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Desertificação do mundo

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Arthur Soffiati |

Procurando, na Internet, notícias sobre mudanças climáticas na Ásia, encontrei informações bastante esparsas de altas temperaturas e chuvas torrenciais na China. Na província oriental de Jiangsu e na cidade vizinha de Xangai, na cidade de Yixing; em Sichuan, Jiangsu, Zhejiang, Fujian, Jiangxi, Hubei e Anhui, e nas cidades de Chongqing e Xangai. Em particular, as cidades de Luzhou e Yibin, em Sichuan, e Zhaotong, em Yunnan, assim como Shaoxing, Ningbo, Jiaxing e Huzhou, em Zhejiang, e Changzhou e Wuxi, em Jiangsu, foram registradas temperaturas entre 40 e 42 graus Celsius em pleno inverno. Ao mesmo tempo, chuvas intensas se precipitaram nas áreas de Gansu, Shanxi, Shandong, Hebei, Liaoning e Jilin, províncias de Heilongjiang e região da Mongólia Interior. Os meteorologistas esperam que o calor intenso e as chuvas continuem durante os próximos dias.

Concentrei-me, particularmente, em Heilongjiang, às margens do rio Songhua. Você já ouviu falar nesse rio, caro leitor? Nem eu. Não há idade para aprender. O Songhua é o maior afluente do rio Amur. Tem um curso de 1927 km, quase duas vezes o comprimento do rio Paraíba do Sul. Como em quase todos os rios médios e grandes do mundo, ele tem represas. No Songhua, uma barragem forma um lago de 62 km de extensão para a geração de energia elétrica. Em 2005, suas águas foram contaminadas com benzeno vazado de uma fábrica petroquímica, poluição que chegou à Rússia e motivou deste país severas reclamações junto ao governo chinês. 

Exemplo de represa no Rio Songhua

Mas o que me chamou a atenção foi a feição do terreno em que corre o rio Songhua e se ergue a cidade de Heilongjiang. Parece desértico. De Ulan Bator, capital da Mongólia, até a orla atlântica do deserto do Saara, a feição geográfica é a de um grande deserto com matizes. Sabemos muito bem que a Terra sofreu um ressecamento nesses últimos 12  mil anos de Holoceno. De grande área verde, o Saara e a península arábica se transformaram em desertos. As estepes da Ásia Central também estão em franco processo de desertificação. A quase totalidade da Austrália tem a aparência assustadora de um deserto em seu interior. 

Sabe-se que o Saara caminha para o sul, em direção a Kalaari, outro deserto. Já existem manchas muito secas entre ambos. Por mais que o Saara sofra a influência da grande massa aquática do mar Mediterrâneo, ela não está sendo suficiente para contrabalançar a secura provocada pelas mudanças climáticas em toda a orla mediterrânica. Todo verão no hemisfério norte, ultimamente, tem sido marcado por incêndios na Turquia, na Grécia, na Itália, na Espanha e em Portugal. Nem mesmo o sul da França escapa desses incêndios e a Inglaterra beira temperaturas recordes.

Não se trata mais de fenômeno natural. A Terra está mais quente e mais seca, por ações humanas coletivas num mundo globalizado pela economia de mercado. O clima do Holoceno criou áreas secas, como as savanas, estepes e desertos. O modo de produção capitalista está ampliando tais áreas. Imaginemos uma grande área seca – quase desértica – entre os oceanos Pacífico e Atlântico, atravessando a Ásia e a África, com efeitos sobre a Europa mediterrânica. Examinemos um mapa da desertificação no mundo. Na América do Sul, a área seca se estende na cordilheira dos Andes, onde fica o deserto de Atacama, o mais seco do mundo; no Nordeste brasileiro, no bioma da Caatinga. Trata-se do bioma naturalmente mais seco do Brasil, mas que está ampliando sua área pela mão do Ocidente. Mesmo com a transposição do rio São Francisco, o processo de desertificação não parece ceder. 

Na América do Norte, a área seca se estende de Oaxaca, no sul do México, até a Colúmbia Britânica, no Canadá. Ela acompanha a orla do oceano Pacífico e se torna mais seca na costa oeste dos Estados Unidos. Agora, a secura se estende para o centro do Brasil, no Pantanal, no Cerrado e no domínio Mata Atlântica. O Cerrado foi invadido pelo agronegócio. O Pantanal perde água ano a ano. O que restou da Mata Atlântica está sendo removido.

A essa altura, existe mais área seca do que úmida. O mundo foi transformado num palheiro por ação humana. Basta um fósforo para produzir grandes fogueiras. A orla europeia do Mediterrâneo  e a Califórnia estão aí como exemplos. Esta é a grande questão do nosso tempo. Nossa economia criou um mundo hostil à própria humanidade, sobretudo para a parte mais pobre dela, que é a maior. É uma questão mais importante que o movimento das mulheres, dos negros e dos gêneros não-heterossexuais porque todos respiram, todos bebem água, todos se alimentam, todos necessitam de vestimenta e moradia. Todos desejam saúde. E o mundo está mais vulnerável a doenças, à fome, a secas, a incêndios, à desastres, sobretudo nas cidades. Eis porque, há 50 anos, atuo na questão ambiental, sem ver luz no fim do túnel.

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