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Jaguar Rivers: coalizão de quatro países lança o maior corredor ecológico da América Latina

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Iniciativa pretende conectar ecossistemas em uma área equivalente a duas vezes o Alasca e fortalecer a conservação da biodiversidade sul-americana

A preservação da biodiversidade na América do Sul acaba de ganhar um importante reforço. Uma coalizão formada por organizações ambientais do Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai lançou oficialmente a Jaguar Rivers Initiative, considerada o primeiro grande esforço multinacional para criar um corredor ecológico continental na América Latina.

Apresentada globalmente durante a Climate Week, em Nova York, e lançada oficialmente no Brasil durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade (UCBIO), em Curitiba, a iniciativa busca restaurar, conectar e proteger mais de 2,5 milhões de quilômetros quadrados ao longo da Bacia do Paraná. A área contemplada pelo projeto equivale a aproximadamente duas vezes o território do Alasca, nos Estados Unidos.

Mais do que um programa de conservação ambiental, a Jaguar Rivers representa uma nova visão para a proteção dos ecossistemas sul-americanos. A proposta reconhece que rios, florestas, áreas úmidas, fauna silvestre e comunidades humanas formam um sistema interdependente, cuja preservação depende de ações coordenadas além das fronteiras nacionais.

Painel de lançamento Inciaitiva Jaguar Rivers

A importância dos corredores ecológicos

Nas últimas décadas, a expansão urbana, a conversão de áreas naturais para agricultura e a construção de infraestrutura fragmentaram diversos habitats naturais na América do Sul. Como consequência, muitas espécies passaram a viver em áreas isoladas, reduzindo sua capacidade de deslocamento, reprodução e adaptação às mudanças ambientais.

Os corredores ecológicos surgem justamente como uma estratégia para reverter esse cenário. Ao conectar áreas protegidas e fragmentos de vegetação nativa, esses corredores permitem que os animais circulem livremente, ampliem suas populações e mantenham a diversidade genética necessária para a sobrevivência das espécies.

No caso da Jaguar Rivers Initiative, a onça-pintada foi escolhida como espécie símbolo. Considerada o maior felino das Américas e um dos principais predadores dos ecossistemas tropicais, a presença da onça é um indicador da saúde ambiental de uma região. Onde há condições para a sobrevivência da espécie, normalmente também existem recursos suficientes para centenas de outras formas de vida.

Photo by Adam Moore | Edges Of Earth

Uma estratégia baseada em quatro pilares

Para atingir seus objetivos, a Jaguar Rivers Initiative foi estruturada sobre quatro pilares estratégicos que atuam de forma complementar.

O primeiro deles são as chamadas “Arcas”, grandes áreas naturais ainda preservadas que funcionam como núcleos de dispersão de espécies e garantem a manutenção dos processos ecológicos.

O segundo pilar são as Zonas de Amortecimento, regiões localizadas ao redor dessas áreas protegidas, onde são incentivadas atividades econômicas compatíveis com a conservação ambiental e a convivência harmoniosa entre seres humanos e fauna silvestre.

O terceiro elemento são os Trampolins Ecológicos, pequenas reservas e propriedades privadas que servem como pontos de apoio para o deslocamento seguro dos animais entre diferentes habitats.

Por fim, a iniciativa dedica atenção especial aos Rios e Planícies, reconhecendo o papel fundamental dos recursos hídricos para a manutenção da biodiversidade. O monitoramento dos fluxos ecológicos e a participação da sociedade na proteção das águas são considerados aspectos centrais do projeto.

Yan Speranza – Fundación Moisés Bertoni

Cooperação internacional para enfrentar desafios globais

A Jaguar Rivers Initiative reúne algumas das mais influentes organizações de conservação da América do Sul. O projeto é liderado pela Rewilding Argentina, Nativa Bolívia, Fundação Moisés Bertoni, do Paraguai, e Onçafari, do Brasil.

A iniciativa também conta com o apoio de importantes financiadores internacionais ligados à conservação ambiental, incluindo Tompkins Conservation, Rainforest Trust, Wyss Foundation, Rolex Perpetual Planet Initiative e outras fundações privadas comprometidas com a proteção da natureza.

Para especialistas, a criação de alianças multinacionais desse porte é fundamental diante da crescente pressão sobre os ecossistemas naturais. As mudanças climáticas, a perda de biodiversidade e a degradação dos recursos hídricos são desafios que ultrapassam fronteiras políticas e exigem respostas integradas.

Kristine Tompkins, uma das principais apoiadoras do projeto e referência mundial em conservação, destaca a urgência da iniciativa. Segundo ela, a Jaguar Rivers representa uma oportunidade única para agir antes que a degradação ambiental atinja níveis irreversíveis.

Iván Arnold Nativa – Bolívia

O papel do Brasil e do Onçafari

No Brasil, a liderança da iniciativa está sob responsabilidade do Onçafari, organização que se consolidou nos últimos 15 anos como uma das principais referências em conservação da biodiversidade.

Além de sua participação na construção dos corredores ecológicos da Jaguar Rivers, a instituição atua diretamente na proteção de áreas estratégicas para a conservação da fauna brasileira, incluindo a Reserva Santa Sofia, a RPPN Pata da Onça, no Pantanal, e os Refúgios de Vida Silvestre dos rios São Benedito e Azul, na Amazônia paraense.

Segundo o fundador do Onçafari, Mário Haberfeld, a proteção da onça-pintada está diretamente ligada à preservação dos rios, das florestas e das comunidades que dependem desses ambientes. Para ele, a conservação moderna exige uma abordagem integrada, capaz de unir ciência, setor privado, organizações da sociedade civil e populações locais em torno de soluções concretas.

Mario Haberfeld – Onçafari

Um modelo para o futuro da conservação

O lançamento da Jaguar Rivers Initiative ocorre em um momento decisivo para a conservação ambiental global. Relatórios internacionais apontam que a América do Sul abriga algumas das maiores reservas de biodiversidade do planeta, mas também enfrenta pressões crescentes decorrentes do desmatamento, da expansão agrícola e das mudanças climáticas.

Ao propor a conexão de milhões de hectares de ecossistemas em quatro países, a iniciativa estabelece um modelo inovador de conservação em larga escala. Mais do que proteger áreas isoladas, o projeto busca restaurar a funcionalidade dos ambientes naturais e garantir que espécies, recursos hídricos e comunidades possam coexistir de forma sustentável.

Se bem-sucedida, a Jaguar Rivers poderá se tornar uma das maiores experiências de conectividade ecológica do mundo, demonstrando que a cooperação internacional é uma das ferramentas mais poderosas para enfrentar a crise global da biodiversidade e construir um futuro mais resiliente para a América do Sul.

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