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Um em cada quatro hectares de vegetação nativa da Mata Atlântica é vegetação secundária

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)
  • 24% da vegetação nativa da Mata Atlântica é secundária
  • Nos últimos cinco anos, 60% da supressão ocorreu em vegetação secundária
  • Desde 1985, foram perdidos 5 milhões de hectares de vegetação nativa
  • A agricultura ganhou 11 milhões de hectares em 41 anos
  • A área urbanizada do bioma cresceu 2,5 vezes no período

Um em cada quatro hectares de vegetação nativa existentes hoje na Mata Atlântica corresponde a  áreas que voltaram a crescer após terem sido desmatadas desde 1985. Os dados do MapBiomas mostram que, nas últimas quatro décadas, a Mata Atlântica perdeu 9,7 milhões de hectares de vegetação madura (áreas mapeadas como vegetação nativa desde 1985). Por outro lado, no mesmo período, mais de 8 milhões de hectares de vegetação secundária se estabeleceram em áreas que haviam perdido a cobertura de vegetação nativa. Os dados fazem parte da Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, que reúne informações de 1985 a 2025.

“A regeneração tem um papel fundamental na recuperação da Mata Atlântica, seja por meio da restauração ou da recuperação natural de áreas degradadas. Ao mesmo tempo, é essencial evitar novas perdas de vegetação nativa, tanto de vegetação madura quanto secundária, especialmente em um bioma tão fragmentado e historicamente pressionado pela ocupação humana.” comenta Natalia Crusco, coordenadora técnica da Mata Atlântica do MapBiomas.

Vegetação secundária também é suprimida

A Mata Atlântica é o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa. Em 2025, essa cobertura ocupava 32% do território, enquanto a agropecuária respondia por 63%. Considerando a cobertura de vegetação nativa como um todo, o bioma perdeu 5 milhões de hectares desde 1985, o que representa uma redução de 12%. Rio de Janeiro e São Paulo foram os únicos estados que não apresentaram perda de vegetação nativa nos últimos 41 anos.

A supressão da vegetação nativa na Mata Atlântica apresenta uma tendência de queda ao longo da série histórica. A partir dos anos 2000, a área de vegetação nativa suprimida ficou abaixo de 2 milhões de hectares em cada período de 5 anos.

Mesmo com a regeneração de áreas anteriormente desmatadas, a vegetação secundária também continua sendo suprimida. Entre 2021 e 2025, foram suprimidos 1,2 milhão de hectares na Mata Atlântica: sendo 700 mil hectares de vegetação secundária e 500 mil hectares de vegetação madura. Assim, 60% da supressão ocorrida nos últimos cinco anos atingiu áreas de vegetação secundária. 

Agricultura mais que dobrou de área em 41 anos

A agricultura foi a classe de uso da terra que mais cresceu na Mata Atlântica. Sua área passou de 9,7 milhões de hectares em 1985 para 20,5 milhões em 2025, acréscimo de aproximadamente 11 milhões de hectares, representando 19% da área total do bioma. O bioma concentrava 31% de toda a área agrícola do Brasil em 2025.

Grande parte da expansão, 79% do aumento dessa classe, ocorreu sobre pastagens, que perderam cerca de 11 milhões de hectares no período. A conversão de pastagens em agricultura respondeu por 19% das mudanças de cobertura e uso da terra registradas entre o início e o fim da série histórica.

A soja ganhou 8,7 milhões de hectares em 41 anos e passou a ocupar 11,11 milhões de hectares em 2025, uma área 4,6 vezes maior do que a área registrada em 1985. A cana-de-açúcar avançou 5 milhões de hectares e alcançou 6,15 milhões de hectares,  5,3 vezes a área de 1985. Em 2025, a Mata Atlântica concentrava 25% da soja, 50% da cana-de-açúcar, 68% do café (833 mil hectares)  e 34% do citrus (141 mil hectares) das áreas mapeadas no Brasil.

