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ESG na prática: por que sustentabilidade virou uma questão de negócio

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.com Por trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

Mais do que uma sigla, ESG ajuda a entender como uma empresa lida com o meio ambiente, com as pessoas e com a própria maneira de tomar decisões. 

O relatório de 2025 da Razer (no final do texto) mostra como esses princípios podem sair do discurso e chegar à energia utilizada, aos produtos, aos fornecedores, aos funcionários e à gestão de riscos.

Rudá CaprilesEco21

Durante muito tempo, falar em sustentabilidade empresarial significava, para muitas companhias, apoiar um projeto ambiental, reduzir o consumo de papel ou realizar alguma ação social. O conceito de ESG ampliou essa visão. Hoje, a pergunta não é apenas o que uma empresa faz pelo meio ambiente, mas como ela funciona e quais impactos produz enquanto faz negócios.

A sigla ESG vem de Environmental, Social and Governance, em português, Ambiental, Social e Governança. Apesar do nome aparentemente técnico, a ideia pode ser entendida por meio de três perguntas relativamente simples.

A empresa procura reduzir seu impacto sobre o planeta? Esse é o E que em português é A de ambiental.

Ela oferece condições adequadas de trabalho, respeita direitos humanos e observa o comportamento de seus fornecedores? Esse é o S, de social.

E existem regras para evitar corrupção, proteger informações, fiscalizar a administração e garantir transparência nas decisões? Esse é o G, de governança.

Na prática, os três pontos estão conectados. Uma empresa pode utilizar energia renovável, por exemplo, mas isso não basta se tolerar trabalho precário em sua cadeia de fornecedores. Da mesma forma, pode ter bons programas para funcionários, mas enfrentar problemas se não possuir controles contra corrupção ou falhas graves na proteção de dados.

É justamente por isso que o ESG ganhou espaço no mundo corporativo: ele propõe olhar para a empresa como um sistema.

O caso da Razer

O Environmental, Social & Governance Report 2025 da Razer oferece um exemplo de como uma grande companhia de tecnologia procura transformar esse conceito em indicadores e metas. O documento apresenta o desempenho ESG da empresa entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025 e reúne iniciativas e resultados relacionados à sua trajetória de sustentabilidade.

A dimensão desse desafio é relevante. A Razer atua globalmente no setor de tecnologia e games e mantém uma cadeia de produção que depende de fabricantes contratados, fornecedores de componentes, empresas de logística, distribuidores e diferentes parceiros. No relatório, os dados ESG consolidados dos cinco principais fabricantes contratados representam aproximadamente 80% dos gastos totais da companhia com aquisições.

Isso ajuda a entender uma das ideias centrais do ESG: não basta observar o que acontece dentro do escritório da empresa. Para uma fabricante de equipamentos eletrônicos, boa parte do impacto ambiental e social pode estar justamente na fabricação dos componentes, no transporte dos produtos e na origem das matérias-primas.

É necessário medir o impacto ambiental para poder reduzi-lo

No campo ambiental, um dos principais focos da Razer é a redução das emissões de gases de efeito estufa.

A empresa informa que concluiu, em 2022, a adoção de energia renovável em todos os seus escritórios corporativos, três anos antes da meta originalmente prevista para 2025. O relatório também registra redução superior a 90% nas emissões de Escopo 1 e 2 em relação à linha de base de 2019.

Em termos simples, os Escopos 1 e 2 estão relacionados principalmente às emissões diretamente associadas às operações da empresa e à energia que ela consome. Já o Escopo 3 é normalmente o mais complexo, porque envolve a cadeia de valor: fornecedores, transporte e outras atividades que acontecem fora das instalações da própria companhia.

Segundo os indicadores apresentados, a intensidade das emissões de Escopo 3 passou de 0,912 kgCO₂e por dólar de valor adicionado em 2019 para 0,520 kgCO₂e em 2025. O relatório considera que a companhia alcançou 78% do objetivo estabelecido para essa meta. A Razer também afirma ter reduzido em 30% as emissões relacionadas às viagens aéreas de negócios na comparação anual.

Traduzindo: a intenção é produzir valor econômico emitindo proporcionalmente menos carbono.

É aqui que aparece uma das razões pelas quais o ESG interessa às empresas. Emissões não representam apenas uma questão ambiental. Podem estar ligadas ao custo da energia, à eficiência logística, à dependência de combustíveis fósseis, às exigências regulatórias e até à vulnerabilidade da cadeia de produção. Reduzir emissões pode, portanto, significar também tornar o negócio mais preparado para uma economia de baixo carbono.

Do carbono ao mouse: a sustentabilidade chega ao produto

Para uma empresa de tecnologia, existe outro problema inevitável: o que acontece com os produtos e materiais utilizados para fabricá-los?

Computadores, periféricos e outros equipamentos eletrônicos utilizam recursos naturais, componentes industriais e embalagens. Mais cedo ou mais tarde, esses produtos também chegam ao fim de sua vida útil.

Por isso, a economia circular aparece com destaque na estratégia apresentada pela Razer. A empresa afirma ter eliminado os plásticos de uso único de seus escritórios corporativos desde 2021 e implementado programas de reciclagem de produtos em todas as RazerStores em 2025. Entre os objetivos para 2030 estão permitir que 100% dos produtos possam ser encaminhados à reciclagem por meio das lojas da marca e fazer com que todos utilizem materiais reciclados ou recicláveis.

