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Uma nuvem pesa toneladas

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

A inteligência artificial parece imaterial. Mas por trás de cada pergunta feita a uma máquina existe uma infraestrutura gigantesca de energia, água, servidores, minerais e conhecimento. Nesse tabuleiro, o Brasil possui peças valiosas. A questão é saber como pretende jogá-las.

Por Rudá Capriles | Editor ECO21

Chamamos de nuvem o lugar onde guardamos fotografias, documentos, mensagens, filmes e, cada vez mais, uma parte considerável de nossa própria inteligência.

O nome é perfeito para criar uma ilusão.

Nuvens parecem leves. Flutuam.

A nuvem digital, não.

Até as palavras flutuam. Para o bem e para o mal. (lembrei de Clarice Lispector)

Uma nuvem pesa toneladas

Tudo consome energia.

Tudo ocupa território.

Tudo começa debaixo da terra.

Tudo depende de minérios.

Antes da inteligência artificial existe o computador. Antes do computador existe a indústria. 

Antes da indústria existem cobre, silício, níquel, lítio, grafite, nióbio e 17 elementos que compõem as terras raras.

A economia aparentemente mais imaterial da história é profundamente material.

O REDATA chegou ao tabuleiro com uma pergunta incômoda: quanto vale, para o Brasil, abrir mão de impostos para atrair uma infraestrutura que consome energia, água, equipamentos e minerais estratégicos? A nova lei suspende tributos federais sobre a aquisição de equipamentos destinados aos data centers e estabelece, entre outras contrapartidas, investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação.

Mas uma contrapartida de investimento não pode ser confundida com soberania tecnológica. Para um país que pretende disputar o futuro digital, desenvolver conhecimento, formar pesquisadores, dominar tecnologias e agregar valor aos próprios recursos minerais não pode ser uma obrigação pontual. Precisa ser uma estratégia permanente.

E então veio o que, neste xadrez, parece um movimento de cavalo: em 15 de setembro, o Brasil colocou em jogo uma política para atrair data centers; no dia seguinte, 16 de setembro, sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A nova legislação colocou no centro do tabuleiro justamente aquilo que alimenta a infraestrutura tecnológica do futuro: pesquisa, beneficiamento, transformação mineral, transferência de tecnologia, inovação e agregação de valor dentro do território nacional.

O movimento do cavalo é assim: não segue em linha reta. Anda em L. Parece afastado da jogada anterior, mas muda completamente a posição das peças.

Talvez seja esse o verdadeiro futurismo brasileiro: não imaginar apenas a nuvem que está por vir, mas perguntar de que matéria ela será feita, quem produzirá essa matéria, quem dominará a tecnologia e onde ficará o conhecimento.

Porque uma nuvem pode parecer imaterial. Mas, no mundo real, ela pesa toneladas.

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