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*Arthur Soffiati reflete sobre as chuvas que assolam o Rio Grande do Sul

Como todos os outros, o Brasil é um país construído historicamente. Não vale a pena ser muito patriota. Pode-se amar um país sem a crença ingênua de que ele foi criado por Deus ou existe desde sempre. O mesmo princípio vale para as divisões internas de um país. O Brasil começou com um território bem menor que o atual. Os estados de hoje mudaram de dimensões e de capitais. Nesses tempos de história humana, os rios permanecem. Vários cursos foram mudados, barrados, desmatados, poluídos. Mas, no fundamental, os rios continuam existindo.

No estado do Rio Grande do Sul, o maior rio serve de fronteira entre ele e o estado de Santa Catarina. Entre ele e a Argentina. Trata-se do rio Uruguai. No interior do estado, existem outros, todos de porte médio e pequeno. Com as mudanças climáticas potencializando o El niño, chuvas torrenciais estão tornando o Rio Grande do Sul em rio grande do sul, ou seja, o maior rio do estado. Este rio se avolumou em setembro de 2023 e se superou em fins de abril e princípio de maio de 2024. Em 2023, as chuvas torrenciais foram atribuídas ao fenômeno do el niño. Em 2024, o responsável é um sistema meteorológico que produz grande evaporação no oceano Pacífico, transporta nuvens sobre os Andes e as transforma em chuva no sul do Brasil, atingindo o Uruguai e a Argentina.

Não importa muito se as chuvas derivam dos últimos suspiros do el niño ou de outro fenômeno meteorológico. Não se pode mais pensar os fenômenos climáticos divorciados das mudanças climáticas produzidas por atividades praticadas pela economia de mercado na Terra. Os gases gerados por essas atividades se acumulam e se espessam na atmosfera, permitindo a entrada de calor, mas impedindo sua saída. O planeta está se aquecendo. O ano de 2023 foi o mais quente desde 1850, quando começaram os registros meteorológicos mundiais.

O observatório Copernicus, da União Europeia, alerta que 2023 foi o ano mais quente desde a última fase interglacial, há 120 mil anos. Então, podemos dizer, provisoriamente, que 2023 foi o ano mais quente em 120 mil anos. É uma informação curiosa, mas que não importa muito. Imaginemos o velho sapo das nossas ilustrações numa panela com água que esquenta progressivamente sobre um bico de gás aceso. Quando o calor começar a incomodá-lo e ameaçar a sua vida, nós o consolaremos dizendo que já houve temperaturas mais elevadas em outro tempo e lugar.

A humanidade já existia durante a última fase interglacial, mas era muito reduzida e distribuída em grupos que viviam da coleta, da pesca e da caça. A América e a Oceania ainda não haviam sido colonizadas por humanos. As altas temperaturas devem ter causado incômodos, mas não como na atualidade. Houve momentos mais quentes enfrentados pela humanidade e mesmo antes que ela se constituísse.

Mas a Terra não era habitada por oito bilhões de pessoas. Não havia grandes cidades. Não havia encostas e margens de rios ocupadas por pessoas de baixa renda. Não havia grandes empresas poluidoras. Não havia a retirada de gases, líquidos e sólidos das profundezas da terra para serem queimados na superfície e lançados na atmosfera como fumaça. Não havia um sistema econômico que dessacralizou a natureza e a transformou em objeto de exploração. De animada, a natureza foi transformada em coisa capaz de fornecer matéria e energia, além de absorver dejetos do processo produtivo. Tudo de forma ilimitada.

As temperaturas progressivamente mais elevadas desde 1850 devem ser entendidas na sua dimensão qualitativa. Não apenas no seu aspecto quantitativo. Nunca antes na Terra as temperaturas foram provocadas pela ação coletiva de uma espécie viva: a espécie humana. E a Terra reage. Ela não está se vingando da humanidade. Ela apenas se manifesta como um grande organismo. As chuvas torrenciais que transformaram o Rio Grande do Sul no rio grande do sul; a seca que afetou o mesmo estado durante o último episódio de la niña; os incêndios nos biomas Pantanal e Cerrado; a seca na Amazônia; o progressivo ressecamento da Caatinga; os furacões e tornados do hemisfério norte são manifestações do novo momento da Terra.

Criamos uma civilização adaptada a um tipo de clima mundial. Essa civilização está mudando o clima em que floresceu. As temperaturas dos oceanos se elevam, as geleiras eternas não são mais eternas, o nível do mar sobe. O calor e o frio aumentam. As chuvas, os ventos e as estiagens se tornam mais severas. A humanidade está se debatendo e sofrendo. Sobretudo a parte mais pobre. Não sendo possível voltar rapidamente às temperaturas de 1850, cabe adaptar nossa civilização ao chamado novo normal climático. Mas os governos não estão conseguindo ou não estão acreditando nos novos e sombrios tempos. Creio mesmo não haver tempo para mudar diante das cenas de desastres que nos são mostradas.

* Arthur Soffiati é professor associado da Universidade Federal Fluminense aposentado.

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