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Peregrinações de uma planta de manguezal

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Arthur Soffiati |

O botânico campista Alberto José de Sampaio recusou-se, em sua Fitogeografia do Brasil (3ª edição revista e aumentada. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1945), a considerar os manguezais como um ecossistema exclusivo da América. Em grande parte, o ilustre botânico tem razão. A origem dos manguezais situa-se há cerca de 60 milhões de anos, numa região que futuramente constituiria a península do Sudeste Asiático. Bem longe do continente americano, portanto. Daquele ponto, as sementes das plantas de manguezal navegaram milênios a fio até colonizarem a região intertropical da América, da África e da Ásia. Enquanto a vegetação nativa costeira dos continentes provém do interior, a vegetação típica dos manguezais chega dos mares, como os navegadores.

Uma dessas plantas tem história curiosa. Trata-se de uma das duas espécies de siribeira da América atlântica, em alguns lugares denominada siriba, siriúba, siribeira branca ou siribeira eucalipto, em razão do formato e da disposição de suas folhas. Seu nome científico atual é Avicennia germinans.

No século XIX, von Martius referiu-se a duas espécies do gênero Avicennia: A. tomentosa e A. nitida, hoje renomeadas como A. schaueriana e A. germinans, respectivamente. O naturalista alemão delimitou a área geográfica de distribuição da A. nitida (germinans) entre a Flórida e a Bahia (Flora Brasiliensis Enumeratio Plantarum in Brasilia Hactenus Detectarum. S/l: s/d). Em 1919, Hermann Luederwaldt, seguindo os passos de von Martius, disse que A. tomentosa (schaueriana) era típica da América meridional tropical (Os manguezais de Santos. Revista do Museu Paulista tomo XI. São Paulo, Diário Oficial, 1919). Dando crédito a Loefgren e Everett, ele procurou em vão a A. nitida (germinans) nos manguezais de Santos.

Por muito tempo, o limite sul da espécie foi fixado no Espírito Santo (JIMENEZ, Jorge A. e LUGO, Ariel E. Avicennia germinans (L) L. Black mangrove. United State Forest Service Silviculture, n. 4, 1985). Em 1980, as biólogas Dorothy Sue Dunn de Araujo e Norma Crud encontraram-na crescendo na foz dos rios Itabapoana e Paraíba do Sul, no Estado do Rio de Janeiro (FEEMA. Relatório técnico sobre manguezal. RT 1123. Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente: Rio de Janeiro, 1980). O segundo rio passou, então, a constituir o seu limite meridional de distribuição. Mesmo assim, a espécie continuou, na literatura, com sua geografia limitada ao Espírito Santo como seu ponto mais austral de ocorrência. 

Folhas de Avicennia germinans (mangue preto ou siribeira) – Ribeirão de Guriri – RJ

Em 1987, Flávia Rebelo registrou o gênero na foz do rio Macaé, mas não determinou a espécie, recomendando estudos neste sentido (Relatório técnico sobre o manguezal de Macaé, RJ. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica, 1987). Dez anos depois, minhas andanças em manguezais, para fins de estudo, revelaram uma população significativa de A. germinans na foz deste rio, o que me levou a registrar o fato num relatório sobre a situação dos manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro (“Os manguezais do Norte Fluminense” ─ Entre Câncer e Capricórnio: argumentos em defesa dos manguezais do norte do Estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Xérox do Brasil, 1997). 

Juntamente com Norma Crud, dei notícia da nova área de distribuição num trabalho científico (MACIEL, Norma Crud; SOFFIATI NETTO, Aristides Arthur. Novos limites para a distribuição geográfica de Avicennia germinans (L.) Stern − Avicenniaceae e Montrichardia arborecens (L.) Schott − Araceae, no Rio de Janeiro, Brasil. SIMPÓSIO DE ECOSSISTEMAS BRASILEIROS, 4., Águas de Lindóia, São Paulo, 02 a 07 de abril de 1998. Anais… Águas de Lindoia, SP: Aciesp, 1998, v. 4). Em 1998, incursionando pelos rios das Ostras e São João, acreditei ter deparado com uma população muito jovem de A. germinans no segundo, não contando com elementos seguros para identificá-la. Era um grupo extremamente novo de plantas, tudo indicando ter origem numa leva de sementes flutuantes, já que não foi encontrada nenhuma árvore-mãe da espécie no manguezal. Retornando ao local um ano depois, verifiquei tratar-se de Avicennia schaueriana.

Exemplar de Avicennia schaueriana (mangue preto ou siribeira) – Rio das Ostras – RJ

Cabem as perguntas: de longa data, a espécie está presente nesses pontos, sem ter sido registrada pelos especialistas ou está navegando rumo ao sul? Neste segundo caso, a dispersão estaria ocorrendo naturalmente ou por interferência humana? Tornam-se necessárias mais pesquisas para responder a estas questões com segurança, além de buscar-se também os possíveis fatores limitantes a estabelecerem sua área geográfica.

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