Por Celso Sánchez *|
Em homenagem ao dia da água de 2026
Para mim, um dos marcos simbólicos da Guerra Fria ocorreu em 17 de agosto de 1945, quando George Orwell publicou A Revolução dos Bichos. Na obra, a “granja solar” é tomada por uma rebelião dos animais dali, liderados pelos porcos. Eles queriam instituir uma sociedade igualitária e ter o controle da comida e da água e a garantia de suas vidas. Mais adiante, compreendemos tratar-se de uma sátira pessimista sobre a possibilidade de uma sociedade mais justa — uma crítica direta à Revolução Russa de 1917. Essa narrativa dialogava profundamente com o imaginário norte-americano do pós-Segunda Guerra Mundial, alimentando o medo do comunismo e contribuindo para a construção de um ambiente político que justificaria intervenções globais.
Foi essa “sombra” ideológica que, por décadas, ajudou a legitimar ações como a Operação Condor — articulação repressiva entre ditaduras da América Latina nas décadas de 1970 e 1980, responsável por torturas, assassinatos e perseguições políticas (Dinges, 2004). No Brasil, esse período foi particularmente emblemático: militares caminharam de mãos dadas com grandes empreiteiras, engenheiros e economistas, entre outras elites intelectuais, promovendo uma transformação profunda na paisagem nacional.
Construíram-se estradas que cortaram florestas, barragens que afogaram comunidades inteiras e projetos urbanos que ignoraram dinâmicas socioambientais locais.
São inúmeros exemplos Brasil afora, mas, para minha geração de ambientalistas, o fim das Sete Quedas é um dos mais assustadores e deprimentes deles. Mas também poderia ser Carajás, Tucuruí, Xingu ou a Barra da Tijuca. Todos eles nos fazem chorar de raiva e tristeza até hoje.
Tudo isso em nome de um suposto “progresso” que, mais tarde, revelou-se frequentemente associado à corrupção e à concentração de renda (Fausto, 2015).
Esse modelo de desenvolvimento nacional esteve sempre atrelado à ideia de crescimento econômico baseado no consumo. Como sintetizou o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto: “é preciso fazer o bolo crescer para depois dividir”. No entanto, a divisão nunca ocorreu de forma equitativa. Sempre comeram a cereja do bolo antes de servi-lo, e a nós coube apenas lamber os beiços.
A lógica de que o consumo libertaria os pobres consolidou políticas habitacionais como o programa Minha Casa Minha Vida, que, embora tenha reduzido o déficit habitacional (com mais de 5 milhões de unidades contratadas até 2022 — Ministério das Cidades), também foi criticado por deslocar populações para periferias distantes, muitas vezes em habitações padronizadas, de baixa qualidade urbanística e desconectadas de suas formas de vida anteriores.
Às vezes, gente que tinha seu quintalzinho e sua hortinha foi viver em apartamentos de 2 quartos em 40 metros quadrados.
Esse processo contribuiu para o agravamento de uma crise habitacional estrutural. Segundo a Fundação João Pinheiro (2023), o déficit habitacional brasileiro ainda ultrapassa 5,8 milhões de moradias. Além disso, consolidou-se uma narrativa histórica de marginalização das favelas, frequentemente classificadas como “aglomerados subnormais” pelo IBGE — termo hoje amplamente criticado por seu viés estigmatizante. Foi preciso, portanto, convencer que chamar habitação de subnormal era, de alguma maneira, quase como uma sátira de Orwell, chamando as pessoas também de sub-humanas. Mas lembro que foi preciso convencer a elite intelectual afinada com a Operação Condor de que era um absurdo chamar de subnormal; não foi uma batalha semântica fácil e continua não sendo.
Durante muito tempo, essa classificação ajudou a sustentar uma visão desumanizante desses territórios. No entanto, as próprias periferias — “nada de nós sem nós”, como elas mesmas levantaram como lema para narrativas sobre elas — demonstraram sua potência cultural, produzindo arte, poesia, música, dança, ciência e formas próprias de organização social e milhares, senão milhões, de experiências locais de tecnologias sociais e ambientais alternativas.
Mesmo assim, um número incontável de chacinas, que, para parte da sociedade, são vistas com aplausos, segue como parte do cotidiano dessas realidades. A persistência da violência policial evidencia o que Achille Mbembe conceitua como necropolítica: o poder de decidir quem deve viver e quem pode morrer.
No Brasil, essa lógica se manifesta de forma brutal. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (2023), mais de 6.400 pessoas foram mortas por intervenções policiais em um único ano — a maioria jovens, negros e moradores de periferias.