A silvicultura também avançou. Sua área aumentou 4 vezes desde 1985, com acréscimo de 3,8 milhões de hectares, chegando a 4,9 milhões de hectares em 2025. Nesse ano, metade da silvicultura mapeada no país estava na Mata Atlântica. Paraná e Santa Catarina concentravam 46% da área de silvicultura no bioma.

“A expansão e a intensificação da agropecuária são decisivas tanto para determinar o desmatamento quanto a regeneração. Após duas décadas de avanço da agricultura sobre a vegetação nativa, nos últimos anos a agricultura passou a substituir as pastagens, que passaram a ceder áreas para a vegetação secundária. Esta é a trajetória para o necessário alcance do desmatamento zero e da restauração em grande escala, necessária para garantir serviços ecossistêmicos para a população e a economia do bioma”, comenta Luís Fernando Guedes Pinto, Diretor Executivo da SOS Mata Atlântica. 

Área urbanizada cresce 2,5 vezes

As áreas urbanizadas da Mata Atlântica cresceram 2,5 vezes entre 1985 e 2025. O acréscimo foi de 1,3 milhão de hectares, e a área total chegou a 2,3 milhões de hectares. Mais da metade, 52%, de toda a área urbanizada do Brasil estava no bioma em 2025.

Quanto à extensão das áreas urbanizadas, mais de 80% dos municípios da Mata Atlântica apresentavam menos de mil hectares urbanizados em 2025. Apenas São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba ultrapassavam 30 mil hectares. Os estados de São Paulo, Paraná e Minas Gerais registraram os maiores aumentos absolutos de áreas urbanizadas entre 1985 e 2025.

Expansão urbana e regeneração nas ilhas costeiras

A Mata Atlântica reúne 195 ilhas costeiras, segundo o IBGE. As dez maiores ilhas concentram 78,5% da área insular do bioma e estão localizadas principalmente nas regiões Sudeste e Sul. Apenas a Ilha de Itaparica, na Bahia, fica no Nordeste. As maiores em extensão são a Ilha de Santa Catarina (SC), com 42,1 mil hectares, Ilhabela (SP), com 34,2 mil hectares, e a Ilha de São Francisco (SC), com 26,9 mil hectares.

Em 2025, a vegetação nativa ocupava 70% da área conjunta das dez maiores ilhas da Mata Atlântica. Entre as classes antrópicas, a área urbanizada era a classe mais representativa, correspondendo a 10,3% da área total dessas ilhas.

Seis das dez maiores ilhas perderam vegetação nativa entre 1985 e 2025. Em quatro delas, a área urbanizada mais que dobrou: o crescimento foi de 14,5 vezes na Ilhabela, 6,4 vezes em Itaparica, 3,6 vezes em São Francisco e 2,4 vezes na Ilha de Santa Catarina. Ilha Comprida e Ilha de Santo Amaro, ambas em São Paulo, também perderam vegetação nativa, mas tiveram crescimento urbano proporcionalmente menor, 98% e 53%, respectivamente. Essa expansão das áreas urbanizadas ocorreu principalmente sobre áreas já antropizadas, como mosaico de usos e pastagem.

Por outro lado, quatro das dez maiores ilhas apresentaram aumento da área de vegetação nativa entre 1985 e 2025: Ilha das Peças (PR), Ilha do Cardoso (SP), Ilha do Superagui (PR) e Ilha Grande (RJ). Considerando a área conjunta dessas quatro ilhas, a cobertura de áreas naturais aumentou  1,7% no período.


Sobre a Coleção 11: A Coleção 11 de mapas anuais de cobertura e uso da terra no Brasil, inclui o mapeamento de 33 classes de 1985 a 2025, com quatro novas classes. Estas e outras novidades podem ser acessadas gratuitamente por todos os públicos em https://plataforma.brasil.mapbiomas.org/.

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