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Com menos vegetação nativa, uso da terra no Brasil fica mais exposto aos eventos extremos do El Niño

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)
  • Vegetação nativa caiu de 79% para 65% do território brasileiro em 41 anos; maior parte das áreas que permaneceram sem mudança corresponde a formações naturais;
  • Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa desde 1985;
  • 25 estados e DF reduziram a participação da vegetação nativa entre 1985 e 2025;
  • Agropecuária ampliou presença de 18% para 32% do território nacional de 1985 a 2025;
  • Cruzamento com dados do MapBiomas Atmosfera indica maior impacto nos anos de El Niño em áreas onde predominam agropecuária  do que em áreas onde predominam florestas, especialmente na Amazônia.

Apesar da redução no desmatamento observada nos anos mais recentes, no acumulado dos últimos 41 anos o Brasil viu sua cobertura de vegetação nativa cair de 79% para 65% entre 1985 e 2025. O retrato apresentado pela Coleção 11 dos mapas anuais de cobertura e uso da terra do Brasil do MapBiomas, lançada nesta quarta-feira (12/08), revela uma paisagem em que áreas naturais continuam a ser reduzidas em detrimento dos usos antrópicos e ficam expostas aos efeitos de extremos climáticos, como secas e enchentes – fenômenos agravados em anos de El Niño.

Os dados históricos de precipitação (disponíveis na plataforma do MapBiomas Atmosfera) mostram que os biomas brasileiros têm registrado secas ou chuvas cada vez mais intensas em anos com El Niño de maior intensidade, como o que se espera em 2026. A comparação dos dados da série histórica de cobertura e uso da terra do MapBiomas com as anomalias de precipitação (mm) entre os meses de setembro e novembro durante três eventos recentes de forte El Niño (1997/98, 2015/16, 2023/24) revela que a redução de chuvas vem se agravando, com exceção do Pampa e da região sul da Mata Atlântica, onde há um aumento da precipitação.  É nesse trimestre que são observados os extremos mais críticos de precipitação durante os eventos de El Niño no Brasil. Os dados apontam diferenças regionais desses efeitos sobre as áreas com vegetação nativa e as áreas com uso agropecuário.

A Amazônia apresentou o maior déficit de precipitação entre os biomas nos três eventos de El Niño analisados. No último El Niño (2023/2024), a maior redução de chuvas foi observada nas áreas de agropecuária no bioma Amazônia (178 mm abaixo da média climatológica). No Cerrado e na porção norte da Mata Atlântica, a seca se acentua a cada novo evento de El Niño, principalmente nas áreas de vegetação nativa. No Pantanal, o último El Niño teve efeito pronunciado na redução das precipitações, sendo que 2024 foi o ano mais seco da série histórica mapeada.

Os eventos de El Niño produziram excesso recorrente de chuva no Sul do Brasil, considerando as anomalias de precipitação entre setembro e novembro. No Pampa, foi constatado que o excesso de chuvas foi maior nas áreas agropecuárias do que nas áreas de vegetação nativa em dois eventos de El Niño analisados. “Esse excesso de chuvas nas áreas agropecuárias provoca, em muitos casos, perdas nas lavouras e erosão dos solos agrícolas, o que é agravado pela redução da vegetação nativa que atua na proteção do solo e na maior infiltração da água da chuva”, explica Eduardo Vélez, da equipe do Pampa no MapBiomas.

Transformações no território brasileiro

Ao longo de 41 anos, cerca de um terço (33%) do território brasileiro sofreu pelo menos uma mudança de cobertura e uso da terra, e 67% permaneceu estável.

Na comparação direta entre os anos de 1985 e 2025, quase um terço (28%) do Brasil passou por transições na cobertura e no uso da terra, variando entre biomas e dentro de cada bioma. Nessa análise, considera-se que uma área teve transição quando a classificação em 2025 difere da de 1985 e é classificada como estável quando as classes coincidem nestes dois anos, independentemente de mudanças ao longo do tempo. As transições registradas englobam, por exemplo, ganho ou redução de superfície de água, o avanço antrópico sobre áreas naturais (e vice-versa), bem como a alternância entre diferentes usos da terra. A área com transições nesse período chega a 241 milhões de hectares, dos quais 56% (136 milhões de hectares) foram de vegetação nativa convertida para áreas de agropecuária. 

Essa é a principal transição de cobertura e uso da terra na Amazônia (55 milhões de hectares, que equivalem a 83,6% de todo o território modificado no bioma), Cerrado (52 milhões de hectares, ou 59,4% da área total de transições no período), Caatinga (14,1 milhões de hectares, ou 58,9%) e Pampa (4 milhões de hectares, ou 44,1%). Por outro lado, Caatinga e Mata Atlântica destacam-se por apresentarem as maiores áreas de transição de uso agropecuário para vegetação nativa, totalizando 4,4 milhões de hectares (18,2% do total das transições na Caatinga) e 6,2 milhões de hectares (13,6% na Mata Atlântica).

