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NO MUNDO DA LUA: CIÊNCIA, IDEOLOGIA, ESTADO E A BARBÁRIE CONTEMPORÂNEA

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

No dia 8 de abril de 2026, a missão Artemis II marcou um novo capítulo na história da exploração espacial. Pela primeira vez desde o programa Apollo, astronautas retornaram à órbita lunar, alcançando o ponto mais distante da Terra já experimentado por seres humanos, 406.777 quilômetros de distancia de casa. O diretor da NASA celebrou o feito como um marco civilizatório, destacando o isolamento extremo dos tripulantes, dizendo em alguma entrevista que eram naquele momento, os humanos mais isolados da Terra. 

Paradoxalmente, no mesmo momento em que essa parte da humanidade expandia suas fronteiras cósmicas, celebrando sua capacidade de exploração, os astronautas receberam com reverencia e entusiasmo uma ligação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que em pleno flanco de guerra, celebrou e saudou os astronautas de uma forma muito parecida como os monarcas da Espanha devem ter saudado Colombo. Trump, assim como Isabel de Castela e Fernando de Aragão, os reis católicos, como eram conhecidos, tem uma política externa muito parecida, associada a ao uso intensivo de tecnologias bélicas e a expansão territorial com massacres, sequestros de estado e outras estratégias de ampliação de domínio territorial. No caso de Trump. nos chama a atenção, em particular as tecnologias e estratégias derivadas da mesma base tecnocientífica que sempre impulsionou a exploração, seja na escola de Sagres seja na exploração espacial. Trata-se da mesma matriz tecnológica que sempre se desenvolveu com financiamento estatal e que atualizada para os dias de hoje, sustenta não embarcações a vela e canhões de bolas de ferro e sim mísseis balísticos, drones, satélites e sistemas de propulsão utilizados para matar e dominar e garantir a expansão territorial.

Aliás, é sempre bom lembrar que por trás de todo desenvolvimento científico e tecnológico há intenso e fundamental investimento público, fato que contraria o senso comum e os diversos discursos que circulam por aí que sacralizam a iniciativa privada no financiamento científico e tecnológico de forma equivocada, tal como nos ensina Mariana Mazzucato: “Internet, GPS, telas de cristal líquido e sensíveis ao toque, assistentes pessoais ativados por voz – todas estas tecnologias nasceram não no setor privado, mas no seio do Estado.” Ou em outras palavras, “tais investimentos radicais – que embutiam uma grande incerteza – não aconteceram graças a investidores capitalistas ou ‘gênios’ de fundo de quintal. Foi a mão visível do Estado que fez essas inovações acontecerem.” (Mazzucato,  2014). Na verdade, todos esses avanços espaciais e bélicos tem o dinheirinho recolhido dos impostos daquela barraquinha de hot-dog da porta da escola ou do cirurgião plástico ou do professor ou da diarista que limpa as casas da classe média. Seria justo reivindicar que todos esses avanços mirabolantes da ciência deveriam retornar em forma de melhoria da qualidade de vida de todos e todas que os financiam. Sabemos que não é assim.

Um episódio particularmente trágico dessa sanha por poder, dinheiro e muito racismo evidencia essa contradição: o bombardeio de uma escola no Irã, atribuído as operações militares norte-americanas, resultou na morte de 168 meninas, segundo dados da Organização das Nações Unidas e da Agência Brasil. Este fato não apenas explicita a brutalidade da guerra contemporânea, mas também revela a face sombria da ciência e da tecnologia quando instrumentalizadas por políticas de ódio e poder.

Essa tensão já havia sido diagnosticada por Hannah Arendt em sua obra “A Condição Humana”. No primeiro capítulo, Arendt destacou que o mesmo desenvolvimento técnico que permitia ao ser humano escapar da Terra também o distanciava de sua própria condição humana, abrindo caminho para formas inéditas de alienação e destruição. A técnica, portanto, nunca foi neutra: ela carrega implicações éticas e políticas profundas que, em mãos inescrupulosas, instauram “necropolíticas” (2018) que assolam o mundo.

Diante disso, impõem-se questões fundamentais: que ciência queremos? que tecnologias queremos? Uma ciência e tecnologia que se afasta da humanidade ou uma ciência e tecnologia comprometida com sua preservação? 

Nesse ponto, é incontornável recorrer ao Mestre Paulo Freire, que nos lembra “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?” Freire também enfatiza que toda prática social é atravessada por ideologia. A prática tecnocientífica não seria diferente. A questão central não seria a existência da ideologia, mas sua orientação: se ela promove inclusão ou exclusão. No contexto atual, essa reflexão se torna urgente diante do avanço de outro fenômeno bizarro: o negacionismo científico — um fenômeno que, ao negar evidências empíricas e factuais, acaba por negar a própria humanidade e a pretensa e não mais imortal racionalidade. Além do negacionismo, também sublinhamos a inundação do espaço comunicativo com desinformação. Ou seja, nos dias atuais, mesmo diante de desafios ambientais, sociais e climáticos enormes ainda temos que lidar com a geração informações falsas com intencionalidades políticas e ideológicas inescrupulosas.

