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Uma nova época

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Arthur Soffiati |

Tenho consciência de que conhecemos o mundo por meio de conceitos. Por mais elementares que sejam, os conceitos fazem a mediação entre nós e a realidade. Os animais conhecem o mundo diretamente. Mesmo assim, cada espécie tem maneiras distintas de se relacionar com a natureza. Entre os humanos de qualquer época, a cultura medeia essa relação. 

Nos meios científicos e acadêmicos, circulam conceitos mais aprimorados que aqueles usados num ambiente pragmático. Sistema, por exemplo, é um conceito com tanta amplitude que perdeu seu sentido original. É um conceito nômade, como o classificou Isabelle Stengers. Portanto, cada área do conhecimento a utilizar-se dele precisa sempre redefini-lo. 

Para a compreensão da crise atual, muitos conceitos têm sido formulados. Os que eram restritos à ciência da ecologia ganharam ampla dimensão e chegaram mesmo a perder significado explicativo tamanho foi seu emprego. Biosfera ou ecosfera? Impacto ou pegada ecológica? Gaia ou Medeia? Um conceito que pegou foi o de desenvolvimento sustentável. Criado na década de 1980 pela Comissão Brundtland, no seio da ONU, ele ultrapassou fronteiras científicas e ideológicas. Sua origem é liberal-progressista. Por isso, acabou sendo adotado também por matizes da esquerda. Virou moda. Ele pode se aplicar a tudo: crescimento dentro dos limites da natureza, juros e até corpo sustentável. O conceito entrou em voga na Conferência Rio-92 e ainda não saiu dela. 

Temo que o conceito de antropoceno siga o mesmo caminho. Ele começou mal definido e está se tornando cada vez mais generalizado. Já se fala em capitaloceno e plantatioceno. A partir do século XIX, geólogos e paleontólogos caracterizaram a era após o grande cataclisma global que extinguiu os grandes dinossauros. Deram-lhe o nome de Cenozóico e a dividiram em períodos e épocas. Cito as épocas da mais antiga à mais recente: Paleoceno, Eoceno, Oligoceno, Mioceno, Plioceno, Pleistoceno e Holoceno.

No Pleistoceno, ocorreram quatro momentos frios que produziram geleiras e três intervalos quentes entre elas. Vivemos o momento posterior ao último tempo gelado. Conviria, talvez, ir com mais calma e ponderar que podemos estar vivendo ainda no Pleistoceno, no quarto intervalo quente. Mas nos apressamos em nomear esse curto tempo de 12 mil anos como Holoceno. A palavra é ambiciosa e bem típica do orgulho ocidental no século XIX. Holoceno significa inteiramente recente.

Nesse curto tempo, grupos humanos domesticaram plantas e animais, criando a agricultura e o pastoreio; inventaram sistemas de escrita; ergueram cidades; produziram sociedades com classes sociais, desigualdades e pobreza; filosofaram; engendraram problemas para eles próprios e para a natureza; disseminaram doenças; inventaram a grande indústria e a grande urbanização e produziram crises ambientais.

De todas, a crise ambiental mais profunda começou a ser urdida no século XV, com a expansão marítima europeia. Estamos esgotando matéria e energia, extinguindo ambientes florestais e espécies vegetais e animais, poluindo o ar, a água e o solo. Estamos alterando até mesmo o clima. No meu entendimento (sempre provisório), produzimos a mais grave crise ambiental dos últimos 12 mil anos. Ela é ao mesmo tempo antrópica e global. As anteriores foram naturais regionais ou globais. Foram também antrópicas regionais. Esta é a primeira antrópica e global. 

Sua magnitude é tão grande que julgamos ter entrado numa nova época. Não estamos mais no Holoceno, e sim no Antropoceno. Até prova consistente em contrário, continuo entendendo que estamos vivendo uma grave crise do Holoceno. Não sabemos ainda se conseguiremos controlá-la e retornar ao equilíbrio do Holoceno ou sucumbir diante dela, inaugurando uma nova fase da história da Terra. Na escala geológica, as crises não recebem nome. Contudo, estamos denominando a atual crise de Antropoceno. Seus defensores dizem que ela é uma metáfora para condenar o capitalismo. Outros dizem que o conceito colou. Já criaram até uma arte e uma literatura do antropoceno. Não se trata mais de tentar compreender as diversas manifestações do mundo na grande crise do Holoceno, mas de explicar tudo pelo antropoceno. 

A meu ver, está havendo um uso exagerado do conceito. Ele não se consolidou e já está sendo erodido. Creio que será substituído em breve por outro, que também será desgastado. Sei que os conceitos não são e não podem ser eternos. Mas desconfio dos conceitos inflacionados. Creio que Antropoceno seria um bom substituto para Holoceno. Nesse 12 mil anos, vivemos, de fato, a época do humano. Mas continuarei, até segunda ordem, usando Holoceno e denominando o antropoceno de crise global do Holoceno.

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