por Samyra Crespo ||
Eu achava, e devo ter me enganado que depois do bordão “ame-o ou deixe-o” dos anos de chumbo, bastava “não ter medo de ser feliz”, e corrigir os erros históricos.
Votando em governos progressistas, evidentemente.
Entre eles, os erros, desmobilizar o desenvolvimentismo predatório e militar pelo “desenvolvimento sustentável”.
Foi nessa crença, esforço e suor que gastei a energia dos meus últimos 30 anos.
Por isso estou muito brava hoje.
Bravura de onça!
Tomo café brava, durmo e acordo brava. Não é saudável.
Amigos do jornalismo ambiental independente me avisam que o retrocesso na seara da legislação protetiva do meio ambiente está indo pelo ralo.
Três iniciativas são especialmente danosas e ferem de morte o projeto de um Brasil sustentável.
A primeira diz respeito a mais de 400 processos de solicitação de mineração em curso (exame prévio para licença), que vão atingir um dos maiores patrimônios ambientais do país, nada mais nada menos que o monumento natural que conhecemos como Parque da Chapada dos Veadeiros: agora o nome da nova ganância se chama “minerais críticos”, estratégicos ou ”terras raras”.
E todo o crime vai se configurando a toque de caixa!
A gente está se entupindo de raiva pelo caso Master, e nosso meio ambiente sendo atacado sistematicamente: sabemos bem por “quem”.
É preciso que tenhamos atenção nisso, já conhecemos o perfil do Congresso e dos lobbies que atuam nele.
A segunda má notícia é sobre a desafetação de porções de parques nacionais e outras áreas protegidas. A sanha de “desafetar” (tirar as restrições de uso) recai agora sobre o Parque Nacional do Itatiaia, o mais antigo do Brasil. Uma vergonha!
A terceira é a tentativa de anular a capacidade tecnológica que adquirimos de detectar desmatamentos ilegais e embargar propriedades infratoras por meio de monitoramento digital e imagens via satélite.
Novamente, mais uma vez está envolvido esse Congresso movido a vapor (e sabor) da poderosa bancada do ”’agro”.
Funesta e predatória ação que tenta impedir os embargos.
Temos um ministro ambientalista, temos números robustos para mostrar nos eventos internacionais que atestam a diminuição do desmatamento da Amazônia, mas infelizmente o formato da nossa agenda é o de peneira que tentamos preencher com água.
Análises e mais análises podem ser feitas para explicar a problemática.
Mas não acham que está na hora de trabalhar pela “solucionática”?
Temos que, urgentemente, identificar e trabalhar para eleger deputados e senadores ambientalistas.
Campanha já!
SOBRE A AUTORA

Samyra Crespo | Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.



