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As mudanças climáticas, os pobres e os ricos

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Arthur Soffiati

Nesse fim de primavera e início de verão, chove no Brasil. Deverá chover mais ainda no verão. Nesse fim de outono e início de inverno, chove em Portugal. Na verdade, chove na América do Sul e na Península Ibérica. É que nosso nacionalismo e bairrismo nos levam a só noticiar sobre o que acontece perto de nós, como se o mundo ainda vivesse no século XIX. Pelo menos, os climatologistas de Portugal reconhecem logo que as chuvas sobre todo o país derivam das mudanças climáticas. No Brasil, eles também devem reconhecer, mas continuam tratando de modo convencional chuvas e secas como fenômenos meteorológicos. 

Durante o verão de 2022 em Portugal e na Europa em geral, assim como na América do Norte e Ásia, a seca foi inclemente, causando incêndios colossais. O nível dos rios baixou drasticamente. A nascente do rio Tâmisa secou. Grandes rios da China puderam ser atravessados a pé em seus leitos secos. Na Europa oriental, Rússia e Ucrânia travam uma guerra de quase um ano. Em todo planeta Terra, a humanidade trava uma guerra de 500 anos contra a natureza. Trata-se da mais longa guerra conhecida, embora não devidamente reconhecida. A humanidade vem atacando florestas, rios, lagos, mares e fauna. Vem causando poluição física, química e biológica. Vem lançando gases na atmosfera e transformando o lençol que causa o efeito-estufa (necessário à vida) em cobertor e edredom, que aquecem demasiadamente o planeta e provocam mudanças climáticas.

Um dos mísseis lançados pela natureza contra a economia que globalizou o mundo é a seca severa. Outro consiste nas chuvas volumosas e destruidoras. Outro ainda são os vírus, bactérias e demais micro-organismos, causando pandemias que se disseminam rapidamente com os velozes meios de transporte. Ao penetrarem grandes concentrações humanas nas cidades, esses agentes contagiosos encontram condições ideais para se propagar.

Nunca a natureza foi tão bombardeada como atualmente. Nunca as reações dela foram tão intensas. Sabemos que, da parte da natureza, não há intenção de guerra. Ela tem inteligência, mas não consciência de que está sendo bombardeada e de que bombardeia. Por sua vez, o pensamento desenvolvimentista nascido no ocidente e disseminado por todo o mundo acreditava (em grande parte, ainda acredita) que destruir a natureza era (é) promover o progresso. É farta a documentação sobre essa crença. Na verdade, o espírito otimista do ocidente não esperava reações adversas da natureza além daquelas consideradas normais.

A chuva provocou o aluimento de parte do IP2, em Monforte
Via rompida em Monforte, Alentejo. Portugal

Depois de afundar o pé no acelerador, a economia de mercado afirma a necessidade de afundar o pé no freio, como acontece nas conferências mundiais sobre mudanças climáticas. Discute-se como frear, mas, até agora, apenas três avanços foram alcançados: 1- o reconhecimento de que a economia está provocando alterações perigosas no clima; 2- o reconhecimento da necessidade em limitar o aquecimento global a 1,5° em relação às temperaturas vigentes no início da revolução industrial e 3- a criação de um fundo de combate aos danos causados pelas mudanças climáticas, sobretudo em países que menos contribuem para ela. O ítem 3 foi o avanço da COP-27. Mas apenas a necessidade foi reconhecida. O montante de recursos e a origem deles ficaram para a próxima conferência.

Enquanto isso, a guerra continua e os mais afetados são os pobres. Entenda-se por pobres não apenas seres humanos, como também os ecossistemas. A derrubada da Mata Atlântica foi uma operação secular de guerra. O barramento de rios em todo o mundo foi outra. Está em curso a extinção de espécies, a poluição das águas doces e salgadas, a urbanização excessiva, a queima de combustíveis fósseis, a poluição do ar, a contaminação dos solos e dos alimentos. A guerra atinge a natureza e os humanos pobres principalmente. 

Chamam a atenção as diferenças entre países ricos e países pobres. As intensas e recentes chuvas em Portugal (em pouco mais de um dia, choveu o equivalente a um mês) levam os cientistas e gestores públicos a recomendarem às pessoas que permaneçam em suas casas, mesmo as pobres. No Brasil, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) envia alertas para que moradores de área de risco saiam de casa, como vem acontecendo em Angra dos Reis, Petrópolis, Recife e em várias outras cidades. 

Em Portugal, climatologistas e urbanistas reconhecem que cidades como Lisboa cresceram demais e não se prepararam para a nova realidade climática. O prefeito pleiteia um túnel para escoamento de águas pluviais. No Brasil, depois de enchentes, os governantes sobrevoam as áreas atingidas, lamentam as mortes, anunciam liberação de verbas para atender às vítimas e tudo fica na mesma até a próxima catástrofe. Há diferenças em tratar da catástrofes climáticas nos países ricos e pobres. Não se sabe se é possível reverter-se as mudanças climáticas às condições pré-industriais. Caso sim, é tarefa por demais custosa e demorada. As adaptações ao novo normal na Terra demoram menos, mas a humanidade está confusa.

O caudal da Várzea de Loures (junto à A8) extravasou devido à chuva
Transbordamento e alagamento em Loures, zona metropolitana de Lisboa

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