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Crise ambiental: raízes remotas e recentes

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Arthur Soffiati

Em 1973, o historiador britânico Arnold Joseph Toynbee publicou um artigo na revista Horizon considerando que a história da humanidade, no mundo atual, não se travava apenas entre sociedades e classes sociais. Um novo campo se abria ao historiador: o das relações entre sociedade e natureza. A Conferência de Estocolmo havia ocorrido no ano anterior.  Emmanuel Le Roy Ladurie havia publicado seu “História do clima desde o ano mil” em 1967, mas, por enquanto, tratava-se de uma história sobre as mudanças climáticas naturais. 

Seja como for, podemos considerar que Ladurie e Toynbee são os historiadores pioneiros da história ambiental. O artigo de 1973 resultou no livro “A humanidade e a mãe Terra”, último livro de Toynbee, publicado postumamente em 1976.

O autor inglês atribui a agressividade da humanidade contra a natureza à tendência inata do ser humano em destruir o ambiente e a passagem do livro do Genêsis, I:26-28: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra. E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra”.

Adão e Eva. Ticiano (cerca de 1550)

Quanto ao primeiro à agressividade, Toynbee teve de explicar por que a humanidade viveu tanto tempo sem agredir a natureza, se ela é inata. Ele justifica que a agressividade só se torna perigosa quando combinada com a passagem do Antigo Testamento, que acabou influenciando judeus, cristãos, muçulmanos e ganhando o mundo com a globalização ocidental.

Fica difícil sustentar as duas motivações apontadas por Toynbee para a crise ambiental, pois, por elas, a agressão humana deveria se manifestar desde as origens da humanidade ou desde as origens da tradição judaico-cristã-muçulmana. Mas a passagem do Gênesis não pode ser descartada completamente se atualizada pela economia de mercado.

E encontraremos atualizações da passagem bíblica a partir do século XV, como a justificar o domínio do mundo humano e não humano pelo homem (leia-se ocidente). Desde o Renascimento, a filosofia ocidental se esforçou por separar a humanidade da natureza, da qual emergiu, com a constituição do grupo zoológico dos primatas e, dentro dele, o dos hominídeos. No fim do século XV, o pensador Picco della Mirandola (1463-1494) escreve: “Diria que os pés são a parte mais desprezível com a qual a alma se apoia na materialidade como em solo próprio, ou seja, a potência nutritiva e alimentar, essa fome de libido e essa mestra da voluntuária indolência.” (“A dignidade do homem”). Os pés representam os instintos e a natureza enquanto  a cabeça é a sede da alma. 

Em outra passagem, o filósofo é mais explicito: “… o Supremo Arquiteto e Pai, Deus, tinha construído, com as leis de sua arcana sabedoria, essa moradia terrestre da divindade, esse augustíssimo templo que, ora, contemplamos; havia decorado a região supraceleste com os espíritos, fizera habitar nos orbes etéreos as almas imortais; povoara as zonas excretórias e feculentas do mundo inferior com toda espécie de animais”. Parece notória a passagem do Gênesis expressa com outras palavra.

Animal e humano segundo tela de Siron Franco

Ainda no mesmo século, Marcílio Ficino (1433-1499), um dos expoentes do Humanismo, declara com orgulho: “Não apenas o homem se serve dos elementos, mas embeleza-os, o que nenhum animal faz. Que admirável a cultura da terra sobre toda a superfície do globo, que espantosa a construção de edifícios e de cidades. Que engenhosa a irrigação das águas… Há um ponto que é preciso notar, é que não é o primeiro que chega que pode descobrir porque ou como uma obra construída com arte por um hábil artífice foi realizada, mas apenas aquele que possui um talento igual.” (“Teologia platônica”). A distinção entre ser humano e natureza torna-se mais evidente.

Francis Bacon, no início do século XVII, adverte que “A natureza não é vencida a não ser obedecendo-lhe”. Parecem cautelosas suas palavras, mas a finalidade delas é ensinar ao ser humano como dominar a natureza.

