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Cora Coralina: um capim dourado no meio do cerrado

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Só pude ver isso agora, Cora, como o capim dourado é bonito e particular na grandeza do cerrado. E foi aqui, Cora, entre pedras e capins, ipês e pequis que redescobri seu brilho.

Entre o cerrado com seu capim dourado e pedras polidas pelas eras nasceu Cora Coralina, a poeta de Goiás.

Por Paulo Atzingen (em algum lugar do Goiás)

Estive este mês em tua casa e nela te enxerguei por completo.  Cora, você é um ser humano sem sexo, sem raça, sem nacionalidade definida e que por isso mesmo se ergueu sobre a superficialidade e apatia de muita gente ( apressados em seus smartphones, fazendo contas, antecipando coisas) doando-lhes doses de sabedoria, amor e paciência. Sei que viveu aqui, (às margens de um rio e no fundo de um vale) boa parte de tua vida, mas viveu e se expressou como se estivesse do alto de uma montanha, longe do chapadão do cerrado,  lá onde as águias fazem seu ninho.

Pisei em tua terra agora em julho Cora, nessa cidade de Goiás que se confunde com o grande estado que tem em suas entranhas, dois super-rios (Araguaia e Tocantins) e um Distrito Federal.  Andei nos caminhos das boiadas, o mesmo que tu contas em teus poemas e cheirei o cheiro dos currais dos quais sai uma beleza mais original e genuína e que não cheiramos em super-cidades com seus monóxidos de carbono. Sim, este cheiro de estrume de boi tem um grau de pureza que já foi comprovado pelas escrituras hindus há milênios e colocado em um altar sagrado.

Aqui na casa, vejo uma foto tua Cora, cuidando de flores no quintal, ou perto do fogão fazendo teus quitutes. Com a delicadeza das almas que conhece o tempo da vida, já que viveste 96 anos, leio o relato da enchente de 1839: “As águas levaram a igreja, a cruz dos bandeirantes e boa parte da casa velha que veio a ser construída depois.

Quem me contou isso foi minha bisavô que viveu aqui nos tempos dos bandeirantes paulistas…”, essas frases estão em teu livro O Tesouro da Casa Velha.

Aqui na casa, vejo uma foto tua Cora (Credito: Associação Amigos de Cora Coralina)

Coragem

Pude agora, Cora, entender a compaixão com que olhava o escravo forro, mas que ainda era escravo de si mesmo. Pude ver agora, Cora, a altura de tua humanidade quando narra a morte de uma criança que teve o caixão enfeitado com flores cultivadas e doadas por tua irmã à família pobre.  Pude entender agora Cora, a coragem de uma mulher septuagenária que quase no fim da vida decidiu começar de novo, retornando à velha casa, onde viveu a infância.  A coragem de, na década de 30, fazer versos e crônicas e publicá-los em “jornais de homem”.

Essa “vida besta de cidade parada no tempo onde tudo vai devagar…” como escreveu Carlos Drummond de Andrade sobre Itabira (MG),  poderia ser usada aqui, Cora, em Goiás, no teu tempo, um século atrás. No entanto, poeta, agora, a pressa e o barulho que trazemos conosco têm sido tão insuportável que o silêncio das pedras dessas ruas soa como uma sinfonia no deserto individual de cada um.

O mesmo Drummond escreveu que “havia uma pedra no meio do caminho”. Eu escrevo que tu és um capim dourado no meio do cerrado.

Sua estátua de cobre e de bronze emoldura as fotos tiradas com sua casa ao fundo. Sei agora, Cora, que esta homenagem, traduzida em metal poderá atravessar dois séculos, quinze enchentes e o implacável sol diário de Goiás, mas tua lição de prosa e poesia vai perdurar  por tempo indefinido, inundará corações por milênios afora e iluminará as mentes com a mesma intensidade de um sol de Goiás.  

Fonte

Na visita aos teus aposentos Cora,  vi o Livro de Guimarães Rosa – Grande Sertão Veredas – numa redoma de vidro e algumas cartas escritas por ti.  Entregaste tua alma a esse grande sertão sem veredas de Goiás, Cora, e bebeste dos igarapés  a mais doce água, a mais límpida inspiração para que pudesse, na passagem dos séculos,  estender aos outros e a nós o teu seio de mãe, o teu braço de raiz, a tua alma de terra e teu coração de poeta.

Por isto Cora, toda vez que avistar nesse grande estado de Goiás um capim dourado lembrarei de ti.

*Paulo Atzingen é jornalista, cronista, poeta e fundador do jornal DIÁRIO DO TURISMO

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