A Mata Atlântica registrou ainda a maior proporção de expansão da silvicultura, que adicionou 4,1 milhões de hectares (9,1% de toda a área transicionada do bioma entre 1985 e 2025). Por sua vez, a conversão de pastagens para a agricultura consolidou-se com maior expressividade no Cerrado (8,8 milhões de hectares; 10% da área transicionada no bioma) e na Mata Atlântica (8,5 milhões de hectares; 18,8%). 

Os mapas da Coleção 11 revelam que essas transições de coberturas naturais para usos antrópicos vêm se reduzindo nos últimos anos, um resultado já antecipado no Relatório Anual do Desmatamento de 2025.  “Em 2025, o Brasil registrou menos de um milhão de hectares desmatados pela primeira vez desde o início da série histórica do MapBiomas Alerta desde 2019, resultado de uma redução de 20,6% em relação ao ano anterior. Essa desaceleração imprime um ritmo menor de transformação da cobertura da terra, porém muitas regiões do Brasil  já passaram por mudanças profundas nas últimas quatro décadas, o que afeta a sua resiliência aos eventos climáticos extremos, como o El Niño iniciado em 2026”, comenta Tasso Azevedo, coordenador-geral do MapBiomas.

No bioma Pantanal, o encolhimento de 4 milhões de hectares de superfícies de água e campos alagados é acompanhado pela inclusão, na Coleção 11, de uma nova classe de mapeamento: a savana alagada, caracterizada por espécies arbóreas distribuídas de forma esparsa em meio à vegetação arbustiva e herbácea ao longo de cursos d’água e planícies de inundação. Essa classe sofreu uma redução de 84% no Pantanal, caindo de 1,1 milhão de hectares em 1985 para 174 mil hectares em 2025. 

Formação Florestal perdeu 65 milhões de hectares em 41 anos

A Formação Florestal continua sendo a principal cobertura natural do Brasil, com 359,5 milhões de hectares em 2025, o equivalente a 42,3% do território nacional. Também foi a cobertura que apresentou a maior redução absoluta desde 1985, com perda acumulada de 65 milhões de hectares.

Apesar dessa diminuição, as formações florestais continuam concentrando grande parte das áreas que permaneceram sem mudança ao longo dos últimos 41 anos. Dos 557 milhões de hectares mapeados com a mesma classe de cobertura ou uso da terra de 1985 a 2025, cerca de 335 milhões de hectares correspondem à Formação Florestal. Outros 84 milhões de hectares permanecem classificados como Formação Savânica e aproximadamente 35 milhões como Floresta Alagável.

Depois da Formação Florestal, dentre as demais classes de vegetação nativa, a Formação Savânica foi a que teve maior perda absoluta (-46 milhões de hectares), seguida da Formação Campestre (-6,3 milhões de hectares) e de Campos Alagados e Áreas Pantanosas (-3,2 milhões de hectares). No mesmo período, os usos antrópicos expandiram sua ocupação sobre essas áreas convertidas. A pastagem ampliou sua área em 61,6 milhões de hectares, a agricultura cresceu 48 milhões de hectares, a silvicultura aumentou 8 milhões de hectares, e as áreas urbanizadas, outros 2,5 milhões de hectares.

Amazônia e Cerrado concentram as maiores perdas de vegetação nativa

A distribuição dessas transformações varia entre os biomas brasileiros. Em área absoluta, Amazônia e Cerrado registraram as maiores perdas acumuladas de vegetação nativa entre 1985 e 2025, com reduções de 53,9 milhões e 51,7 milhões de hectares, respectivamente. Na sequência aparecem Caatinga, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal.

Quando a análise considera a participação da vegetação nativa dentro de cada bioma, o Cerrado e o Pampa apresentam as maiores reduções proporcionais ao longo da série histórica, com perdas de 34% e 32%, respectivamente. Em 2025, Amazônia e Pantanal permanecem como os biomas com maior proporção de vegetação nativa, ambos com mais de 80% de seu território ocupado por coberturas nativas. Já a Mata Atlântica, apesar de ter a menor redução proporcional nesse período (12%), ainda é o bioma brasileiro com a menor proporção de vegetação nativa (32%), especialmente por conta do desmatamento ocorrido antes do período mapeável por satélite. 

25 estados e DF perderam vegetação nativa

As transformações observadas na cobertura e no uso da terra também aparecem em escala estadual. De 1985 a 2025, 25 estados e o Distrito Federal reduziram a participação da vegetação nativa em seus territórios. O Rio de Janeiro foi a única exceção a essa tendência, com aumento de 1% na cobertura de vegetação nativa no período.

Em 2025, Amapá e Amazonas permaneceram como os estados com maior proporção de vegetação nativa, ambos com 95% do território, seguidos por Roraima, com 92%. Na outra ponta está Sergipe, com 22%, seguido por Alagoas e São Paulo, ambos com 21%.

