Iniciativa financiada pelo BNDES recupera área equivalente a mais de 290 campos de futebol na Serra e no Meio-Oeste catarinense e envolve agricultores familiares na cadeia da restauração florestal
Um projeto coordenado pela Fundação CERTI restaurou 292 hectares de áreas degradadas da Mata Atlântica em Santa Catarina — extensão equivalente a mais de 290 campos de futebol. A iniciativa, intitulada Mais Floresta com Araucária, foi viabilizada por meio de edital do BNDES voltado à restauração ecológica e contemplou regiões da Serra Catarinense e do Meio-Oeste do estado.
Ao todo, foram plantadas cerca de 40 mil mudas de 12 espécies nativas, com foco na recomposição da Floresta Ombrófila Mista, formação típica do bioma Mata Atlântica no Sul do Brasil. Entre as espécies utilizadas está a Araucaria angustifolia, árvore símbolo da região e responsável pela produção do pinhão, alimento tradicional e base de atividades econômicas locais.
Segundo Gisele Alarcon, gerente de projetos do Centro de Economia Verde da CERTI, a restauração contribui para reverter o processo de perda de diversidade genética que ameaça o ecossistema. “Além do impacto positivo sobre o habitat e a biodiversidade, a recomposição florestal fortalece a regulação climática, a nutrição do solo, a polinização e a disponibilidade de recursos hídricos, além de garantir a provisão de alimentos e produtos florestais”, afirma.
Atuação em áreas de preservação e assentamentos
Na Serra Catarinense, o projeto atuou em parceria com agricultores familiares nos municípios de Urupema e Urubici, recuperando Áreas de Preservação Permanente (APPs). Em Bom Retiro, as ações ocorreram em áreas degradadas da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Canto do Araponga.
Já no Meio-Oeste, o trabalho concentrou-se em Passos Maia, onde 192 hectares de Reserva Legal foram restaurados nos assentamentos da reforma agrária Zumbi dos Palmares e 29 de Junho. Nessas áreas, além do plantio convencional de mudas nativas, foram implantados módulos de sistemas agroflorestais (SAFs).
Os SAFs combinam espécies arbóreas nativas com culturas agrícolas, promovendo diversificação produtiva e recuperação ambiental simultânea. Diferentemente das monoculturas dependentes de insumos químicos, esses sistemas utilizam espécies adubadeiras que protegem o solo e favorecem a fixação de nitrogênio, criando condições para o desenvolvimento de outras plantas.
As unidades piloto implementadas em Passos Maia já geram reflexos econômicos: famílias assentadas passaram a integrar o fornecimento de alimentos para a merenda escolar por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), enquanto aguardam a produção futura de mudas enxertadas de araucária e outras espécies frutíferas nativas.

Capacitação e geração de renda
O projeto também priorizou a formação técnica de agricultores familiares, que participaram de capacitações, visitas técnicas e atividades práticas, como coleta de sementes, produção e plantio de mudas, além da construção e manutenção de cercas para proteção das áreas restauradas.
A estratégia buscou estruturar uma cadeia de valor da restauração florestal, ampliando as oportunidades de geração de renda no campo. “Nosso objetivo foi ir além do plantio. Trabalhamos para que os participantes possam atuar no mercado da restauração, seja na coleta de sementes, produção de mudas ou no monitoramento das áreas recuperadas”, destaca Alarcon.
Base científica e parcerias acadêmicas
A execução técnica contou com o apoio de instituições de ensino e pesquisa. Viveiros florestais foram ampliados em parceria com a UDESC, em Lages, e o IFSC Câmpus Urupema. O projeto também realizou mapeamento detalhado das áreas a serem restauradas e identificação de árvores matrizes para coleta de sementes.
O Núcleo de Pesquisa de Florestas Tropicais (NPFT) da UFSC foi responsável pela caracterização genética das plantas que originaram as mudas, assegurando maior adaptação às condições climáticas locais e potencial produtivo.

Alinhamento a políticas nacionais e internacionais
O Mais Floresta com Araucária está alinhado ao Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) e às metas da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), reforçando o papel da restauração florestal como estratégia de mitigação das mudanças climáticas e fortalecimento da biodiversidade.
Ao estabelecer um modelo replicável de recomposição da Mata Atlântica com inclusão produtiva, o projeto consolida uma abordagem integrada que combina ciência, políticas públicas e protagonismo comunitário — elemento considerado central para a escalabilidade das iniciativas de restauração no Brasil.



