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NAS ESTRADAS, NO “MATO”, NOS OCEANOS: O LIXO VAI DESENHANDO UMA TRISTE SAGA NA HISTÓRIA HUMANA

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Samyra Crespo || Ambientalista, coordenou a série de pesquisas nacionais intitulada “O que o Brasileiro pensa do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável” (1992-2012). Foi uma das coordenadoras do Documento Temático Cidades Sustentáveis da Agenda 21 Brasileira, 2002. Pesquisadora sênior do Museu de Astronomia e Ciências Afins/RJ. Ex-Gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Como ambientalista que sou, já  tive vários pesadelos com o lixo, seja ele industrial, doméstico ou fruto da vida urbana “embalada” em todo tipo de material descartável: vidro, plástico, papel, alumínio e outras categorias. Os técnicos chamam a tudo isto “resíduos sólidos ” e eles, infelizmente, não se desmancham no ar. Longe disso

Se pudéssemos visitar a “história do lixo”, verificaríamos com certo estupor que até o século XIX no Brasil (mas não só aqui), o lixo era despejado em covas de quintal, valas,  córregos e rios e o “fora” era longe dos olhos, no “mato”. Um pouco antes disso, as famílias jogavam o conteúdo dos urinóis na rua assim como vísceras de peixes e outros animais, disputada essa carniça por urubus, cães vadios e ratazanas à  noite. A cidade fedia e as doenças relacionadas à sujeira eram numerosas.

O saneamento,  tal como o conhecemos hoje é, portanto, prática bem recente. Mas ainda se faz, para nosso desgosto, em grande parte clandestinamente. Quem não vê  – a céu aberto –  os monturos de lixo, por exemplo nas estradas? Viajando do Rio para a Região dos Lagos conta-se às centenas. Imagino o resto do país. A queima de lixo, entulho e restos de poda, também proibida por emitir CO2 e outros gases tóxicos na atmosfera, é simplesmente ignorada.

Apesar da Lei Nacional de Resíduos Sólidos estar em vigor desde 2010, e proibidos os “lixões” , eles se multiplicam por aí.  A quem responsabilizar?

A produção do lixo assusta por causa da escala e do estilo de vida que tende a aumenta-lá indefinidamente. Mesmo os que vivem em áreas rurais adotaram o mundo das embalagens. Com a pandemia da COVID  o descarte de máscaras, luvas, sapatilhas, seringas, agulhas e embalagens de desinfetante e álcool atingiu um volume estratosférico. E a coisa tem uma dinâmica global.

O reaproveitamento de embalagens, assim como a reciclagem de materiais ocorrem, porém mais lentamente que a produção diária, cotidiana e sistemática dos resíduos.

O último Relatório do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas – Breaking The Plastic Wave –  alerta que 11 milhões de toneladas de lixo são  jogadas anualmente nos oceanos. 70% deste lixo é  composto por plásticos e assemelhados.  Um caminhão por minuto de despejos no mar. Que ecossistema é  capaz de resistir à tamanha agressão?

E este número assustador pode triplicar até  2040, acrescenta o Relatorio.  20 anos é  daqui a pouco.

Lembro de ficar assombrada quando, nos anos 90 navios carregados de canudos plásticos ficavam singrando nos mares buscando um país que aceitasse aquele lixo. Lembro de ter conhecimento de que – durante a Guerra das Malvinas o governo argentino de então trocou a licença de receber lixo tóxico por  armamento. É  fato conhecido e denunciado de que diversos países da África se tornaram repositórios de artefatos eletrônicos com materiais perigosos. E o trabalho de desmanche desses materiais é feito em geral por mulheres e crianças.

Sabíamos que ao adotarem o estilo de vida ocidental, uma boa parte do mundo iria aderir à  cultura do consumo, do descarte e do desperdício. Felicidade das corporações, desgraça coletiva.

A inclusão da China, da Alemanha Oriental, da Rússia e de outros países na globalização dos hábitos e do comportamento urbano –  típicos do ocidente –  fez os gráficos de produção do lixo irem aos píncaros.

Em outros tempos, diríamos  “são os males da civilização”.

Hoje já temos  certeza científica  de que o “efeito bumerangue” de toda essa agressão cumulativa ao meio ambiente já está com a seta de retorno apontada para nós, ameaçando não somente nosso bem estar, mas nossa própria existência.

Muitas vezes, penso, o vedetismo de manchetes dedicadas às mudanças climáticas nos fazem esquecer – ou esmorecer – de outros fronts importantes. E o lixo é sem dúvida um deles.

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