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Nave Santa Maria: O nascimento de uma lenda

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Entrevista com o Comandante Simone Sacco

Atracada no Rio de Janeiro, a Nave Santa Maria é muito mais do que uma embarcação clássica e será uma das principais atrações da Rio Ocean Week 2006, que acontece de 16 a 20 de setembro, no Museu do Amanhã. 

A embarcação de bandeira panamenha operada pela Fundação SECUTOR da Itália une tecnologia de ponta e tradição naval em expedições científicas e educativas que resgatam jovens por meio da força do mar. Ela é o coração de um projeto audacioso que une pesquisa científica, produção de documentários e, acima de tudo, a formação humana. Financiada com recursos próprios, a embarcação recruta jovens das mais diversas origens, oferecendo-lhes uma nova perspectiva de vida através da exploração oceânica. O veleiro funciona como uma escola flutuante, dedicada a formar uma nova geração de jovens livres dos condicionamentos da sociedade moderna.  Nesta entrevista, o Comandante Simone Sacco detalha a transformação do navio, os desafios dos oceanos e a missão de explorar a imensidão azul.

Comandante, a Nave Santa Maria é uma embarcação única, operada por uma fundação privada. Qual é o verdadeiro propósito deste projeto e por que ele é oferecido de forma totalmente gratuita aos tripulantes?

Comandante Simone Sacco: O propósito desta embarcação é ser um navio explorador, de pesquisa e de treinamento. Somos a única embarcação no mundo, de propriedade privada, que faz isso dessa forma. A ideia começou a tomar forma em 2010, quando senti a necessidade de compartilhar meu conhecimento. Eu queria dar aos jovens a oportunidade de serem livres e de verem o mundo sob um ponto de vista diferente. Para isso, a única solução era trazê-los a bordo. O navio os desconecta da terra, limpa a mente e os afasta de coisas perigosas, como as drogas e o condicionamento extremo das redes sociais. Eu levo jovens de 16 a 35 anos e faço isso de graça porque quero dar oportunidade a qualquer um. O dinheiro tem que ser respeitado, mas não é o ponto central. O ponto é a liberdade e a felicidade. Divido essa visão com a Laura Dekker, famosa exploradora oceânica que conheci em 2021. Depois do encontro, tive certeza de que tinha encontrado uma quase clone de mim mesmo, com os mesmos ideais, o mesmo caráter e a mesma visão. Desde então, nossos destinos se ligaram, tanto que unimos forças e também nossas famílias. Laura é minha inspiração, e que faz um trabalho semelhante com os mais jovens em outra embarcação nossa, o brigue Guppy. Laura também é comandante da Nave Santa Maria na minha ausência.

A engrenagem principal da Santa Maria não é o seu motor, mas as pessoas a bordo, uma família. Sacco tem uma política de recrutamento incomum: ele prefere não embarcar marinheiros profissionais.

Como funciona o treinamento dessa tripulação, considerando que muitos vêm de realidades tão distintas?

Comandante Simone Sacco: É muito curioso, mas eu não quero ter a bordo profissionais. Não quero ter que consertar pessoas que já estão prontas; tenho que consertar pessoas que precisam de ajuda. O desafio é ter a melhor tripulação do mundo começando do zero. Pego pessoas de todos os tipos de ambiente, desde escolas navais europeias até jovens resgatados das ruas: meu chefe de máquinas era motorista de ônibus, meu piloto era skatista, temos uma soldadora naval certificada que era tatuadora. A regra é clara: disciplina militar, nada de drogas, é preciso usar uniforme e manter a limpeza. Se você estiver dentro das regras, não me importo se tem piercings ou cabelo azul. A bordo, o mais velho ensina o mais novo. Eu faço simulações de emergência, como combate a incêndio ou de homem ao mar para treiná-los. O segredo para fazer tudo funcionar é deixá-los sentir que são uma família. Há uma grande empatia e amor ao próximo. Eles vivem a bordo 24 horas por dia e o navio se torna a casa deles.

De fato, o navio oferece um ambiente familiar baseado na boa convivência e no ensino mútuo, onde os mais velhos treinam os mais novos.

O navio não foi originalmente construído para essa missão. Como foi o processo de adaptação e retrofit da Santa Maria?