Essa necropolítica também se expressa no urbanismo. Projetos urbanos frequentemente “encobrem o outro”, como diria Enrique Dussel, apagando rios, soterrando nascentes e substituindo ecossistemas por concreto. O Rio de Janeiro, por exemplo, possui cerca de 267 rios urbanos, muitos deles canalizados ou invisibilizados (INEA). A cidade, apesar do nome, foi construída de costas para seus rios.
Ao mesmo tempo, as mudanças climáticas intensificam eventos extremos. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) alerta que chuvas intensas e eventos extremos tendem a aumentar em frequência e intensidade. No Brasil, isso já é visível: enchentes, deslizamentos e ondas de calor tornaram-se mais recorrentes.
Há uma relação direta entre urbanização desordenada e vulnerabilidade climática. A redução de áreas verdes, a impermeabilização do solo e o soterramento de cursos d’água agravam esses impactos.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a revolução que se avizinha não será ideológica nos moldes da Guerra Fria. Ela será ecológica.
Uma “revolução dos bichos” — humanos e não humanos — que emergirá da ruptura com o modelo atual de desenvolvimento. Virá da quebra do asfalto, da renaturalização das cidades dos rios, da recuperação de nascentes e brejos soterrados.
Essa revolução implicará uma desbrutalização do urbanismo e o reconhecimento das periferias como sujeitos centrais. Implicará também uma nova relação com a natureza — não mais como recurso a ser explorado, mas como alteridade fundamental com a qual coexistimos.

Trata-se de substituir o desenvolvimento por um ecoenvolvimento: uma lógica baseada na interdependência entre sociedade e natureza. A água, nesse contexto, emerge como elemento central — não apenas como recurso, mas como direito universal humano, como reconhecido pela ONU desde 2010. E nós o reconheceremos como direito universal não humano, incluindo bichos, plantas e pedras como parte do que chamamos de universal, a contragosto de alguns.
A revolução virá quando compreendermos que somos parte da natureza, que precisamos aprender a ser com a natureza e não contra ela, como dizia Moscovici. E as escolas terão este assunto como seu conteúdo.
Quando reconhecermos que todos somos, de alguma forma, ribeirinhos — dependentes da água, mesmo quando ela nos foi tornada invisível, haverá uma tomada de consciência de classe ecossistêmica, e perguntaremos: Como podemos colaborar com nosso ecossistema?
A revolução virá da gestão comunitária, da participação popular e da reconstrução de vínculos entre território, cultura e meio ambiente.
A revolução pode até não ser televisionada, mas será ecológica, sem dúvida nenhuma.

* Prof. Celso Sánchez
Biólogo
Professor Associado iV da Unirio
Coordenador do Grupo de Estudos em Educação Ambiental Desde El Sur GEASur Unirio
Referências
BRASIL. Ministério das Cidades. Programa Minha Casa, Minha Vida: dados e resultados. Brasília: Ministério das Cidades, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/cidades. Acesso em: 22 mar. 2026.
DINGES, John. Os anos do Condor: uma década de terrorismo internacional no Cone Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 14. ed. São Paulo: Edusp, 2015.
FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023. São Paulo: FBSP, 2023. Disponível em: https://forumseguranca.org.br. Acesso em: 22 mar. 2026.
FUNDAÇÃO JOÃO PINHEIRO. Déficit habitacional no Brasil 2023. Belo Horizonte: FJP, 2023. Disponível em: https://www.fjp.mg.gov.br. Acesso em: 22 mar. 2026.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Aglomerados subnormais: informações territoriais. Rio de Janeiro: IBGE, 2019. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 22 mar. 2026.
INSTITUTO ESTADUAL DO AMBIENTE (INEA). Hidrografia urbana do estado do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: INEA, [s.d.]. Disponível em: https://www.inea.rj.gov.br. Acesso em: 22 mar. 2026.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2021: The Physical Science Basis. Cambridge: Cambridge University Press, 2021.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability. Cambridge: Cambridge University Press, 2022.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: IPCC, 2023.
MBEMBE, Achille. Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção e política da morte. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
MOSCOVICI, Serge. Sociedade contra a natureza. Petrópolis: Vozes, 1975.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Resolução A/RES/64/292: o direito humano à água e ao saneamento. Nova York: ONU, 2010. Disponível em: https://www.un.org. Acesso em: 22 mar. 2026.
ORWELL, George. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.



