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China inicia adoção de certificação brasileira que garante carne bovina livre de desmatamento

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

por Rudá Capriles

Projeto Beef on Track, desenvolvido pelo Imaflora, chega ao principal mercado importador da carne brasileira e busca fortalecer a rastreabilidade socioambiental da cadeia produtiva

A China, responsável por mais de 47% das exportações brasileiras de carne bovina, começou a avançar na adoção de uma certificação voltada à garantia de conformidade socioambiental da produção pecuária nacional. Desenvolvido pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), o selo Beef on Track (BoT) tem como objetivo monitorar, rastrear e comprovar que a carne bovina brasileira comercializada atende a critérios relacionados à produção livre de desmatamento e ao cumprimento de exigências socioambientais.

A iniciativa entrou em fase piloto no mercado chinês após a assinatura de uma carta de interesse entre o Imaflora e a Tianjin Meat Association (TMA), entidade que reúne empresas ligadas à cadeia da carne no país asiático. Além da associação, outras oito empresas chinesas dos segmentos de logística, comércio e distribuição aderiram ao acordo, dando início à estruturação necessária para a futura comercialização de carne certificada naquele mercado.

A formalização da parceria ocorreu em 3 de junho, na cidade portuária de Tianjin, um dos principais pontos de entrada da carne bovina importada pela China. O movimento representa um passo importante para a consolidação de mecanismos de rastreabilidade ambiental em uma cadeia produtiva que vem sendo cada vez mais pressionada por consumidores, investidores e compradores internacionais a demonstrar transparência sobre a origem de seus produtos.

Segundo dados do Beef Report 2026, elaborado pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), a China permanece como o principal destino da carne bovina brasileira, absorvendo mais de 47% do volume exportado pelo país. Nesse contexto, a adoção de sistemas de certificação socioambiental pode se tornar um diferencial competitivo para o setor.

De acordo com Marina Guyot, diretora de Clima e Desmatamento Zero do Imaflora, a assinatura da carta de interesse marca o início dos testes da certificação no mercado chinês.

“Assinamos com a Tianjin Meat Association a carta que dá início à parceria para testar a certificação BoT na China. Avançamos ainda na negociação com uma auditoria chinesa, chamada Chinese Quality Mark Certification Group (CQM), responsável pela verificação da cadeia de custódia dos produtos passíveis de certificação”, afirmou.

A participação da CQM é considerada estratégica para o processo, uma vez que a entidade deverá atuar na verificação da cadeia de custódia dos produtos certificados, etapa fundamental para garantir que a carne comercializada mantenha a rastreabilidade e os critérios exigidos ao longo de toda a cadeia de comercialização.

Incentivos econômicos para impulsionar mudanças na cadeia produtiva

A proposta do Beef on Track está baseada na premissa de que mecanismos de mercado podem estimular transformações na produção pecuária. A expectativa do Imaflora é que a certificação possa reproduzir, sob uma nova perspectiva, os efeitos observados com o chamado “boi China”, padrão de qualidade estabelecido pelo mercado chinês para a importação de carne bovina brasileira.

Na primeira metade da década de 2020, a exigência chinesa de animais rastreáveis e abatidos antes dos 30 meses provocou mudanças nos sistemas produtivos brasileiros. Segundo os dados citados pelo projeto, essas adaptações contribuíram para uma redução de aproximadamente 5,8 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2022.

Agora, a aposta é que a valorização comercial da carne certificada possa estimular produtores e frigoríficos a ampliar a adoção de práticas de regularização socioambiental, fortalecendo mecanismos de controle e monitoramento da produção.

A Tianjin Meat Association já havia manifestado, durante o lançamento da certificação, interesse na aquisição de até 50 mil toneladas de carne certificada ao longo de 2026. Paralelamente, a entidade discute com seus clientes locais a possibilidade de conceder um prêmio adicional de até 10% para os produtos enquadrados nos níveis mais avançados da certificação.

Segundo Marina Guyot, esse diferencial financeiro pode desempenhar papel importante na ampliação da adesão ao sistema.

“Ela agora está se preparando para cumprir o prometido e mostra disposição de negociar junto aos seus clientes locais um prêmio adicional de até 10% para a carne certificada nos níveis mais avançados do BoT”, declarou.

A avaliação do instituto é que a remuneração diferenciada pode estimular um movimento semelhante ao observado com o “boi China”, criando incentivos econômicos para a ampliação da oferta de carne produzida em conformidade com critérios ambientais e sociais.

Base consolidada em sistema já existente

Embora tenha sido lançado há apenas oito meses, o Beef on Track não parte do zero. A certificação utiliza como base um sistema de monitoramento e controle já consolidado na cadeia pecuária da Amazônia Legal.

Desde 2009, os principais frigoríficos que operam na região estão submetidos ao Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne, firmado com o Ministério Público Federal (MPF). O acordo estabelece critérios para a aquisição de gado, exigindo a rastreabilidade dos animais e impedindo compras provenientes de propriedades associadas ao desmatamento ilegal, ao trabalho escravo ou à invasão de Terras Indígenas.

O cumprimento dessas exigências é acompanhado por auditorias independentes realizadas regularmente. O diferencial do Beef on Track é justamente reconhecer esse sistema de auditoria já existente como parte de seu processo de certificação, reduzindo custos e aproveitando uma estrutura previamente estabelecida.

Como resultado, uma parcela significativa da produção brasileira já se encontra apta a receber o selo. Segundo informações apresentadas pelo Imaflora, entre 2,1 milhões e 2,2 milhões de toneladas de carne bovina atendem atualmente aos requisitos necessários para certificação. Parte relevante desse volume está concentrada nos estados de Mato Grosso e Pará.

Para o instituto, esse cenário demonstra que já existe uma base produtiva capaz de atender às exigências de mercados que demandam maior transparência socioambiental, sem a necessidade de criar mecanismos inteiramente novos de controle.

Interesse crescente no mercado chinês

Além das reuniões realizadas em Tianjin, representantes do Imaflora também apresentaram a certificação a importadores da província de Henan, considerada um dos principais polos de distribuição de carne bovina da China.

Segundo a organização, compradores locais demonstraram interesse em aderir ao programa, sinalizando que a demanda por produtos com garantia de origem socioambiental pode crescer no mercado chinês.

Para Marina Guyot, a certificação representa uma oportunidade de ampliar o reconhecimento internacional da carne brasileira por atributos que vão além dos padrões tradicionais de qualidade.

“É uma oportunidade interessante para a carne brasileira, que agrega valor ao carregar também informação socioambiental. Esse produto pode ganhar notoriedade e influenciar positivamente o desempenho do setor nos mercados, conferindo vantagens ao produto nacional livre de desmatamento”, afirmou.

A expectativa é que a iniciativa contribua para fortalecer a rastreabilidade na cadeia pecuária, ampliar a transparência sobre a origem dos produtos e consolidar mecanismos de valorização da produção livre de desmatamento. Ao mesmo tempo, o projeto busca associar competitividade econômica e responsabilidade socioambiental em um dos setores mais relevantes do agronegócio brasileiro, tendo como principal vitrine o maior mercado comprador da carne bovina nacional.

REFERÊNCIAS

ClimaInfo

Times Brasil

Capital Reset

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