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CONSUMO DA VIOLÊNCIA E NO QUE NOS TORNAMOS

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Samyra Crespo *| Ambientalista e colunista da Eco21

A reflexão começou na sala de casa. Um filme, uma cena violenta, mamãe que já tem mais de 85 anos se retirou: “não aguento”.  

Um mês antes, vi uma quase neta de 17 anos jogando videogame onde a diversão era arrancar a cabeça dos adversários. Com requinte de violência estética – sangue pingando grosso e abundante. 

Filmes a la Tarantino deixaram de ser exagero literário para se espalharem na maior parte dos filmes “de ação “. Cenas de tortura – detalhadas são mostradas como vi recentemente no filme Red Sparrow, onde se prática a esfolação de um homem ao vivo e a cores. 

Jason e o macabro crime da “serra elétrica ” se tornaram banais. As pessoas riem em vez de se espantar.  

Uma tolerância à barbárie vai sendo silenciosamente escondida. 

As telas (múltiplas e agora portáteis) falam de crimes de guerra, de violações de direitos humanos, de massacre de crianças, animais, idosos. 

Mas mesmo nas sessões “da tarde” da TV aberta é possível ver crimes e uso de drogas, algumas que nem conhecia. A TV ensina. A literatura ensina, os filmes ensinam.  

O micro-ondas da favela ensina. Os meninos com as mãos amputadas ensinam. 

Os trotes cruéis nas faculdades ensinam. 

A vida imita a arte. A arte imita a vida. 

Uma amiga, que milita na seara de combate ao tabagismo mostra como, insidiosamente, os filmes vêm reapresentando os personagens fumando. 

E como a bebida alcoólica é mostrada como a dose eficiente de “relax” em qualquer situação de estresse.  

Vamos introjetando padrões de extrema violência.  

Física, estética, portanto também simbólica.  

O discurso politicamente correto – por ser às vezes radical e até caricato – tem eficiência limitada.  

Assim como você tem a Web regulada, tem a Deep Web que é o baixo mundo, o território sem lei, onde se exprime o ilícito. E ele cresce. Vocifera. 

Por baixo da camada de civilização que a sociedade do politicamente correto suspira, respira o ódio, o ressentimento e o mal banalizado. 

Não há como negar que nossa sociedade atual – de robôs, inteligência artificial e supercomputadores – avançou pouco no terreno da moral e do combate às formas violentas de se relacionar seja com o “outro” humano, seja com o “outro” animal, planta natureza. 

Cada guerra, que vimos prosperar no século XXI – quando esperávamos um mundo de paz sob o signo de Aquarius, não deixou só mortos e violência gravadas nos locais onde ocorreu ou ainda ocorrem. 

Cada guerra aperfeiçoa máquinas bélicas de matar com mais precisão. Tecnologia a serviço da morte. 

Cada guerra cria exércitos de mercenários – homens acostumados com a morte, insensíveis a ela. Também se tornaram máquinas de matar a soldo. 

Cada guerra, ocorra onde ocorrer, nos deixa um gosto amargo de derrota. 

Derrota do gênero humano. 

Derrota da cultura de paz. 

Derrota do humanismo. 

Derrota da beleza.  

Derrota da natureza. 

Derrota do projeto histórico, cada vez mais utópico de uma “sociedade sustentável”. 

Estou convencida de que consumimos violência física, estética, simbólica além do que seria razoável e desejável. Pensar sobre isso, e tomar as devidas providências – privadas e públicas – deveria nortear nossos propósitos. 

Medidas profiláticas, urgentes, que podem ainda poupar toda uma geração devem ser tomadas. 

Tenho pra mim que todo projeto de futuro terá que lidar com as questões de ordem moral derivadas da violência ensinada e praticada corriqueiramente nos dias atuais. 

Nenhum ser humano é uma ilha. Criar paraísos no pântano? 

Criar seres pacíficos “ensinando” a violência extrema?

Samyra Crespo

Samyra Crespo | Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

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