Comandante Simone Sacco: Este foi o maior retrofit já feito em uma embarcação à vela na história. O navio foi construído em 1964 pelo estaleiro Jonker & Stans, na Holanda, como um pesqueiro “arctic cutter”, uma embarcação de pesca motorizada para o Ártico. No entanto, eles usaram o projeto de casco de uma brigantina à vela. Quando a encontrei em 2015, ela não tinha mastros. A restauração durou quatro anos e foi feita no pequeno porto de Den Oever, no norte da Holanda, com a ajuda da Luyt Machinefabriek e estaleiros locais, voluntários e doações de materiais de empresas europeias como o ferro-velho naval Smedegaarden na Dinamarca. Precisávamos de um navio com um porão grande, um motor enorme, forte capacidade em mares pesados e espaço para equipamentos modernos e antigos. A Santa Maria era a única que correspondia a essas necessidades.

Hoje vivemos em uma era de automação. Como vocês integram o estilo clássico do navio com as necessidades tecnológicas modernas?

Comandante Simone Sacco: Nós compartilhamos o antigo e o moderno ao mesmo tempo. É como o Nautilus, do Capitão Nemo. Tudo tem que parecer antigo, mas a infraestrutura é de ponta. Somos o veleiro tecnologicamente mais avançado do mundo. Temos seis computadores em rede que gerenciam desde as velas até os sonares e o sistema meteorológico. Temos sonares 3D e CHIRP, além de drones marítimos. Por outro lado, usamos equipamentos tradicionais e sistemas de comunicação antigos, como rádio goniômetro e Telex, integrados a três conexões diferentes de satélite. Nosso sistema de guinchos para as velas são hidráulicos, adaptados de navios de pesquisa de petróleo. Além disso, temos uma sala de pós-produção a bordo, onde editamos todo o material que filmamos durante as expedições.

Apesar de toda a inovação, a tradição é mantida. O navio ainda opera com um motor Werkspoor original de 8 cilindros. A combinação do moderno com o tradicional garante redundância absoluta nos sistemas e ensina navegação clássica à tripulação. 

Navegar uma embarcação de 450 toneladas de deslocamento e 500 metros quadrados de vela exige perícia. O comandante relata que a Nave Santa Maria tem um desempenho formidável com o mar pela proa.

Qual é o consumo de combustível da Nave Santa Maria durante a navegação e como ele se compara a embarcações mais modernas?

Comandante Simone Sacco: A embarcação é extremamente eficiente. Consome apenas 35 litros de diesel por hora quando navega a uma velocidade de 8 nós (combinando o uso do motor com um pouco de vela). Esse consumo chega a ser três vezes menor do que o de motores modernos equivalentes.

Qual é o alcance máximo de navegação da Santa Maria com seus tanques de combustível cheios?

Comandante Simone Sacco: Impressionantes 11.000 milhas náuticas. A Santa Maria é a embarcação privada com o maior alcance do mundo, superando grandes superiates em cerca de 5.000 milhas.

Como o navio gerencia a produção e o armazenamento de energia para se manter sustentável e independente no mar?

Comandante Simone Sacco: Temos painéis solares e um grande banco de baterias tradicionais de chumbo-ácido (baterias de lítio têm risco de explosão) de 140 KW. O sistema é altamente eficiente: basta carregar as baterias por 6 horas com o gerador para que o navio tenha energia independente por 2 a 5 dias. Em um cenário extremo, usando apenas velas e energia solar, é possível sobreviver no mar entre 10 e 12 anos.

Com milhares de milhas navegadas, quais foram as condições de mar mais severas que a Santa Maria já enfrentou?

Comandante Simone Sacco: O navio é muito forte. Com o mar pela proa, o desempenho é incrível. Li no diário de bordo antigo que eles já enfrentaram força 10 no Mar do Norte, navegando com o motor à ré para não virar nas ondas de 10 metros. No nosso caso, o pior tempo que enfrentamos também foi no Mar do Norte. O grande problema é o mar de través. Sem as velas para estabilizar, o navio balança como o inferno, chegando a inclinar 50 graus para cada lado em um período curto de 7 segundos. Nessas horas, você tem que amarrar tudo, inclusive a minha cadeira de comando. 

