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Cerrado perdeu 51,7 milhões de hectares de vegetação nativa em 41 anos

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Mais de um quarto de toda a vegetação nativa perdida no bioma desde 1985 estava a até 500 metros de rios e cursos d’água. Agropecuária já ocupa praticamente metade do Cerrado.

Rudá Capriles | Com informações do MapBiomas

O Cerrado perdeu 13,9 milhões de hectares de vegetação nativa localizada a até 500 metros de rios e cursos d’água entre 1985 e 2025. A área corresponde a 26,9% de toda a vegetação nativa perdida pelo bioma nas últimas quatro décadas.

Os dados fazem parte da Coleção 11 do MapBiomas, que acompanha anualmente as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil desde 1985.

O levantamento chama atenção para uma transformação que ultrapassa a simples redução da vegetação: parte expressiva da mudança ocorreu justamente nas proximidades da rede hidrográfica, onde a cobertura vegetal desempenha papel fundamental na proteção dos solos e dos próprios rios.

Na faixa de até 30 metros dos cursos d’água, a vegetação nativa diminuiu 13,9% entre 1985 e 2025. Em 2025, pastagens e agricultura já ocupavam juntas 18,2% dessa faixa.

Apesar das perdas, ainda existem aproximadamente 36,5 milhões de hectares de vegetação nativa a até 500 metros dos rios, área que representa 36,7% de toda a vegetação remanescente do Cerrado.

A presença dessa vegetação é especialmente importante porque ajuda a estabilizar os solos e reduzir processos erosivos.

Segundo Bárbara Costa, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas, a retirada dessa cobertura pode ampliar o assoreamento dos rios, comprometer a qualidade e a disponibilidade da água e tornar as paisagens mais vulneráveis tanto a secas como a episódios de chuva intensa.

O Cerrado e a água do Brasil

O problema ganha dimensão ainda maior quando se considera a importância hidrográfica do Cerrado.

No bioma nascem rios que alimentam seis grandes bacias hidrográficas brasileiras, e algumas das maiores perdas de vegetação próximas à drenagem estão justamente nas bacias do Alto Tocantins e do Araguaia.

No Alto Tocantins, a vegetação nativa localizada a até 500 metros dos rios passou de 9,7 milhões para 6,8 milhões de hectares. No Araguaia, caiu de 7,8 milhões para 5,1 milhões de hectares.

No Médio São Francisco, a redução foi de 4,9 milhões para 3,8 milhões de hectares.

Somadas, as perdas no Alto Tocantins e no Araguaia chegaram a aproximadamente 5,7 milhões de hectares, o equivalente a 41% de toda a redução de vegetação nativa registrada nas proximidades dos rios do Cerrado durante o período analisado.

Para o pesquisador Dhemerson Conciani, do IPAM e integrante da equipe Cerrado do MapBiomas, avaliar as mudanças no entorno imediato dos rios é essencial para compreender a situação das Áreas de Preservação Permanente (APPs) e das matas ciliares, além de fornecer informações para políticas de conservação dos recursos hídricos e para a formação de corredores ecológicos.

51,7 milhões de hectares de vegetação nativa desapareceram

A transformação não se restringe às margens dos rios.

Em quatro décadas, a perda líquida de vegetação nativa do Cerrado chegou a 51,7 milhões de hectares, redução equivalente a 34% da cobertura existente em 1985.

A formação savânica foi a mais atingida: perdeu aproximadamente 34 milhões de hectares, uma redução de 41%.

Em 2025, apenas 49,6% dos 200,4 milhões de hectares do Cerrado permaneciam cobertos por vegetação nativa.

Os números mostram que o bioma chegou a uma espécie de equilíbrio territorial quase exato entre vegetação nativa e ocupação agropecuária.

Enquanto a vegetação cobre 49,6% do Cerrado, a agropecuária já ocupa 48,9% de sua extensão.

Agropecuária mais que dobrou

Entre 1985 e 2025, a área ocupada pela agropecuária no Cerrado aumentou 110%, passando de 46,7 milhões para 97,9 milhões de hectares.

A agricultura sozinha ganhou 24,7 milhões de hectares e alcançou 29,7 milhões de hectares em 2025.

