O histórico edifício da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro, foi palco de um debate estratégico sobre o futuro da agenda climática global e o papel que o Brasil poderá desempenhar nos próximos anos.
Símbolo da liberdade de expressão e de alguns dos grandes debates nacionais, a ABI recebeu, na última sexta-feira, a primeira coletiva presencial da nova diretoria da Associação dos Correspondentes de Imprensa Estrangeira no Brasil (ACIE).
Mediado por Diana Kinch, recém-eleita presidente da ACIE, o encontro reuniu duas importantes referências brasileiras na agenda climática: Ana Toni, CEO da COP30 e Secretária Nacional de Mudança do Clima, e Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e enviada especial do setor privado para a COP30.
A discussão teve como eixo as perspectivas para as próximas Conferências das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e o desafio de consolidar uma nova imagem internacional para o país: a de um Brasil que não deve ser percebido apenas por suas vulnerabilidades ambientais, mas também por sua capacidade de oferecer soluções concretas para a crise climática.
O Brasil como provedor de soluções
Marina Grossi destacou o papel do setor empresarial brasileiro na construção dessa transição. À frente do CEBDS, organização que reúne algumas das principais empresas que atuam no país e integra redes internacionais dedicadas ao desenvolvimento sustentável, ela defendeu maior articulação entre empresas, governos, instituições financeiras e sociedade civil.
Um dos eixos apresentados foi a plataforma “O Brasil das Soluções”, criada para mostrar ao mundo iniciativas brasileiras capazes de contribuir para o enfrentamento das mudanças climáticas.
“O Brasil é uma liderança na área de mudança do clima e um provedor de soluções na área de energia, agricultura, florestas e saneamento”, afirmou Marina.
A proposta é evidenciar experiências brasileiras em áreas como conservação ambiental, energia renovável, agricultura sustentável, economia circular, saneamento e soluções baseadas na natureza, aproximando projetos, empresas, investidores e instituições financeiras.
Marina também ressaltou o trabalho do CEBDS na incorporação e adaptação de metodologias internacionais à realidade brasileira, incluindo instrumentos para mensuração das emissões de gases de efeito estufa e modelos voltados à transição para uma economia de baixo carbono e mais circular.
Da negociação climática à implementação
Ana Toni apresentou uma perspectiva sobre o atual estágio da diplomacia climática internacional após participar de encontros preparatórios relacionados às próximas conferências.
Segundo ela, o multilateralismo climático passa por um momento de diferentes velocidades. De um lado, permanecem as negociações formais entre os países, marcadas pela necessidade de consenso e pelas dificuldades impostas pelo cenário geopolítico. De outro, cresce uma agenda de implementação que envolve governos, empresas, instituições financeiras, cidades, organizações sociais e diferentes coalizões internacionais.
A avaliação é de que o debate climático entrou em uma fase na qual os compromissos assumidos precisam ser transformados em políticas públicas, investimentos e ações concretas.
Nesse contexto, o Brasil vem trabalhando na construção de Mapas do Caminho — os chamados Roadmaps — destinados a orientar algumas das principais frentes da agenda climática internacional.
Entre elas está a transição energética, com o desafio de reduzir progressivamente a dependência global dos combustíveis fósseis e acelerar a expansão de fontes de energia de menor impacto climático.
Outro eixo envolve o combate ao desmatamento e à degradação florestal, questão especialmente estratégica para países detentores de grandes áreas de vegetação nativa, como o Brasil.
A terceira frente está relacionada ao financiamento climático, considerado indispensável para que países em desenvolvimento possam transformar metas ambientais em políticas concretas de mitigação, adaptação e desenvolvimento sustentável.
Cooperação além das fronteiras
As participantes também ressaltaram que a crise climática não pode ser enfrentada apenas dentro das fronteiras nacionais.
Marina Grossi mencionou iniciativas de cooperação entre o Brasil e países vizinhos voltadas à proteção da Amazônia, partindo da compreensão de que o bioma constitui um sistema ambiental integrado, compartilhado por diferentes nações.
Esse tipo de articulação envolve não apenas conservação ambiental, mas também combate às atividades ilegais, proteção das populações locais, desenvolvimento econômico sustentável e fortalecimento das instituições presentes no território amazônico.
