26 C
Rio de Janeiro

Natureza e alimentos: Pantanal e Campos do Sul

Mais lidas

eco21
eco21https://eco21.eco.br
Nossa missão é semear informação ambiental de qualidade.

Arthur Soffiati |

Antes de abordar a capacidade dos biomas Pantanal Matogrossense e Campos Sulinos em fornecer alimentos para animais e humanos, cumpre esclarecer que existe a discussão sobre a natureza do Pantanal. Constitui ele, de fato, um bioma ou é uma grande extensão do Cerrado alagada pela bacia do rio Paraguai? Veloso e colegas classificam o Pantanal como savana estépica, no geral, e como chaco sul-matogrossense, no particular, ao lado de outro tipo de savana estépica seca, conhecida como Caatinga (VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa; LIMA, Jorge Carlos Alves. “Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal”. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991). Pode-se dispensar classificações muito detalhadas e continuar usando a expressão Pantanal Matogrossense, já consagrada para designar um dos mais biodiversos e ameaçados biomas encontrados em território brasileiro, embora os ecossistemas, biomas e ecótonos não se restrinjam a limites de Estados nacionais, instituição criada no ocidente e imposta ao mundo no processo de globalização.

A segunda observação refere-se à capacidade de todos os biomas, em todo o mundo, de fornecer alimentos para animais e humanos, das úmidas florestas tropicais até os mais áridos desertos, passado por florestas temperadas e boreais, savanas, estepes, planícies fluviomarinhas, manguezais e ilhas costeiras e oceânicas. Acontece que os biomas do mundo foram contaminados pela civilização ocidental. Hoje, as fontes nativas de alimentos se misturam com os recursos introduzidos pela agropecuária e pela indústria. Criou-se, assim, uma culinária mista que passou por longo período como nativa dos biomas e ecossistemas. Vários autores mostram que essa culinária, apesar de rica em proteínas, vitaminas, carboidratos e gordura, era saudável porque não industrializada e associada a atividades físicas que absorviam seus possíveis efeitos negativos ao corpo animal e humano.

Quanto ao Pantanal Matogrossense, não é preciso detalhes. Trata-se da maior área úmida do mundo. É, originalmente, um bioma rico em vegetais comestíveis, invertebrados, peixes, répteis, aves e mamíferos caçados para alimentação. Mas a invasão do grande bioma pelo agronegócio, pelo gado e pelo turismo empobreceu esse mundo aquático. Os incêndios anualmente frequentes culminaram até aqui na grande queimada de 2020. O Pantanal está secando. Sua rica biodiversidade está declinando. A grande riqueza alimentar eram os peixes, que também começaram a rarear. A economia de mercado tem um poder destrutivo ilimitado. Celebra-se, no início de 2023, o renascer do Pantanal. Parece uma atitude  precipitada. Embora voltando a vicejar, o bioma continua com a espada sobre o pescoço, já que os fatores que o ameaçam permanecem ativos. Não basta maior vigilância das autoridades e especialização no combate a incêndios já deflagrados. É necessário desativar ou controlar as forças que ameaçam o bioma, algo não impossível mas muito difícil.

Num bastante ilustrado livro, Paulo Machado associa paisagens com pratos pantaneiros. A maioria deles se utiliza de carne de gado bovino, porco, aves de criação, jacaré, peixes, feijão, arroz, macarrão, raízes e frutas do bioma e introduzidas. Uma das mais conhecidas e apreciadas é o Baru (“Cozinha pantaneira: comitiva de sabores”. São Paulo: BEI, 2020).

Baru, fruta comestível e medicinal do Cerrado e do Pantanal

Os Campos do Sul ou Pampas são classificados com estepe por Veloso e colegas. Originalmente, os campos eram úmidos e com alta diversidade biológica. Até mesmo espécies animais dos Andes viviam neles. O clima frio atraiu imigrantes europeus, sobretudo italianos e alemães. Sendo um ambiente de vegetação herbácea, logo se entendeu que ele era favorável a pastos. Antes dos europeus, os povos nativos dos Pampas encontravam alimentos no ambiente natural. Havia vegetais, peixes, aves e mamíferos que podiam ser caçados. Com a colonização europeia, os campos do sul deram origem a uma cultura da carne, sobretudo bovina. É famoso o churrasco dos Pampas. Que se leia “Uma exposição”, de Ieda Magri (Belo Horizonte: Relicário, 2021), relato romanceado de uma vila catarinense onde a matança de bois era (é) algo muito natural. Mas a colonização italiana e alemã introduziu outros pratos, sobretudo nos salgados e doces, como mostram os livros “Cozinha alemã” (São Paulo: O Globo, 1993) e “A doçaria tradicional de Pelotas” (Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2003). 

Um vegetal muito utilizado na culinária do sul é o pinhão, semente do pinheiro-do-Paraná. Ele mereceu até um livro de receitas escrito e organizado por Rossana Catie Bueno de Godoy, Maria de Fátima de Oliveira Negre, Ilídia Maria Mendes, Geisa Liandra de Andrade de Siqueira, Cristiane Vieira Helm (O pinhão na culinária. Brasília: Embrapa, 2013).

IMG_256
Pinhão

Notícias relacionadas

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Últimas notícias

- Publicidade -spot_img