Samyra Crespo | Ambientalista. Ex-Presidenta do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
Fui presidente, portanto gestora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, de 2013 a 2016. O JB é uma autarquia federal subordinada ao Ministério do Meio Ambiente e seu titular é nomeado pelo presidente da República.
Olhando só a casca trata-se de um jardim botânico, o mais antigo do Brasil, criado por D. João VI, para ser um horto de aclimação – isto é, um sítio para se experimentar o crescimento de plantas exóticas para fins comercial. Só isto já é uma sobrevivência histórica de respeito.
Somente foi aberto à visitação depois da Independência – e para famílias aristocráticas. Mais tarde, já no II Império tornou-se público e um dos passeios mais valorizados da cidade, graças a seu paisagismo exuberante e à presença de muitas edificações históricas. Este Jardim, tido como um dos mais belos – entre os dez de caráter historico – existentes no mundo, tem seu patrimônio regulado e protegido pelo IPHAN: nada pode ser alterado ali sem um parecer técnico.
Olhando para o miolo do Jardim, temos ali uma instituição complexa que inclui um instituto de pesquisa acadêmica, científica, uma das mais respeitadas do mundo, que coopera com outros centros científicos e que está mapeando nada mais nada menos que a flora do mundo. Este centro possui regras de funcionamento determinadas pelo Ministério da Ciência e da Tecnologia. Inclui também uma Escola de Botânica, de pós graduação, que recebe alunos do Brasil todo. Esta escola é regulada pelo MEC. Inclui ainda uma Biblioteca de Obras Raras, que segue as normas do Ministério da Cultura. Mais recentemente, um antigo e decadente prédio, onde existia um modesto museu botânico, foi transformado no Museu do Ambiente. Gastou-se uma fortuna na recuperação do edifício, um casarão bonito que fica à entrada do Jardim.
Perceberam a complexidade? Não é só um lindo e velho jardim de plantas. Ali temos sítios arqueológicos, casarões tombados e uma montanha de problemas para administrar, tais como uma favelização degradante nos seus fundos – que aliás a Justiça determinou que se removesse, juntamente com prédios e ocupações públicas indevidas.
Assim sendo, defender o Jardim Botânico é defender uma instituição que é mais do que parece, e que entrega à sociedade mais do que ela pensa.
Quando fui nomeada presidente da Instituição, o Ministério do Meio Ambiente tinha uma clara noção de que era preciso modernizar a gestão e preparar o Jardim para os desafios da intensificação da visitação (durante Olimpíadas), assim como para as novas exigências do tempo: acessibilidade, racionalização dos trajetos de visitação e servicos básicos como transporte, alimentação e sanitários.
Tínhamos também clareza de que era necessária uma reforma administrativa e uma modernização da própria gestão.
O Jardim conta, além do corpo tecnico-científico próprio, com auditor, um procurador exclusivo ( para dar conta do imbróglio jurídico) e ainda com uma Associação de Amigos bastante atuante. Soma-se a isso um numero razoável de empresas contratadas para manutenção e segurança.
Para fortalecer o projeto de modernização do Jardim foi criado um Conselho misto que incluía especialistas e representantes da sociedade civil. Nomes de peso integraram este colegiado: Israel Klabin, David Zylbersztajn, Aspásia Camargo, Celina Carpi, Suzana Khan, entre outros e a própria ministra de então o presidia – Izabella Teixeira.
A engenharia dos conselhos existe justamente para três finalidades: ampliar o debate sobre decisões estratégicas, dar transparência à gestão e proteger a instituição de idéias levianas ou estapafúrdias, casuísticas.
Infelizmente, com a minha saída o Conselho foi extinto pelo meu sucessor (nomeado por Temer) e o projeto de modernização interrompido.
Quando se quer enfraquecer, sucatear ou transformar autoritariamente uma instituição, tem-se uma receita infalível:
1 – deixe seu orçamento minguar;
2 – indique para a direção alguém que não é do ramo;
3 – deixe seus quadros experientes se aposentarem e não faça mais concurso;
4 – loteie os cargos comissionados para o baixo clero e deixe que façam a festa;
5 – demore a nomear auditor e procurador para facilitar conluios nos contratos com terceiros;
6 – intimide a audiência interna;
7 – Diminua a transparência fornecendo informações cosméticas ou mentirosas para a imprensa.
Se por acaso, ou azar ocorrer uma pandemia – tanto melhor.
Amanhã falarei especialmente do Museu do Ambiente, a ponta do iceberg.