenuar as condições climáticas na superfície da Terra mediante obras, mas não podiam conceber que a ação humana coletiva pudesse alterar a estrutura climática na atmosfera. Geólogos, climatólogos e paleontólogos sabiam que houveram mudanças climáticas ao longo da história da Terra, mas por força do dinamismo natural. Nunca por interferência humana. O leigo, por sua vez, acreditava (e muitos ainda acreditam) que o clima sempre foi o mesmo em toda a história planetária. Quando entram em cena os fatores econômicos e políticos, as posturas conservadoras se fortalecem mais ainda. Chuvas e secas comuns ou extraordinárias representam a vontade de Deus ou da natureza, é a crença comum. 

Na década de 1970, essa concepção começou a mudar na comunidade científica e entre pessoas esclarecidas. Pela primeira vez na história humana, começou-se a admitir que a ação coletiva da humanidade podia mudar o clima não apenas alterando as condições na superfície da Terra, mas também na atmosfera. Em 1978, o relatório “Dióxido de carbono e clima: uma avaliação científica”, publicado nos Estados Unidos, alertava para as alterações climáticas provocadas pelas altas emissões de dióxido de carbono em nível planetário. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, criado em 1988 no âmbito da ONU, confirmou e vem ampliando o conhecimento sobre essas alterações oriundas da ação humana sobre o clima.

Claro que a estrutura climática dos últimos dez mil anos (Holoceno) continuam valendo, mas elas estão sendo potencializadas pela interferência humana. As massas quentes e frias, os fenômenos de El Niño e La Niña, os corredores de ventos e umidade estão sofrendo influência da atividade humana na Terra. A friagem dos polos terrestres, o relevo, os oceanos, os desertos continuam a influenciar o clima. Contudo, a ação humana cria mudanças climáticas que se intensificam com esses fatores naturais.

Massas frias provenientes do continente antártico fazem as temperaturas caírem na América do Sul. Por outro lado, massas quentes circulantes atingem o Antártico e provocam derretimento de geleiras com elevação do nível do mar. A zona de convergência intertropical tem mandado em demasia água evaporada do mar para a costa nordestina. A zona de convergência do Atlântico sul corre o risco de se enfraquecer com o desmatamento da Amazônia.

O verão de 2022, no hemisfério norte, está demonstrando que, de fato, mudanças climáticas estruturais e profundas estão ameaçando a economia que as produziu, com efeitos desastrosos sobre populações que se beneficiaram de um clima favorável no passado. O oeste da América do Norte sofre anualmente com incêndios avassaladores. Os intervalos entre os verões não permite que a natureza se recupere. Assim, ela se empobrece progressivamente. A Europa está entre o ártico que esquenta progressivamente, com degelo de calotas, e o grande deserto do Saara, que se amplia para o sul e para o norte, afetando principalmente as penínsulas sul-europeias. Os incêndios nessas penínsulas estão alcançando proporções assustadoras ano a ano. Os rios Pó, Reno, Loire, Tâmisa e vários outros estão atravessando estiagens apavorantes.  

No grande continente asiático, os dois fenômenos extremos estão ocorrendo ao mesmo tempo. Na China, registra-se uma ingente seca. O rio Yang-tse, o terceiro maior do mundo e o maior da Ásia, assim como sua bacia, registrou a pior seca desde 1961. Esta informação pode enganar, levando o leitor a concluir que houve seca mais severa anteriormente. É que os registros começaram em 1961. Houve expressiva redução na geração de energia elétrica, pois os rios que irrigam a China contam com muitas barragens. A água está sendo racionada. A agricultura sofre perdas gigantescas. As temperaturas giram em torno de 40° C. Por outro lado, na Índia e Paquistão, intensas chuvas já provocaram muitas mortes, perda de safra, destruição de cidades inteiras. Como explicar fenômenos climáticos extremos antagônicos no mesmo hemisfério, no mesmo continente e na mesma estação? A alta cordilheira dos Himalaia. Ela barra água evaporada de forma mais intensa do oceano Índico pelo aquecimento do mar. Chove muito aquém da cordilheira e chove pouco além dela.

Essas informações podem ser encontradas com pesquisa. Principalmente em jornais e relatórios especializados. A grande imprensa dedica páginas diárias à economia que está provocando mudanças climáticas, a política, a crimes e a esportes. Já chegou o momento de dedicar meia página semanal ao menos às manifestações ambientais da crise atual.

Notícias relacionadas

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Últimas notícias

- Publicidade -spot_img