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Um naturalista alemão no noroeste fluminense

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

por Arthur Soffiati

Saindo do Rio de Janeiro em direção a Minas Gerais em setembro de 1850 pelo caminho da serra, o naturalista alemão Hermann Burmeister passou por Nova Friburgo, Cantagalo e chegou à Aldeia da Pedra, atual Itaocara, originalmente redução indígena erigida na confluência do rio Pomba com o rio Paraíba do Sul. A floresta tropical deixou o estudioso completamente fascinado. Árvores altíssimas, troncos grossos, complexidade interna jamais vista nas bem comportadas florestas temperadas da Europa, rica biodiversidade e tantas outras características o levaram a não poupar elogios àquela vegetação exuberante que custa a nós, atualmente, crer tenha existido em região hoje em processo de degradação.

Passando pelo cume da Serra do Mar, ele pôde perceber com clareza a diferença entre a vegetação de altitude e as matas estacionais do vale do rio Pomba. É com muito deleite que seu espírito romântico descreveu as matas. Mais de um século após sua jornada pelos então bravios sertões do Pomba, suas palavras fascinam o leitor e enchem de saudade os amantes da natureza. Vamos lê-las:

“A selva era muito diferente da mata que até então encontráramos, em regiões mais elevadas e montanhosas, nas faldas e nos cumes, menos vigorosa. Não somente eram mais altas, mas também mais majestosas, e o matagal e as moitas tão densos que não se podia ver as altas copas. Eu, que já conhecera exemplares gigantescos nas matas brasileiras, admirei, surpreso, os colossais troncos, que ali havia, e a densidade das árvores menores e mais delgadas, que os rodeavam. Era impossível distinguir-se, por entre a cerrada folhagem de suas copas e o entrelaçamento de suas ramagens, a forma destacada de uma delas. Nas abertas, entre os troncos, onde não havia vegetação menor, é que se podia ver o quanto estes eram altos. Tive ocasião de medir uma árvore abatida, que apresentava a grossura de 2 3/4 polegadas e o comprimento de 32 pés até os primeiros galhos. A mais grossa que vi devia medir uns 8 pés de diâmetro; estava perto de uma choupana de ‘puris’, mato adentro. Nessa parte da selva não encontrei uma só flor, nenhuma orquídea ou bromeliácea balouçava aí nos galhos das árvores, sob o impenetrável teto verde que cercava a vista. Nos pontos mais elevados dos troncos não se via outra coisa senão uma densa rede de folhas oscilando nas alturas.”

Quem diria que o naturalista se refere ao escalvado noroeste fluminense? No caminho para Minas Gerais, Hermann Burmeister e sua caravana encontraram um grupo de puris na Serra das Frecheiras. Decidiram ali passar a noite. Ocorreu, então, um episódio singular: os nativos dançaram para os viajantes e estes retribuíram a cortesia. Sem mencionar as considerações preconceituosas do naturalista alemão, vamos ouvir parte do seu relato sobre a festa: “Junto ao fogo que ardia na lareira, a dança começou. Os homens avançavam em fila e pulavam em tempos diferentes, movendo, alternadamente, os braços. Assim, chegavam cantando até perto do fogo, onde voltavam para o ponto de partida. Os meninos seguravam os pais nos quadris, imitando-lhes os movimentos. O canto, muito nasalado, consistia em sons guturais monossilábicos. Enquanto os homens faziam seus movimentos rítmicos avançando e retrocedendo, sempre virando as costas ao fogo quando voltavam, as mulheres e as meninas, de lenço à cabeça, ficavam ao fundo, iluminadas por um menino que segurava um archote de madeira, cantando a meia voz, melodia semelhante e batendo, ao mesmo tempo, com os pés, como se marcassem compasso. Quando os homens cessavam o canto, as mulheres silenciavam também, o menino apagava seu archote com a maior rapidez e todos se misturavam.”

            “A dança dos puris é a vida idealizada por eles, pois, na realidade, ela se compõe de trabalho e miséria, enquanto, na dança, é figurada como prazer e alegria. Para divertir os puris e acalmá-los um pouco, eu comecei a cantar algumas canções estudantis e o doutor secundava-me. O maior aplauso recebeu o dueto de ‘Don Juan’, ‘Dá-me a mão, oh vida!’, que eu e o doutor cantamos. Ambas as nossas vozes, o baixo profundo do doutor e o meu barítono, elevaram-se na noite silenciosa, admiradas pela assistência emudecida, e foi, decerto, pela primeira vez que na selva da serra das Frecheiras ressoaram as melodias de Mozart.”

            “Mas, aos poucos, todos se sentiram cansados e adormeceram. Nossos anfitriões, tão alegres quão atenciosos, prepararam-nos esteiras para o repouso. Somente um pequeno de dois anos não queria dormir, apesar das tentativas da mãe. Tive pena dele e consegui embalá-lo no sono com a velha canção de berço alemã ‘A vaca malhada’. Finalmente, fui o último a dormir e passei uma ótima noite ao lado dos puris.”

            Foi um encontro memorável digno de nota.

Embora seu interesse fosse mais voltado para borboletas e confessasse dificuldades em observar as florestas do rio Pomba mais detalhadamente por marchar em montaria no meio de caminho perigoso, não sei de descrição mais completa da estrutura de uma floresta tropical de quantos passaram pelo Noroeste Fluminense, figurando nela os estratos florestais, o epifitismo e o microclima. Isto sem falar na identificação de espécies vegetais, que não convém mencionar aqui.

Na passagem abaixo, selecionada entre tantas, cada qual mais rica que a outra, encontramos o Burmeister romântico e contemplativo. Comparando a vegetação nativa de regiões elevadas com a floresta estacional, ele se extasia:

“De um lado, temos a natureza verdejante, frágil, graciosa e alegre, que atrai e encanta; de outro, a formação gigantesca, majestosa e serena, que nos enche de deslumbramento e contrição e que convida a meditações sérias, como se entrássemos numa catedral gótica de impressionantes proporções. Não há outro sentimento que se possa comparar ao que se apossou de mim, ao atravessar e contemplar a selva brasileira, senão o que me invadiu quando, extasiado, admirei as catedrais de Colônia e Magdemburgo, Notre Dame ou Westminster. Se era a obra do homem que aí me impressionava pela sua perfeição e inspiração, era aqui a natureza viva, que, em sua atividade incessante, produz as maiores maravilhas concebidas pela imaginação humana (…) As impressões profundas que ali recebi fizeram empalidecer qualquer outra até então sentida. Mesmo hoje, ao escrever estas linhas e ao rememorar o aspecto majestoso da paisagem, não posso deixar de sentir-me impressionado. Lembro-me ainda do êxtase que de mim se apoderou quando contemplei e senti a profunda paz daquela mata silenciosa, através da qual a vereda seguia sinuosa, ora mergulhando nas sombras, atrás de uma árvore, ora surgindo mais nítida, a pouca distância, fazendo mil e uma voltas e perdendo-se de vista a cada instante, devido à meia luz e à impenetrabilidade da selva.”

            Inúmeras são as passagens relativas às selvas tropicais estacionais no relato de Burmeister e a sua leitura nos convida à reverência. Mas, à medida que subia o rio Pomba, sua visão foi mudando. Ele e sua comitiva foram encontrando imensas áreas desmatadas e indígenas que transportavam toras valiosas pelos rios Pomba e Paraíba do Sul em direção a Campos.

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