Com René Descartes (1596-1650), no século XVII, essa separação se consolidou. É por demais conhecida a passagem do “Discurso do método’ de 1637: “… tão logo adquiri algumas noções gerais relativas à Física, e, começando a comprová-las em diversas dificuldades particulares, observei até onde podiam conduzir e o quanto são diferentes dos princípios que foram utilizados até o presente, julguei que não podia mantê-las ocultas sem, com isso, pecar enormemente contra a lei que nos obriga a buscar, no que depende de nós, o bem geral de todos os homens. Elas me fizeram ver que é possível chegar a conhecimentos que sejam úteis à vida, e que, em lugar dessa Filosofia especulativa que se ensina nas escolas, se pode encontrar uma Filosofia prática, pela qual, conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente como conhecemos os diversos misteres dos nossos artífices, poderíamos empregá-los da mesma maneira em que todos os usos para os quais são adequados, e, assim, tornar-nos como que senhores e possuidores da natureza.” (Discurso do Método).

O pensador afasta a filosofia especulativa que ainda era ensinada nas escolas, invoca a ciência e proclama o reinado do ser humano sobre a natureza. Os empresários europeus e de todo o mundo, assim como a maioria esmagadora da população mundial, não leram Descartes. Tampoco ele se consideraria porta-voz dos interessados em manipular a natureza sem culpa. O ambiente de negócios é que acabou criando um ambiente favorável ao pensador. Ele retira os freios que impediam a exploração ilimitada da natureza.

Nos pensadores mencionado estão, de um lado, o homem, a mente, a razão matemática e monológica. De outro, o animal, o corpo, os instintos, os comportamentos inatos. Com raras exceções discordantes, essa separação atravessou os séculos XVI, XVII, XVIII e XIX. Neste último, contudo, as pesquisas de Charles Darwin (1809-1882) sobre a seleção natural conduziram à conclusão de que a humanidade tem origem animal e de que o animal revela alguns comportamentos humanos. Mas o impacto da contribuição de Darwin só seria sentido devidamente no século XX. No tempo em que viveu, no século XIX, Blumenbach (1752-1840) ainda exclamava triunfante: “O homem nasceu destinado pela natureza a ser o animal mais completamente domesticado; os outros animais domésticos foram primitivamente conduzidos a esse estádio de perfeição pelo homem. Ele é o único a conduzir-se a si próprio para essa perfeição.”

O argumento principal dos defensores da separação cartesiana entre animais e humanos é que estes carecem de algo flexível fora dos instintos, que é a aprendizagem, e algo além do comportamento determinado que se chama cultura. A etologia, ciência que estuda o comportamento animal, mostra que sociedade é um fenômeno comum na natureza, que os sistemas de comunicação animal são mais sofisticados do que se imagina, que os animais aprendem não apenas no âmbito de suas espécies como também com experiências promovidas por humanos, que os animais criam comportamentos como resposta aos desafios impostos pela natureza ou casualmente e que os animais podem criar cultura material. Em resumo: a natureza é mais complexa do que se supõe e do que se possa supor.

Caçada na floresta – Paolo Uccelo (cerca de 1470)

Edgar Morin formulou uma excelente analogia sobre a ligação entre animal e humano, entre natureza e cultura num artigo dos anos de 1970, intitulado “O complexo de Adão e o Adão complexo”. Explica ele que o antropocentrismo dos últimos 500 anos levou o pensamento ocidental a encerrar o ser humano (Adão) num pedaço de terra que se julgava ilha para afastá-lo do continente da animalidade. A ilha, contudo, era pura ilusão. Ela continuava ligada ao continente na forma de península. Foram as brumas do dualismo que cobriram o istmo e deram a impressão de ilha. Dissipadas as brumas, a península passou novamente a ser vista, tanto quanto a ligação entre animal e ser humano. (“A unidade do homem: invariantes biológicas e universais culturais”).

Assim, o novo paradigma naturalista organicista, agora com base nas ciências, não apenas contesta o paradigma naturalista mecanicista, como também descobre o istmo que liga a natureza ao ser humano. A sociedade não é exclusividade da humanidade. Ela é um fenômeno amplamente encontrado em outros animais. Daí a etologia mostrar que o fenômeno da cultura não é exclusivo das sociedades humanas, mas que, pelo menos, uma protocultura pode ser encontrada em certas espécies animais. E a natureza é muito mais do que o mundo animal.

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