Ao mesmo tempo, os mercados globais refletem essas tensões. O ouro, tradicional ativo de segurança em tempos de crise, apresenta uma trajetória de forte valorização nos últimos anos. Entre 2020 e 2026, sua cotação acumulou alta superior a 150%, alcançando patamares próximos a US$ 4.700 por onça (Trading Economics, 2026). Esse crescimento está diretamente associado à instabilidade geopolítica e à intensificação de conflitos, especialmente em regiões estratégicas como o Estreito de Hormuz e América Latina.

Da mesma forma, o petróleo mantém preços elevados — cerca de US$ 90 por barril — impulsionado por riscos de interrupção no fornecimento global. Esses movimentos revelam uma economia de guerra que transforma destruição em oportunidades de lucros. Há muita gente ganhando rios de dinheiro com a morte.

As consequências são particularmente graves em territórios periféricos, como a Amazônia. A alta do ouro intensifica o empreendimento garimpo ilegal, ampliando a pressão sobre povos indígenas, ribeirinhos e demais comunidades tradicionais. Esses grupos, historicamente vulnerabilizados e herdeiros da violência colonial, tornam-se ainda mais expostos à violência e à degradação ambiental, enquanto o capital global em seu tradicional oportunismo, se beneficia das instabilidades que ele mesmo cria.

Nesse cenário, a analogia com a colonização não é apenas pertinente — é necessária. Assim como no período colonial, a expansão técnica e econômica ocorre à custa da expropriação e da violência. A diferença é que, agora, essa dinâmica se projeta tanto sobre a Terra quanto sobre o espaço. A figura do “explorador” ressurge, não mais como herói, mas como agente de um processo que precisa ser criticamente revisitado, pois o enredo da história é velho, mas as consequências, dessa vez, serão irreversíveis. Fala-se agora até em ponto de não retorno para Amazônia!

Talvez, como sugere o pensamento de Luiz Rufino, seja necessário inverter a lógica dominante — pensar uma “ciência de ponta cabeça”, capaz de dialogar com saberes ancestrais e cosmologias outras. É possível que, na experiência dos povos indígenas, resida não uma saída da Terra, mas uma saída para a Terra e para humanidade. Esses povos estão tentando nos ensinar há séculos que a verdadeira descoberta da nossa humanidade vem de dentro de nós a partir da comunhão com a mãe terra. Jamais essa comunhão poderá ser compreendida a luz do racionalismo ocidental. Será preciso reaprender a “sentipensar” (1986), gingar, compreender o canto dos pássaros, interpretar a linguagem do vento, sentir o cheiro da terra, nadar como os golfinhos, dar as mãos coloridas e reencontrar encantamento cósmico. 

Entre a Lua e a Terra, portanto, não está apenas uma distância física. Está uma escolha civilizatória.

Sobre os autores

Celso Sánchez
Biólogo
Professor Associado iV da Unirio
Coordenador do Grupo de Estudos em Educação Ambiental Desde El Sur GEASur Unirio

Bruno Monteiro
Físico e Quimico
Professor Associado da UFRJ
Coordenador da Rede Internacional de Estudos Decoloniais na Educação Científica e Tecnológica RIEDECT

Referências

ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

UNITED NATIONS. Reports on civilian casualties in Iran (2026). Disponível em:

https://news.un.org

AGÊNCIA BRASIL. Ataque a escola no Irã expõe horrores da guerra (2026). Disponível em:

https://agenciabrasil.ebc.com.br

Fals Borda, O. (1979–1986). Historia doble de la Costa (Vols. 1–4). Bogotá: Carlos Valencia Editores.

Fals Borda, O. (1986). Retorno a la tierra (Historia doble de la Costa, Vol. 4). Bogotá: Carlos Valencia Editores.

MBEMBE, A. Necropolítica. São Paulo: N-1 edições, 2018. 

TRADING ECONOMICS. Gold Prices (2026). Disponível em:

https://tradingeconomics.com/commodity/gold

INVESTIDOR 10. Histórico da cotação do ouro. Disponível em:

https://investidor10.com.br/commodities/ouro

MAZZUCATO, M. O Estado Empreendedor: desmascarando o mito do setor público x setor privado. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2014, 320p.

U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION (EIA). Oil prices and geopolitics. Disponível em:

https://www.eia.gov

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