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Uma síntese sobre o que o novo relatório IPCC significa para o Brasil

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Uma seleção de implicações importantes para o Brasil do relatório do Grupo de Trabalho 2 do IPCC 

 
1. O calor e a umidade ultrapassariam os limites da capacidade de sobrevivência humana sem cortes nas emissões 

Globalmente, o calor e a umidade criarão condições além da tolerância humana, se as emissões não forem reduzidas, e o Brasil está entre os lugares que vivenciariam condições cada vez mais perigosas. 

O relatório se refere à temperatura do bulbo úmido, uma medida que combina calor e umidade. Uma temperatura do bulbo úmido de 31°C é extremamente perigosa para os humanos, enquanto um valor de 35°C é insuportável por mais de cerca de seis horas, mesmo para adultos em forma e saudáveis que descansam à sombra. Mesmo abaixo desses níveis, o calor pode ser mortal, especialmente para pessoas idosas ou jovens ou para aqueles que fazem trabalho físico ao ar livre. 

Se as emissões forem reduzidas apenas ao ritmo que os governos atualmente planejam, grande parte da região amazônica experimentará temperaturas de 32°C de 1-12 dias por ano, de acordo com um estudo citado pelo relatório. Ainda segundo o mesmo estudo, se as emissões forem altas, a maior parte do Brasil experimentará temperaturas de 32°C por pelo menos um dia por ano, com algumas partes do Norte e do Centro-Oeste do Brasil sujeitas a estas condições perigosas por até 30 dias por ano – e algumas partes do Nordeste atingindo valores fatais de 35°C. 

Se as emissões continuarem a aumentar, as mortes por calor no Brasil aumentarão 3% até 2050 e 8% até 2090, de acordo com um estudo citado pelo relatório; isto pode ser reduzido a um aumento de 2% se as emissões forem rapidamente reduzidas. O efeito ilha de calor urbano exporá particularmente as pessoas no Rio de Janeiro e em São Paulo ao calor perigoso. 

2. Secas e enchentes devastarão as casas e os meios de subsistência no Brasil 

 
A seca é uma ameaça crescente em algumas partes do Brasil: 65% a mais do Nordeste sofreu seca em 2010-2019 em comparação com 1950-1059 e espera-se que a mudança climática impulsione mais aumentos na seca. Prevê-se que as chuvas diminuam ainda mais 22% no Nordeste neste século se as emissões forem elevadas, e as secas se tornarão mais frequentes e afetarão áreas maiores no sul da Amazônia. Até 2100, o aquecimento é projetado para reduzir em 27% o fluxo para a bacia do Tapajós e 53% para a bacia do Araguaia-Tocantins (tributários da Amazônia).  

Como resultado dessas mudanças, juntamente com o desmatamento e os impactos diretos do maior calor, metade da floresta tropical amazônica poderia se deslocar para pastagens secas, se as emissões continuarem a aumentar, com consequências devastadoras. A mudança da floresta tropical amazônica para pastagens secas poderia causar reduções da precipitação de 40% e quebrar a circulação de monção sul-americana. 

Enquanto se projeta que a pluviosidade geral diminuirá em grande parte do Brasil, os eventos de chuvas fortes deverão aumentar, o que significa que um aumento nas enchentes e deslizamentos de terra é provável. O maior risco de inundações mais frequentes e extremas será nos estados do Acre, Rondônia, Sul do Amazonas e Pará. Mesmo com cortes rápidos de emissões, a população afetada pelas enchentes no Brasil deverá dobrar ou triplicar. 

3. A produção de alimentos será afetada pelas mudanças climáticas 

Globalmente, altas temperaturas e eventos climáticos extremos, como secas, ondas de calor e enchentes, estão prejudicando as culturas. O relatório do IPCC sugere que estes fatores prejudicarão a agricultura no Brasil se as temperaturas continuarem a subir. A produção de arroz poderia cair 6% com altas emissões ou 3% com cortes rápidos de emissões, a produção de trigo poderia cair 21% com altas emissões ou 5% com cortes rápidos de emissões, e a de milho em 10% com altas emissões ou 6% com cortes rápidos de emissões, segundo um estudo citado pelo relatório. 

Estes números poderiam até mesmo estar subestimados – a produção de milho poderia cair até 71% até o final do século no Cerrado se as emissões continuassem a aumentar, ou 38% se as emissões fossem reduzidas, mas apenas tão rapidamente quanto as políticas atuais exigem, de acordo com um estudo citado pelo relatório. A combinação de emissões continuando a aumentar e o desmatamento local poderia causar uma queda de 33% na produção de soja e pastagens na Amazônia Legal, de acordo com outro estudo citado pelo relatório. 

O estresse pelo calor também pode reduzir o crescimento animal, a produção de leite e ovos e aumentar a mortalidade de animais. Atualmente, o gado está raramente sujeito a estresse térmico extremo na maior parte do Brasil, mas se as emissões continuarem a aumentar, o gado e as galinhas enfrentarão estresse térmico durante a maior parte ou todo o ano em grande parte do país, enquanto os suínos enfrentarão estresse térmico durante a maior parte ou todo o ano em algumas partes do país; se as emissões forem reduzidas rapidamente, o gado e as galinhas enfrentarão estresse térmico em alguns locais por muito menos de um terço do ano, e os suínos enfrentarão pouco estresse térmico. 

