DIA DO ÍNDIO

Grafite de Gamão Raxa Kuka, grafiteiro, líder comunitário, professor e representante de melhorias para a comunidade do Capão Redondo

Elisa Homem de Mello || Jornalista. Correspondente da ECO21 em São Paulo

Desde o início da colonização, as doenças do homem branco têm representado um flagelo para as populações indígenas das Américas. O Brasil, antes de 1500, possuía mais de cinco milhões de habitantes. A partir da chegada dos portugueses, a população indígena começou a declinar rapidamente, principalmente por causa de epidemias de sarampo, varíola, rubéola e gripe. Nos anos 1970, não passavam de 100 mil em todo o território nacional. De lá para cá, medidas como a vacinação e o avanço no reconhecimento de terras indígenas conseguiram reverter esse quadro. Hoje, segundo dados do censo de 2010, a população já alcançou a marca de 800 mil.

No dia em que se comemora o Índio, o risco de um iminente e fatal genocídio do povo ressurge agora de modo ainda mais preocupante, seja em função de um potencial ataque de invasores, seja devido à possibilidade destas comunidades serem contaminadas com o novo coronavírus. Além das comunidades indígenas, as periferias de todo o país também padecem com a pandemia, como conta o autor do grafite que ilustra esta matéria, Rodrigo de Souza Dias, mais conhecido como Gamão, um dos grafiteiros mais famosos da cidade de São Paulo e criador do Coletivo Raxa-Kuka Produções, selo cultural nascido em 2015; “É fato que as políticas públicas para o enfrentamento à pandemia são insuficientes e não chegam às periferias nem comunidades, deixando os que mais precisam ainda mais vulneráveis”.

No dia 1º de abril, foi registrado o primeiro caso de coronavírus entre indígenas brasileiros, pela Fundação de Vigilância em Saúde do AM. A jovem morava na região de Santo Antônio de Iça (AM) e era uma agente de saúde. No último dia 9, um adolescente da etnia Yanomami de 15 anos, que contraiu coronavírus e estava internado na UTI desde 3 de abril, morreu no Hospital Geral de Roraima, segundo informações da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), ligada ao Ministério da Saúde. Conforme a Agência Brasil, de acordo com o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei), que atende a região, ele era natural da aldeia Rehebe, nos domínios da Terra Indígena Yanomami, mas passou a residir no município de Alto Alegre, a 87 quilômetros (km) da capital (na Terra Indígena Boqueirão) para dar continuidade aos estudos do ensino fundamental. Segundo o boletim mais recente da Sesai, o país registra seis casos confirmados de Covid-19 e 24 suspeitos em populações indígenas.

É preciso sermos extremamente cautelosos com as comunidades, especialmente aquelas que têm muito pouco contato com o mundo exterior. Um quarto dos mortos por Covid-19 no Brasil não faz parte dos chamados grupos de risco, ou seja, 25% das vítimas fatais são pessoas com menos de 60 anos e sem comorbidades que agravam os sintomas e 26% dos óbitos foram em pacientes sem registro de doenças preexistentes (como diabetes, cardiopatias e pneumopatias). No Brasil, a proporção de pessoas abaixo dos 60 anos de idade que morreram pela Covid-19 é mais de cinco vezes maior que a registrada na Espanha (4,6%).

A pandemia de coronavírus promete ser mais um teste de resistência para as comunidades indígenas e de baixa renda no Brasil, as quais, além da falta de anticorpos para uma nova doença também enfrentam um quadro grave de problemas estruturais no atendimento de saúde e de saneamento básico…como boa parte dos brasileiros, aliás.

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