O mar costuma testar a equipe em diversas ocasiões. Durante a travessia do Atlântico, o rompimento de dois blocos do pico da vela (peças de 300 quilos a 30 metros de altura) obrigou a tripulação a realizar soldagens no topo do mastro sob tempo severo, provando a eficácia do treinamento a bordo.

A embarcação também tem um forte viés científico. Como funcionam as pesquisas e as parcerias com instituições, como a Marinha do Brasil e as universidades brasileiras?

Comandante Simone Sacco: A ciência deve ser compartilhada. Se você não compartilha o conhecimento, acaba estudando a mesma coisa que os outros e não sai do lugar. Temos biólogos a bordo e realizamos pesquisas sobre mamíferos marinhos. Atualmente, conduzimos o projeto SACE (South Atlantic Corridor Investigation), que é a maior pesquisa hidrofônica já feita, começando nas Canárias e terminando em Madagascar. No Brasil, assinamos uma cooperação de longo prazo com o Instituto Oceanográfico da USP. Coletamos DNA do borrifo das baleias usando drones marítimos e enviamos para os laboratórios deles. Também cooperamos com a Marinha do Brasil, utilizando nossos sonares modernos para fazer o mapeamento do fundo da região da Ilha Fiscal. 

O equipamento de mergulho utilizado pela tripulação da Santa Maria tem características especiais?

Comandante Simone Sacco: Os equipamentos foram feitos sob especificações específicas para o navio (com cores amarelo e preto) e incluem jaquetas especiais menores e um sistema de tanque duplo reverso. Esse sistema é mais simples, barato e funciona dez vezes melhor do que configurações tradicionais complexas. Por sua eficiência, estamos compartilhando a tecnologia com a Marinha do Brasil em um intercâmbio de experiências e tecnologias de mergulho e investigação submarina. A Marinha do Brasil nos ajuda fornecendo suporte logístico e técnico não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. A Marinha do Brasil é, sem dúvida, uma das mais dedicadas à proteção e ao estudo do meio ambiente marinho; compartilhamos com eles todos os dados oceanográficos e batimétricos coletados durante nossas missões.

Quais são os próximos passos da expedição após a partida do Rio de Janeiro?

Comandante Simone Sacco: Estamos esperando a Laura (Dekker) chegar com o Guppy. No final de outubro, começaremos a descer lentamente para o sul do Brasil, com paradas posteriores no Uruguai e na Argentina. No Natal, devemos chegar à região da Terra do Fogo ou nas Ilhas Malvinas. O Guppy seguirá para a Península Antártica, enquanto eu fico esperando com parte da minha tripulação, fazendo pesquisas e mergulhos. Depois, a Santa Maria continuará em direção ao leste, passando pelas ilhas antárticas até a África do Sul, e o Guppy irá para o oeste, rumo ao Chile e Nova Zelândia. Da África do Sul, contornaremos o Cabo em direção a Madagascar.

Em suas missões, como se dá o deslocamento em terra?

Comandante Simone Sacco: A Nave Santa Maria carrega duas motocicletas e um carro modelo Smart, guardados no compartimento de carga e que são içados por um guindaste quando chegam aos portos. É o Smart que mais viaja no mundo e será o primeiro carro desse modelo a chegar à Antártica.

E o que planejam fazer em Madagascar?

Comandante Simone Sacco: Ficaremos lá por dois ou três anos para estabelecer uma base em terra e o “Projeto Nemo”. Faremos um habitat marinho subaquático permanente a dez metros de profundidade, sustentado por oxigênio produzido por algas e plantas subaquáticas. A tecnologia já existe. Quero criar o primeiro lugar no mundo com gestão privada e pública que seja totalmente acessível, moldando uma nova geração de jovens especializados em exploração e ciência. O mundo é muito grande, há muitas histórias para contar e coisas curiosas nunca estudadas. Somos como esponjas, precisamos apenas aprender a ver. Quero provar que a exploração oceânica ainda é o melhor caminho para forjar o caráter humano e expandir as fronteiras do conhecimento. Com amor, dedicação e respeito, aquilo em que Laura e eu sempre acreditamos.

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