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IA é bom ou ruim para o planeta?

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Climate Week expõe a disputa sobre o que será colocado em escala num planeta que já se prepara para ultrapassar 1,5°C

Rudá Capriles | ECO21

Setembro colocou Nova York no centro das grandes discussões globais

Enquanto a 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas reunia chefes de Estado, diplomatas e organismos multilaterais para a sua semana de alto nível, a Climate Week NYC, realizada entre 20 e 27 de setembro, espalhava pela cidade debates entre governos, empresas, investidores, cientistas e organizações da sociedade civil. Os dois eventos ocorreram praticamente em paralelo, transformando Nova York em um grande espaço de discussão sobre clima, energia, tecnologia, financiamento e os caminhos da transição para uma economia de baixo carbono.

Foi nesse ambiente que, em 22 de setembro, António Guterres abriu o Debate Geral da Assembleia colocando lado a lado alguns dos grandes desafios deste século. Ao falar sobre a crise climática, o secretário-geral alertou para a proximidade de uma ultrapassagem do limite de 1,5 °C e defendeu maior velocidade na expansão das energias limpas, das redes elétricas, do armazenamento e do financiamento climático.

Durante a Climate Week de Nova York, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Climate Action Solutions & Engagement (C.A.S.E.) e a Sustainable Business COP (SB COP) anunciaram uma aliança para acelerar a implementação e a escala de soluções climáticas brasileiras. A proposta é conectar projetos a financiamento, articulação institucional, condições regulatórias e oportunidades de expansão.

A iniciativa parte de um ponto central para o Brasil: muitas soluções já existem, mas ainda enfrentam dificuldades para alcançar escala. Como afirmou Marina Grossi, presidente do CEBDS, “o Brasil já tem muitas soluções funcionando e bons projetos prontos para avançar. O desafio é fazer com que esse potencial se transforme em impacto em maior escala”.

Esse debate ocorre ao mesmo tempo em que a Inteligência Artificial passa a ocupar posição central na agenda climática internacional. Um artigo publicado pela MIT Technology Review durante a Climate Week destaca que a expansão dos data centers está aumentando a demanda por eletricidade e influenciando decisões de investimento no setor energético. IA domina as conversas na Clima…

A questão é especialmente relevante para o Brasil. O país reúne capacidade de geração renovável, recursos naturais, base industrial, conhecimento científico e potencial para desenvolver novas infraestruturas de baixo carbono. Ao mesmo tempo, a expansão da IA exige investimentos em data centers, redes elétricas, geração, armazenamento e sistemas de refrigeração.

O impacto climático dessa expansão dependerá de como essa infraestrutura será construída.

A MIT Technology Review mostra que empresas de energia nuclear, geotérmica, solar e eólica estão fechando contratos com grandes companhias de tecnologia para atender data centers novos ou em expansão. Ao mesmo tempo, o crescimento acelerado da demanda elétrica também tem estimulado o uso de gás natural para garantir fornecimento no curto prazo. IA domina as conversas na Clima…

Isso coloca a IA diretamente no centro da política energética.

Um novo contexto climático

A discussão ganha peso diante das conclusões do relatório Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente.

O documento afirma que a redução global das emissões não ocorreu em velocidade suficiente para evitar que o aquecimento médio global de longo prazo ultrapasse 1,5°C acima dos níveis pré-industriais nos próximos anos. Mesmo em um cenário otimista, considerando o cumprimento das atuais metas climáticas e dos compromissos adicionais de neutralidade, o aquecimento pode atingir aproximadamente 1,8°C. 

O PNUMA trabalha com uma trajetória de overshoot, peak and decline: ultrapassagem de 1,5°C, limitação do pico de aquecimento e posterior redução da temperatura global.

Para isso, seriam necessárias reduções profundas de emissões, adaptação e, no longo prazo, emissões líquidas negativas. 

O relatório também aponta riscos crescentes para sistemas naturais e humanos, incluindo produção de alimentos, disponibilidade de água, infraestrutura, cidades e biodiversidade. Entre os sistemas sujeitos a alterações graves está a Floresta Amazônica. 

Para o Brasil, portanto, a discussão sobre IA não pode ser separada da política climática.

A 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, reuniu líderes e representantes de todo o mundo – Foto: ONU/Loey Felipe.

Energia, infraestrutura e investimento

A expansão dos data centers está criando uma nova demanda por eletricidade em grande escala. A questão central é qual infraestrutura será construída para atendê-la.