A participação das mulheres nos processos decisórios também esteve entre os temas debatidos. Redes internacionais de lideranças femininas vêm buscando ampliar a presença de mulheres nas negociações climáticas e incorporar de maneira mais consistente temas relacionados a gênero, inclusão social e justiça climática às decisões econômicas e ambientais.
Data centers, inteligência artificial e soberania tecnológica
Um dos temas mais sensíveis surgiu durante a sessão de perguntas dos correspondentes estrangeiros: a expansão dos grandes data centers necessários à infraestrutura da Inteligência Artificial e o interesse crescente de empresas de tecnologia em instalar essas estruturas no Brasil.
O país apresenta características particularmente atraentes para esse mercado, sobretudo pela presença de uma matriz elétrica com forte participação de fontes renováveis e pela disponibilidade de recursos naturais.
A discussão, entretanto, vai além da atração de investimentos.
O alerta levantado durante a coletiva foi para o risco de o Brasil oferecer energia, água, infraestrutura e incentivos para grandes instalações digitais sem construir, em contrapartida, capacidade tecnológica própria.
Nesse cenário, o país poderia se transformar em território de processamento para grandes empresas internacionais sem necessariamente incorporar conhecimento, pesquisa, propriedade intelectual e desenvolvimento tecnológico à economia brasileira.
O debate envolve, portanto, uma questão central de soberania digital e tecnológica.
A expansão da infraestrutura de Inteligência Artificial precisa estar articulada a políticas de desenvolvimento nacional, formação de profissionais, pesquisa científica, inovação, transferência de conhecimento e fortalecimento da capacidade brasileira de desenvolver suas próprias tecnologias.
Ana Toni ressaltou que as políticas relacionadas à infraestrutura digital e à Inteligência Artificial não podem ser formuladas isoladamente da política energética e climática.
Grandes centros de processamento de dados demandam volumes significativos de energia e recursos naturais. Por isso, decisões relacionadas à expansão desse setor precisam considerar simultaneamente competitividade econômica, segurança energética, proteção ambiental e soberania tecnológica.
O tema já começa a ocupar espaço nas discussões do Governo Federal, diante da necessidade de estabelecer uma estratégia nacional capaz de compatibilizar a chegada de novos investimentos com os interesses de longo prazo do país.
O desafio de levar a agenda climática para as cidades
Outro ponto discutido foi a dificuldade de incorporar as mudanças climáticas ao centro do debate político cotidiano.
Embora eventos extremos estejam cada vez mais presentes na vida da população brasileira — por meio de secas, enchentes, ondas de calor, incêndios e outros impactos — a pauta climática ainda aparece de forma insuficiente nas discussões eleitorais e na formulação de políticas locais.
Essa ausência é particularmente preocupante porque grande parte das medidas de adaptação acontece justamente nas cidades.
Drenagem urbana, arborização, ocupação do solo, transporte, habitação, saneamento, prevenção de desastres e infraestrutura resiliente são áreas diretamente relacionadas às decisões tomadas por prefeitos, vereadores e administrações municipais.
A agenda climática, portanto, não pode permanecer restrita às grandes conferências internacionais. Ela precisa chegar aos municípios, às políticas públicas locais e às escolhas feitas diariamente pela sociedade.
Do discurso à execução
O encontro realizado na ABI evidenciou que o caminho do Brasil rumo às próximas COPs passa por uma mudança de perspectiva.
O país possui ativos ambientais, energéticos, científicos e produtivos capazes de colocá-lo em uma posição estratégica na transformação da economia mundial. Mas essa vantagem somente terá valor duradouro se estiver associada a uma política de desenvolvimento que combine preservação ambiental, inovação, geração de conhecimento, inclusão social e soberania.
A mensagem que atravessou a coletiva foi clara: o Brasil pode ocupar um papel central na construção das soluções para a crise climática, mas isso exigirá transformar potencial em política pública, projetos em escala, investimentos em desenvolvimento e compromissos internacionais em resultados concretos.
Mais do que chegar às próximas conferências com propostas, o desafio será demonstrar que crescimento econômico e proteção ambiental podem fazer parte de uma mesma estratégia de futuro.