A mudança climática também prejudicará a pesca e a aquicultura no Brasil. Se as emissões forem altas, a produção de peixes no Brasil cairá 36% em 2050-2070 em comparação com 2030-2050, enquanto a produção de crustáceos e moluscos será quase extinta, diminuindo 97% no mesmo período, de acordo com um estudo citado pelo relatório.  

4. O Brasil enfrentará graves prejuízos econômicos se as emissões não forem reduzidas rapidamente. 

O PIB per capita do Brasil já é menor – em cerca de 13,5% – do que teria sido sem o aquecimento causado pelo homem desde 1991, segundo um estudo citado pelo relatório do IPCC. O Brasil é um dos países mais prejudicados economicamente pela mudança climática, com cada tonelada de dióxido de carbono emitida globalmente custando ao país cerca de US$24 por causa dos efeitos da mudança climática, de acordo com um estudo separado citado pelo relatório. Em 2021, o mundo emitiu 36,4 bilhões de toneladas de dióxido de carbono.  

O aquecimento contínuo prejudicará ainda mais a economia do Brasil, particularmente se as emissões não forem eliminadas rapidamente. O calor reduzirá a capacidade de trabalho, particularmente na agricultura, onde cairá 24% se as emissões aumentarem rapidamente, ou 9% se as emissões forem reduzidas rapidamente, segundo um estudo citado pelo relatório. O efeito global da continuidade das altas emissões poderia ser a redução da renda média global em 23%, com renda média no Brasil 83% menor em 2100 do que seria sem a mudança climática, de acordo com um estudo citado pelo IPCC. 

 
5. O Brasil será atingido pelos efeitos de eventos extremos que acontecem em outros lugares 

Enquanto o Brasil será atingido pelos efeitos das mudanças climáticas que ocorrem dentro de sua fronteira, ele também será profundamente afetado pelas consequências das mudanças que acontecem em outros lugares. 

Por exemplo, as mudanças climáticas atingirão as cadeias de abastecimento, mercados, finanças e comércio internacionais, reduzindo a disponibilidade de bens no Brasil e aumentando seu preço, bem como prejudicando os mercados para as exportações brasileiras. Os choques econômicos causados pelas mudanças climáticas, incluindo a redução dos rendimentos agrícolas, os danos à infraestrutura crítica e os aumentos de preços das commodities, podem levar à instabilidade financeira. Altos níveis de aquecimento poderiam causar um declínio do PIB global de 10-23% até o final do século, comparado a um mundo sem aquecimento. Várias grandes economias poderiam ver declínios econômicos ainda maiores por causa da mudança climática, com um estudo citado no relatório estimando perdas do PIB até o final do século de até 42% na China e 92% na Índia, se as emissões forem altas. 

A mudança climática já está prejudicando as cadeias produtivas. Por exemplo, as inundações na Tailândia em 2011 atingiram a produção de semicondutores, fazendo com que a produção industrial global caísse 2,5% e os preços dos discos rígidos aumentassem 80-190% (pesquisa separada, não incluída no IPCC, descobriu que a mudança climática tornou mais intensas as chuvas que causaram essas inundações). Este tipo de ruptura provavelmente se tornará mais comum, especialmente se as emissões forem altas, pois chuvas mais fortes, tempestades mais fortes e elevação do nível do mar levarão a mais inundações nos portos e outras infraestruturas costeiras críticas. Em novembro de 2021, após a elaboração do relatório, as inundações no Canadá, o fechamento de estradas e ferrovias atrasaram os embarques que chegavam ao Porto de Vancouver, que cuida da maior parte das exportações de grãos do país. Isto significou o retorno de navios à Ásia com contêineres vazios, devido à falta de espaço para armazenar os contêineres, resultando em atrasos adicionais para as exportações do Canadá e impactando o transporte marítimo internacional.  

O fornecimento internacional de alimentos também está sob ameaça. Os riscos de falha generalizada das colheitas devido a eventos extremos que atingem vários lugares globalmente aumentarão se as emissões não forem reduzidas rapidamente. Isto poderia levar à escassez global de alimentos e ao aumento de preços, o que prejudicará particularmente as pessoas mais pobres e aumentará o risco de agitação social. Por exemplo, para o milho, a probabilidade de perder 10% ou mais da safra em vários lugares do mundo em um mesmo ano aumenta de perto de 0% sob o clima atual para 86% se as emissões continuarem a aumentar – mas pode ser limitada a apenas 7% se as emissões forem reduzidas rapidamente. Ameaças ao abastecimento de alimentos e disponibilidade de água, devido à contínua mudança climática, podem aumentar o risco de agitação social e conflito armado, particularmente em países mais pobres, embora outros fatores também sejam importantes. 

VEJA O RELATÓRIO NA ÍNTEGRA

https://www.ipcc.ch/report/ar6/wg2/

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