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NEM TODOS SERÃO RENOIR

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Por Sergio Leitão, diretor-executivo do Instituto Escolhas

No filme O Último Verão de Renoir, o pintor francês Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) revela para uma jovem que era modelo de seus quadros que, antes de ganhar reconhecimento e fama, trabalhava pintando pratos de porcelana. Sua vida mudou com o advento da Revolução Industrial, quando as máquinas passaram a produzir em grande escala aquilo que antes dependia do trabalho artesanal.

A história do pintor poderia terminar ali, como a de milhares de trabalhadores substituídos por uma inovação tecnológica. Mas Renoir ingressou na Escola de Belas Artes em Paris e passou a desenvolver um talento que acabaria transformando-o em um dos grandes mestres da pintura.

Estamos novamente diante de uma transformação econômica tão profunda quanto aquela provocada pela Revolução Industrial. A necessidade de reduzir emissões de gases de efeito estufa está alterando a forma de transportar pessoas e organizar cadeias produtivas, enquanto a inteligência artificial começa a realizar tarefas que antes pareciam reservadas aos humanos.

O que acontecerá agora com aqueles cujo trabalho deixará de existir? Empenho, criatividade ou qualificação não serão suficientes para que cada pessoa encontre uma nova ocupação. Os pianistas que animavam as sessões de cinema mudo perderam espaço quando surgiu o cinema falado. As datilógrafas desapareceram com a popularização dos computadores.

Renoir conseguiu se reinventar porque existia formação, mercados, espaços de aprendizagem e uma sociedade que, apesar de todas as suas contradições, oferecia uma ponte entre o seu ofício que desaparecia e a nova atividade que abraçava.

O debate sobre a transformação ecológica precisa incorporar a necessidade de que as sociedades criem as condições para que pessoas se reinventem. Quando se fala em substituir combustíveis fósseis, zerar o desmatamento, fala-se também em transformar ocupações, deslocar atividades econômicas e extinguir empregos que hoje sustentam milhões de famílias.

Um dos exemplos mais emblemáticos dos impactos sociais de medidas para combater os efeitos das mudanças climáticas ocorreu na França, em 2018, com a chamada Revolta dos Coletes Amarelos. O movimento surgiu após o aumento dos impostos sobre combustíveis fósseis, medida concebida para reduzir emissões de gases de efeito estufa. Embora ambientalmente justificável, a política acabou atingindo de forma desproporcional trabalhadores e famílias de menor renda que vivem nas periferias das grandes cidades francesas, onde o automóvel é muitas vezes a melhor alternativa de transporte. O resultado foi uma intensa mobilização social que mostrou que mesmo medidas corretas do ponto de vista ambiental podem perder legitimidade e gerar forte reação popular quando os custos recaem de maneira desigual sobre os mais vulneráveis.

Uma política de enfrentamento da emergência climática que não responda à pergunta sobre o futuro dos trabalhadores corre o risco de perder legitimidade social. Quando isso acontece surgem resistências que vão muito além da economia, abrindo espaço para o ressentimento, uma das matérias-primas mais poderosas da política.  É nesse vazio que prosperam lideranças que acenam com respostas simples e quase sempre erradas para problemas complexos, oferecendo a nostalgia de um passado que não voltará. 

Na Amazônia, por exemplo, o desafio da transformação ecológica não é apenas o de combater o desmatamento, envolvendo também a construção de alternativas econômicas capazes de competir com ele, já que a derrubada da floresta continua associada à ideia de progresso. A promessa de uma bioeconomia baseada na floresta em pé ainda não se materializou para alterar essa percepção da população.

A verdade é que quando as restrições chegam antes das oportunidades, instala-se a sensação de abandono. Para muitos habitantes daquela região, o Estado aparece de forma mais visível por meio da fiscalização, das multas e da repressão às ilegalidades do que por meio da oferta de educação, ciência, inovação e oportunidades econômicas compatíveis com a floresta preservada.

Se o país pretende de verdade construir novos caminhos, é preciso responder a uma questão fundamental: onde estarão as Escolas de Belas Artes que acolherão os talentos, as capacidades e as aspirações daqueles que precisarão encontrar novas formas de produzir e prosperar, fazendo a ponte entre as atividades que desaparecem e aquelas que ainda estão por surgir? 

Essa é uma questão relevante para o Brasil, que já dispõe de um Plano de Transformação Ecológica liderado pelo Ministério da Fazenda. O plano tem o mérito de colocar o país na rota da economia de baixo carbono, valorizando instrumentos como o mercado de carbono e as finanças sustentáveis. Mas a experiência internacional mostra que a transição ecológica só será bem-sucedida se for também uma transição social. Além de criar incentivos para novos investimentos, é fundamental preparar trabalhadores, ampliar oportunidades de qualificação profissional e garantir que os empregos gerados pela nova economia alcancem principalmente a população de menor renda.

A construção de uma economia de baixo carbono dependerá de inovação, investimento e conhecimento. Mas dependerá também da capacidade de oferecer esperança, oportunidades e pertencimento para aqueles que enfrentarão os custos da transição. Porque, diante das transformações que já começaram, uma coisa parece certa: nem todos serão Renoir.

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