Em 2025, a companhia também informou ter ampliado para 131 produtos a cobertura de certificações ambientais verificadas por terceiros, enquanto avançava em iniciativas relacionadas a embalagens, escolha de materiais, durabilidade e possibilidade de reparo.

Essa talvez seja uma das formas mais fáceis de compreender o ESG: uma decisão aparentemente pequena no desenho de um produto pode produzir consequências durante anos.

Um equipamento que dura mais tempo precisa ser substituído com menor frequência. Um produto mais fácil de reparar pode gerar menos descarte. Uma embalagem menor pode significar menos material e também ocupar menos espaço durante o transporte.

O impacto ambiental começa, portanto, antes mesmo de o produto chegar às mãos do consumidor.

Sustentabilidade também significa cuidar de pessoas

Um dos equívocos mais comuns é imaginar que ESG seja sinônimo de meio ambiente. O “S” lembra que nenhuma empresa existe sem pessoas.

No relatório de 2025, a Razer informa que 1.768 funcionários participaram de treinamentos, somando 20.855,5 horas de capacitação durante o ano. Os programas incluem desenvolvimento técnico, competências profissionais, comunicação e formação de lideranças.

Na área de saúde e segurança, o documento informa que 100% dos funcionários estão abrangidos pelo sistema oficial de gestão de saúde e segurança da companhia. Para 2025, foram registrados zero acidentes de trabalho entre os empregados, zero fatalidades e zero lesões de alta consequência, segundo os dados apresentados pela empresa.

Mas o componente social não termina na porta da empresa.

A Razer afirma avaliar riscos trabalhistas, sociais e ambientais entre fornecedores, incluindo questões como jornada de trabalho, trabalho forçado, segurança ocupacional e conformidade ambiental. A companhia também declara exigir que novos fornecedores estejam certificados segundo sistemas reconhecidos de gestão ambiental e de saúde e segurança, como ISO 14001 e ISO 45001.

Esse é um ponto fundamental. Para uma companhia global, não adianta declarar boas práticas internamente enquanto problemas sociais ou ambientais permanecem escondidos em etapas terceirizadas da produção.

O ESG procura ampliar a responsabilidade empresarial para toda a cadeia de valor.

O desafio da governança: quem controla quem toma as decisões?

A governança talvez seja a parte menos visível da sigla, mas é também aquela que sustenta as demais.

Uma empresa pode anunciar metas climáticas ambiciosas. A questão é: quem acompanha essas metas? Quem confere os dados? Quem responde quando algo dá errado?

No caso da Razer, o relatório informa que o Conselho de Administração possui responsabilidade final sobre a agenda de sustentabilidade e acompanha o desempenho ESG, os riscos e as oportunidades associados ao tema. O documento também declara seguir estruturas internacionais de reporte, com referências ao GHG Protocol, SBTi, TCFD e GRI.

A empresa afirma ainda que seus dados ESG passaram por revisão interna e por procedimentos externos de asseguração limitada. Segundo o relatório, não foram identificados em 2025 casos confirmados de corrupção, suborno, violações de dados ou descumprimentos materiais.

Governança, portanto, é o mecanismo que tenta transformar compromissos em responsabilidade. Sem controles, indicadores e transparência, metas ambientais ou sociais correm o risco de permanecer apenas no campo das intenções.

ESG não é simplesmente “ser verde”

Talvez a maior contribuição do conceito de ESG seja justamente mostrar que sustentabilidade empresarial não pode ser tratada como uma campanha isolada.

Ela está na escolha da energia, mas também no fornecedor. Está na emissão de carbono, mas também nas condições de trabalho. Está na reciclagem de um produto, mas também na maneira como o conselho de administração acompanha os resultados.

O próprio relatório da Razer reconhece que essa transformação envolve custos e dificuldades. Mudanças na cadeia de fornecedores e novas exigências de divulgação podem aumentar despesas no curto prazo. Ao mesmo tempo, a companhia argumenta que adiar essas mudanças pode ampliar riscos financeiros, regulatórios e reputacionais no futuro.

Essa talvez seja a maneira mais simples de compreender por que ESG se tornou importante para as empresas.

Não se trata apenas de fazer o bem. Trata-se de entender melhor os riscos e impactos de fazer negócios.

O relatório da Razer mostra uma empresa que procura traduzir essa lógica em números: mais de 90% de redução nas emissões operacionais de Escopos 1 e 2 em relação à referência de 2019; energia renovável nos escritórios; 131 produtos com certificações ambientais verificadas; programas de reciclagem em suas lojas; mais de 20 mil horas de treinamento de funcionários e mecanismos de controle sobre fornecedores e governança.

Os números permitem acompanhar avanços, mas também tornam as empresas mais expostas à cobrança. Afinal, publicar uma meta significa permitir que, nos próximos relatórios, consumidores, investidores, funcionários e a sociedade possam perguntar: ela foi realmente cumprida?

É aí que o ESG deixa de ser apenas uma sigla corporativa e ganha sua verdadeira importância. Quando aplicado com transparência e acompanhado por indicadores verificáveis, ele cria uma maneira de avaliar não somente quanto uma empresa cresce, mas como ela cresce, e quais consequências deixa pelo caminho.

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