O relatório do PNUMA destaca o risco de carbon lock-in: investimentos em infraestrutura de longa duração e alta emissão podem comprometer países com trajetórias intensivas em carbono durante décadas.

No caso da IA, isso significa que decisões tomadas agora podem ter efeitos climáticos por muitos anos.

Se a nova demanda for atendida por fontes fósseis, a expansão digital poderá contribuir para elevar as emissões. Se for associada a fontes de baixa emissão, redes elétricas modernas, armazenamento e eficiência, poderá acelerar investimentos compatíveis com a transição energética.

A MIT Technology Review informa que o investimento global de capital de risco em tecnologias climáticas chegou a US$ 26 bilhões no primeiro semestre de 2026, 55% acima do ano anterior, segundo dados da Currence. Parte relevante desse movimento está associada a produtos e serviços destinados aos data centers. IA domina as conversas na Clima…

Esse dado mostra que a IA já começa a influenciar a distribuição de capital no setor energético e tecnológico.

Para o Brasil, a oportunidade não está apenas em fornecer eletricidade.

O país pode usar essa demanda para ampliar investimentos em infraestrutura, inovação, formação profissional, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e novas cadeias produtivas associadas à transição de baixo carbono.

O papel do CEBDS

É nesse contexto que a iniciativa do CEBDS, C.A.S.E. e SB COP ganha relevância.

O trabalho realizado durante a preparação para a COP30 identificou mais de 800 iniciativas, das quais 144 foram pré-selecionadas para avaliação aprofundada, envolvendo agricultura regenerativa, bioenergia, restauração florestal, infraestrutura sustentável, financiamento climático e bioeconomia.

A nova etapa pretende avançar da identificação para a implementação.

O CEBDS destaca justamente os fatores necessários para que projetos consigam crescer: financiamento, coordenação institucional, segurança regulatória e capacidade de execução. 

Essa abordagem é coerente com o diagnóstico do PNUMA. O relatório aponta que os obstáculos à redução acelerada de emissões não são apenas tecnológicos, mas também institucionais, econômicos e financeiros. A transição exige capacidade de governança, políticas coordenadas, investimento e condições para implantação em larga escala. 

Nesse sentido, a atuação do CEBDS pode contribuir para aproximar projetos brasileiros de capital, políticas públicas e mercados capazes de ampliar sua implementação.

O Brasil já possui soluções em setores considerados estratégicos para a transição climática. O desafio é ampliar sua escala e transformar esse potencial em resultados econômicos e ambientais mensuráveis.

IA e Brasil

A pergunta sobre a Inteligência Artificial ser boa ou ruim para o planeta não tem uma resposta isolada.

A IA pode contribuir para pesquisa, planejamento, eficiência, desenvolvimento de materiais e otimização de sistemas. Ao mesmo tempo, exige quantidades crescentes de energia e infraestrutura.

Seu impacto dependerá da matriz energética, dos investimentos realizados e das políticas adotadas para orientar sua expansão.

desenvolvimento tecnológico e geração de valor no próprio país.

Para o Brasil, a questão principal é transformar capacidade existente em implementação concreta. É nesse ponto que CEBDS, C.A.S.E. e SB COP formam uma aliança para acelerar a implementação e a escala de soluções climáticas brasileiras, conectando projetos a financiamento, articulação institucional, condições regulatórias e oportunidades de expansão.

A iniciativa busca avançar da identificação de boas soluções para sua aplicação efetiva, especialmente em áreas como agricultura regenerativa, bioenergia, restauração florestal, infraestrutura sustentável, financiamento climático e bioeconomia.

A Climate Week mostra que a agenda climática está entrando em uma fase em que execução e escala são decisivas. Nesse contexto, a articulação entre CEBDS, C.A.S.E. e SB COP reforça a posição do Brasil como país capaz não apenas de assumir compromissos, mas também de desenvolver e ampliar soluções concretas para a transição climática.

A expansão da Inteligência Artificial será parte desse novo cenário. Para o Brasil, o desafio é fazer com que o crescimento da infraestrutura digital esteja associado à ampliação de soluções de baixo carbono, investimento produtivo, inovação, financiamento climático e capacidade de implementação no próprio país.

A 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, reuniu líderes e representantes de todo o mundo em um momento marcado por debates sobre crise climática, inteligência artificial, energia e os novos desafios da cooperação internacional.
Foto: ONU/Loey Felipe.

2026 — Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Relatório Limiting Overshoot: Navigating exceedance of 1.5°C and pathways towards return (“Limitando a ultrapassagem: navegando a superação de 1,5 °C e os caminhos para o retorno”)

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