A intensidade das mudanças, no entanto, varia entre os estados. Rondônia reduziu sua cobertura de vegetação nativa de 92% para 59% de 1985 a 2025. Maranhão passou de 91% para 61%; Mato Grosso, de 90% para 61%; e Tocantins, de 90% para 61%. Em estados cuja ocupação territorial já era consolidada antes do início da série histórica, como São Paulo e Paraná, essas mudanças entre classes antrópicas e naturais foram menores ao longo do período.

Agropecuária predomina na maioria dos municípios brasileiros

Em 1985, o Brasil tinha 150,2 milhões de hectares ocupados pela agropecuária, ou 18% de seu território. Em 2025, a atividade já ocupa quase um terço (32%) do país, com 273,3 milhões de hectares. As pastagens continuam respondendo por mais da metade (60,6%) dessa área, com 165,6 milhões de hectares em 2025. Desde 1985, as pastagens incorporaram 61,6 milhões de hectares. A partir de 2006, a área de pastagem no país se mantém relativamente estável (com crescimento abaixo de 1,5 milhões de hectares ao ano).

A agricultura passou de 18,6 milhões para 66,5 milhões de hectares entre 1985 e 2025. Entre as culturas temporárias, a soja foi a que apresentou a maior expansão, passando de 4,5 milhões para 44,2 milhões de hectares e representando 66,5% de toda a área de agricultura do país em 2025. A cana-de-açúcar passou de 2,2 milhões de hectares para 11,1 milhões de hectares no mesmo período.

A silvicultura também expandiu sua participação na paisagem brasileira, passando de 1,9 milhão para 9,9 milhões de hectares entre 1985 e 2025. 

Essa expansão teve reflexos sobre os municípios brasileiros. Em 1985, a agropecuária era a cobertura ou uso da terra predominante em 46% deles. Em 2025, essa proporção aumentou para 59%. Em 2.114 municípios (38% do total), a pastagem é a principal cobertura ou uso da terra. A agricultura predomina em outros 1.092 municípios (20%), enquanto a Formação Florestal permanece como cobertura predominante em 1.104 municípios (20%). Nos últimos 41 anos, 744 municípios deixaram de ter a vegetação nativa como cobertura predominante.

Marismas na Zona Costeira do Pampa passam a ser mapeadas

As marismas passam a integrar pela primeira vez o mapeamento do MapBiomas, ainda em versão beta e limitadas à zona costeira do Pampa, embora também ocorram ao longo de todo o litoral brasileiro. São áreas pantanosas sob influência de água salobra, localizadas nas margens dos estuários, onde ocorre o contato entre a água doce de rios ou lagunas e a água do mar. Sua vegetação é predominantemente herbácea, formada por gramíneas e juncos adaptados à água salgada. Em 2025, foram mapeados 6,9 mil hectares de marismas no Pampa. Essas formações predominam em climas subtropical e temperado e, no Brasil, ocorrem principalmente na zona costeira da Região Sul. O levantamento identifica marismas nas zonas estuarinas das lagoas Tramandaí-Armazém, Lagoa do Peixe, Laguna dos Patos e na foz do Arroio Chuí.

Área ocupada por parques eólicos cresceu 6 vezes na última década e áreas de usinas fotovoltaicas têm expansão de 38 vezes no período

A área ocupada por usinas fotovoltaicas no Brasil chegou a 43,3 mil hectares em 2025, crescimento de 38 vezes em relação a 2016, o primeiro ano em que a classe foi mapeada na coleção 11. A Caatinga concentrava 63% dessa área, o equivalente a 27,2 mil hectares. Outros 32%, ou 13,9 mil hectares, estavam no Cerrado, e 5%, correspondentes a 2,2 mil hectares, na Mata Atlântica.

Minas Gerais reunia 16,3 mil hectares de usinas fotovoltaicas em 2025, 37,6% do total nacional. O estado, cuja área mapeada cresceu 133 vezes na última década. Em 2025, Minas Gerais, Bahia, Piauí e Rio Grande do Norte concentravam, juntos, 74,8% da área de usinas fotovoltaicas identificada no país, ou 32,3 mil hectares.

Os parques eólicos ocupavam 28,7 mil hectares em 2025, ante 4,8 mil hectares em 2016 – um crescimento de 6 vezes no período. A Caatinga concentrava 85% da área mapeada, com 24,4 mil hectares. O Cerrado respondia por 8%; o Pampa, por 6%; e a Mata Atlântica, por 1%.

Rio Grande do Norte e Bahia reúnem 61,7% da área de parques eólicos mapeada em 2025, totalizando 17,7 mil hectares. A área de parques eólicos nos estados do Nordeste aumentou 5,7 vezes no período mapeado, passando de 4,7 mil hectares em 2016 para 26,9 mil hectares em 2025.  

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