No mesmo ano, o Cerrado concentrava 49,2% de toda a área cultivada com soja no Brasil.

A dinâmica de ocupação também mudou ao longo das décadas.

Até 2005, predominava a conversão direta de vegetação nativa em pastagens. Nos últimos anos, entretanto, a expansão agrícola ganhou maior protagonismo.

Entre 2015 e 2025, nos estados que formam o Matopiba — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, predominou a conversão direta de vegetação nativa para agricultura. Nas demais regiões do Cerrado, tornou-se mais frequente a transformação de antigas áreas de pastagem em áreas agrícolas.

Nesse período, 81,4% das conversões de vegetação nativa diretamente para agricultura ocorreram no Matopiba.

A região concentra atualmente 47,7% da vegetação nativa remanescente do Cerrado, mas também foi responsável por 65,7% dos 10,5 milhões de hectares de vegetação nativa perdidos no bioma entre 2015 e 2025.

A mudança aparece no mapa dos municípios

A transformação territorial do Cerrado também pode ser observada na escala municipal.

Em 1985, a agropecuária predominava em 41% dos municípios inseridos no bioma. Em 2025, essa proporção chegou a 61%.

Ao longo das quatro décadas, 301 municípios deixaram de ter predominância de vegetação nativa.

Outra mudança ajuda a dimensionar a velocidade da transformação.

Em 1985, 154 municípios possuíam menos de 20% de vegetação nativa em sua área de Cerrado. Quarenta anos depois, esse número chegou a 381 municípios.

No sentido inverso, o número de municípios com mais de 80% de vegetação nativa caiu de 624 para apenas 225.

A maior parte das perdas ocorreu em propriedades privadas com registro georreferenciado: 77,7% da vegetação nativa eliminada desde 1985 estava nessas áreas.

Terras indígenas, territórios quilombolas e unidades de conservação, por outro lado, ocupam conjuntamente 7,5% do Cerrado e abrigavam 13,9% da vegetação nativa do bioma em 2025. Nessas áreas protegidas ou de uso coletivo, a perda acumulada desde 1985 foi de aproximadamente 500 mil hectares.

Campos alagados também estão desaparecendo

Não são apenas as formações florestais e savânicas que perderam espaço.

Os campos alagados e áreas pantanosas do Cerrado perderam cerca de 1,4 milhão de hectares, queda de 18% desde 1985.

Mais de três quartos da área convertida, 76,2% passaram a ser ocupados por pastagens ou agricultura. A redução dessas áreas foi identificada em 69,2% dos municípios do bioma.

Enquanto isso, outras formas de ocupação territorial avançaram rapidamente.

A silvicultura passou de cerca de 600 mil hectares para 3,9 milhões, crescimento de 511%. A mineração chegou a 61.743 hectares em 2025, área 516% superior à registrada em 1985. Segundo o levantamento, 69,6% das áreas convertidas para mineração tinham vegetação nativa anteriormente.

Também cresce a ocupação do território por infraestrutura energética. As usinas fotovoltaicas ocupam atualmente 14.215 hectares no Cerrado, enquanto parques eólicos somam 2.180 hectares. Parte dessas áreas era coberta por vegetação nativa ainda em 2016.

Um bioma no limite entre conservação e conversão

Os dados da Coleção 11 revelam uma transformação territorial profunda.

Em quatro décadas, o Cerrado passou de uma paisagem majoritariamente coberta por vegetação nativa para uma situação em que a extensão ocupada pela agropecuária praticamente se iguala à área ainda preservada.

Mais preocupante é perceber que essa transformação chegou de maneira intensa às proximidades dos rios.

A perda de quase 14 milhões de hectares de vegetação nativa no entorno da rede hidrográfica mostra que a discussão sobre o futuro do Cerrado não envolve apenas biodiversidade ou expansão agrícola.

Envolve também água, solo, segurança hídrica, clima e resiliência territorial.

O Cerrado costuma ser observado pelo que existe sobre a terra. Os novos números do MapBiomas mostram que talvez seja necessário observá-lo também pelo caminho que a água percorre.

Porque quando desaparece a vegetação que protege um rio, não é apenas uma paisagem que muda.

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