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Arthur Soffiati |

Hoje, 22 de abril, é o Dia Mundial do Planeta Terra. Não a terra que você coloca no vaso para uma planta, mas a terra que nós pisamos, respiramos, comemos e bebemos. A Terra a partir da qual e sobre a qual crescem as plantas. Terra da qual dependem os animais, inclusive nós, que nela plantamos e na qual colocamos o gado para pastar. Aquele gado que vamos matar para comer. Aquela terra onde escavaremos nossa sepultura e que será nossa última morada. Sepultura, aquela casa forrada que dificulta o processo de digestão da Terra para que voltemos como substância para outros seres vivos, como pensava Empédocles corretamente. Terra, o terceiro planeta de um sistema planetário minúsculo e perdido num vasto Universo. Planeta que, além da terra, é constituído por 3/4 de água, mas sob a qual, existe terra.

A esta altura da história, o dia 22 de abril, no meu entendimento, é mais importante que o dia de ontem, 21 de abril, dedicado a Tiradentes, e o dia de hoje, há 523 anos, quando Pedro Álvares Cabral aportou num ponto da costa que futuramente seria o Estado nacional do Brasil e o estado da Bahia. Cabral e Tiradentes fazem parte de uma história que começou a se constituir no século XIX: a história do nacionalismo. A convicção de que os brasileiros, venezuelanos, congoleses, vietnamitas vivem no melhor país do mundo, que têm a mais bela bandeira do mundo, que choram com seus respectivos hinos por serem os mais emocionantes da Terra, mostra já seus efeitos danosos sobre o planeta.

A progressiva exploração da terra pelo agronegócio, com o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos, com o abusivo consumo de água, com a erosão, com a esterilização do solo; o crescimento desordenado e injusto das cidades em todo o mundo; a destruição dos rios com barragens para acumular água num ponto, ressecando outros, e com a poluição; a destruição dos ecossistemas nativos; o empobrecimento progressivo da biodiversidade; as emanações de gases que adensam a cobertura natural da Terra e aquecem o planeta, provocando chuvas, estiagens, tempestades de vento, fortes ressacas; o excesso de luz, que vem extinguindo a escuridão da noite; o excesso de radiação e outros fenômenos mais, demonstram que o nacionalismo combinado com a economia de mercado vem lidando mal com a Terra.

Enquanto isso, Estados Unidos, Rússia, China e União Europeia gastam incomensuráveis fortunas com naves espaciais e equipamentos destinados a pesquisar vida em Marte ou Júpiter. Talvez Marte esconda vida bacteriana que não avançou em direção a seres mais complexos ou que voltou a se reduzir à dimensão bacteriana. Aqui na Terra, qualquer animal sabe que a vida existe. Mesmo sem consciência de sua existência, os herbívoros estão vivos graças ao ser vivo vegetal. E os carnívoros se alimentam de seres vivos que se alimentam de vegetais. E nós, humanos (acredite se quiser, mas somos animais e também vivos), recorremos a vegetais e animais para viver. Estaremos isolados no Universo? Nas várias religiões, acredita-se que a vida é um milagre de Deus. Cientistas ateus e agnósticos excluem Deus, mas não o milagre. Alguém já disse que a vida num único planeta em todo o Universo é uma felicidade e uma tragédia. Estamos sós nessa imensidão.

O ecólogo ateu Edward O. Wilson escreveu num de seus livros: “… os astrobiólogos, armados de tecnologia cada vez mais sofisticada na pesquisa por vida alienígena, acreditam que pelo menos alguns poucos – e provavelmente sejam muitos – planetas em nosso setor de galáxias tiveram gênese biológica similar (…) o requisito é que os planetas tenham água e estejam em órbita na ‘Zona Cachinhos Dourados’ – não perto o bastante da estrela-mãe para virar fornalhas, nem longe a ponto de a água ficar eternamente em forma de gelo.” 

Talvez os povos antigos e pioneiros tenham pressentido o que a ciência moderna demonstrou: a Terra nasceu do Sol e a Lua nasceu da Terra. Os três astros são interdependentes. A terra está a uma distância do Sol que permite a emergência da vida, sua manutenção, seu desenvolvimento e suas transformações. Mais perto da estrela luminosa, a vida nem emergiria. Mais longe também. A Lua, por sua vez, mantém a Terra em equilíbrio e produz as marés. Daí Sol e Lua serem divindades em vários sistemas religiosos. Houve pensadores na Grécia antiga e na China que intuíram a existência de um Sistema Terra vivo. Poderíamos até dizer que a ideia de um sistema Terra no ocidente começou a se configurar no chamado Renascimento. Entre os séculos XV e XXI, viveram Copérnico, Giordano Bruno, Galileu, Kepler, Newton e Tycho Brahe, cosmólogos que valorizaram a Terra. No século XVII, Descartes deu consistência a um pensamento de exploração da Terra. Cresceram o liberalismo, o socialismo e principalmente o nacionalismo, que viram na Terra um depósito a ser explorado. Darwin mostrou a complexidade da vida. Nos séculos XX e XXI, uma minoria de pensadores entende cada vez mais a importância do planeta para a vida humana. O Dia da Terra não precisa de bandeira, símbolos, hino. Precisa apenas de uma mudança radical de paradigma científico e de comportamento humano

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