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Irã ameaça reagir sem contenção a novos ataques contra infraestrutura energética

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Lúcia Chayb Diretora eco21.eco.br @eco21_oficial @luciachayb luciachayb@gmail.comPor trinta anos foi a jornalista responsável pela revista ECO21 (1990/2020)

A guerra no Oriente Médio entrou em uma fase ainda mais perigosa ao deslocar seu centro de gravidade para a infraestrutura energética. O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou na quinta-feira, 19 de março, que Teerã demonstrará “contenção zero” caso suas instalações de energia sejam novamente atacadas. A declaração veio após o bombardeio israelense ao campo de gás de South Pars, o maior do mundo, compartilhado entre Irã e Catar.

A resposta iraniana atingiu, entre outros alvos, o complexo de Ras Laffan, no Catar, peça-chave do mercado global de gás natural liquefeito. Segundo a QatarEnergy, os danos retiraram de operação cerca de 17% da capacidade exportadora do país por um período estimado entre três e cinco anos, com impacto direto sobre contratos de fornecimento para Europa e Ásia. A dimensão do choque ajuda a explicar a reação imediata dos mercados internacionais e o aumento do temor de uma crise energética de escala global.

Mais do que um episódio militar isolado, o ataque cruzado entre instalações de gás e petróleo expõe uma fragilidade estrutural do modelo energético mundial: sua dependência de corredores geopolíticos altamente sensíveis. O South Pars é vital para o abastecimento interno iraniano, enquanto Ras Laffan responde por parcela decisiva da oferta mundial de GNL. Quando essas infraestruturas entram na lógica da retaliação, não é apenas o equilíbrio regional que se rompe — é a própria segurança energética global que passa a operar sob estresse.

O abalo foi imediato. O Brent chegou a tocar US$ 119 por barril antes de recuar, enquanto os preços do gás dispararam e bolsas da Ásia e da Europa fecharam em forte queda. Companhias aéreas já alertam para o encarecimento do combustível e para a provável alta das tarifas, num efeito em cadeia que tende a atingir transporte, indústria, eletricidade e custo de vida, sobretudo nos países mais vulneráveis à volatilidade energética.

Ao mesmo tempo, a crise aprofundou as ambiguidades entre Washington e Tel Aviv. Autoridades israelenses indicaram que os objetivos de guerra dos dois países não são idênticos, e a própria inteligência dos EUA reconheceu essa divergência. Donald Trump tentou se distanciar politicamente do ataque ao campo de gás, ao mesmo tempo em que afirmou ter pedido a Benjamin Netanyahu que suspendesse novas investidas contra instalações energéticas iranianas. Ainda assim, as mensagens contraditórias da Casa Branca reforçam a percepção de descoordenação estratégica em meio a uma escalada com efeitos globais.

Na Europa e entre aliados asiáticos, cresceu a pressão por contenção. Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Holanda e Japão manifestaram preocupação com a possibilidade de bloqueios e novos ataques no entorno do estreito de Ormuz, um dos pontos mais críticos do comércio mundial de energia. A União Europeia também declarou estar mobilizada diplomaticamente para tentar reduzir as tensões e evitar um agravamento simultâneo nas frentes energética, econômica e migratória.

Em Washington, o secretário de Defesa Pete Hegseth procurou sustentar a narrativa de que os objetivos norte-americanos permanecem “inalterados, no alvo e conforme o plano”, rechaçando a ideia de que os EUA caminham para uma guerra prolongada. Mas a retórica oficial contrasta com o cenário concreto: preços em alta, expansão do teatro militar, reforço de tropas na região e crescente temor de que o conflito deixe de ser apenas uma guerra regional para se tornar um gatilho de instabilidade sistêmica.

Para além da disputa entre Estados, o episódio revela algo maior: a infraestrutura dos combustíveis fósseis tornou-se, ela própria, um vetor de insegurança planetária. Oleodutos, refinarias, terminais e campos de gás deixaram de ser apenas ativos econômicos e passaram a funcionar como alvos estratégicos capazes de irradiar choques em escala mundial. Quando a energia fóssil se converte em campo de batalha, o preço não é pago apenas pelos países em guerra, mas por toda a economia global — especialmente pelas populações mais expostas à inflação, à carestia e à instabilidade

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